Jean Michel Basquiat: First Impressions

“UMA EXPOSIÇÃO SÓ PARA O BRASIL”

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) foi o primeiro artista negro a alcançar o palco principal do mundo da arte novaiorquino de forma expressiva. Claro, houveram outros artistas visuaisv afro-americanos muito vistos nas décadas anteriores – desde a Harlem Renaissance dos anos 1920, James Van Der Zee nos anos 1930, Jacob Lawrence nos 1940, até Romare Bearden nos 1960 e David Hammons nos anos 1970. Mas desde o início Basquiat parecia estar nos ombros de gigantes e ser internacional. Ele tirava inspiração e imaginário diretamente de disciplinas aliadas como a música de Charlie “Bird” Parker e Jimi Hendrix, cantoras como Billie Holiday e Janis Joplin e das lendas do boxe Muhammad Ali, Sugar Ray Robinson e Joe Louis. Ele parecia canalizar a formidável cutura popular na visão de um pintor sobre o homem negro no lado de fora da estrutura do poder.

O edifício da cultura dos Estados Unidos é sustentado pelo brilho de Las Vegas, a celebridade de Hollywood, o dinheiro de Wall Street, o músculo publicitário da Madison Avenue e o poder político de Washington. Mas fora dos saguões do poder cultural está a rua – e enquanto Basquiat, um menino de classe média do Brooklin, crescia nos anos 1980, as ruas de sua Nova Iorque natal eram uma zona de guerra caracterizada por uma estrutura despedaçada, troca de tiros todas as noites e estações de metrô decadentes e cobertas de grafite. E sim, Nova Iorque também era um lugar de música selvagem, boates bagunçadas e muitas drogas – tudo o que seduzia Basquiat. Era talvez uma função da assinatura do artista engajar estas forças da rua e unir visões dos mundos díspares de quem está dentro e fora.

Meu primeiro encontro com Jean-Michel Basquiat foi em 1982, no Lower East Side, emu ma das aberturas da Fun Gallery de Patti Astor. Era uma noite caótica, a galeria estava lotada, e mesmo assim Basquiat me impressionou com seu carisma e seu entourage. Já conhecia seu trabalho na época, claro. Dois anos antes, tinha visto seu primeiro trabalho exibido – um muro grafitado, assinado com o nome que ele usava então, SAMO – na hoje legendária exposição “Times Square Show”, no verão de 1980. A mostra foi montada em um prédio dilapidado e vazio na Times Square, o lado mais sujo de uma casa de massagens. Quando os visitantes entravam pela porta quebrada encontravam a ferocidade anárquica de as imagens duras das ruas selvagens da cidade, mal domesticadas e trazidas para dentro por trinta artistas igualmente selvagens de uma nova geração, incluindo Jenny Holzer, Tom Otterness, Walter Robinson e Kiki Smith.

O púlbico brasileiro sentirá em breve um choque similar de “beleza suja”. A exposição de Jean-Michel Basquiat no CCBB RJ, a partir de agosto, será a primeira retrospectiva do artista em um museu brasileiro. O curador é Dieter Buchhart, notório estudioso de Basquiat e autor de dois livros sobre o artista, além de curador de duas grandes exposições suas em Paris e na Fundação Beyeler, na Suíça. Falei com Buchhart recentemente sobre a mostra. Sentado em um café no SoHo, ele explicou que incluirá 80 pinturas e 60 desenhos e cobrirá todo o espaço do CCBB.

“Queria que o observador focasse no conteúdo do trabalho de Basquiat”, diz Buchhart, que também é um historiador do artista Edvard Munch. “Diferente de exposições anteriores, que seguem ordem cronológica, este será instalada por temas e cobrindo o mais amplo intervalo de tempo da produção do artsita. Será a primeira vez que alguns de seus primeiros trabalhos dos anos 1970 e 1980 – como cadernos e desenhos, e também os cartões postais de Xerox – serão vistos. “

A mostra é “apenas para o Brasil”, nota Buchhart. “ As obras vêm em maioria dos Estados Unidos e da Europa e não haverá itinerância. Ela é possível apenas em um único local devido à subida dramática de preços de suas pinturas e seu impacto no preço dos seguros. Por esta razão, acredito que esta será a ultima exposição abrangente de Basquiat.”

“Sua pinturas estão em total competição com a vida”

Ninguém se torna um fenômeno mundial sozinho. No caso de Basquiat, seu charme sujo atraiu amizade e suporte de artistas como Francesco Clemente, Julian Schnabel e Andy Warhol, que estavam ativamente envolvidos em criar seus próprios ecosistemas artísticos alternativos, e também de fazedores de cena e artistas de rua como Fred “Fab Five Freddy” Braithwaite, Keith Haring e Kenny Scharf. Ajuda também veio de Henry Geldzahler, na época director do Departamento de Assuntos Culturais de Nova Iorque, e de notáveis colecionadores de artistas emergentes como Don e Mera Rubell. Consultores, curadores e Indicadores de tendências como Jeffrey Deitch e Diego Cortez—organizador da coletiva “New York/New Wave”, na P.S.1, que incluiu Basquiat e o levou, em fevereiro daquele ano, ao encontro com a sua primeira galerista, Annina Nosei.

Seria difícil superestimar a importância de Nosei na história de Basquiat. Relembrando aqueles primeiros anos, Nosei me contou recentemente que viu um trabalho do artista pela primeira vez na mostra “New York/New Wave” show.

“Tinha pedido permissão para ver a mostra sozinha, para poder selecionar artistas para minha galeria recém inaugurada”, diz Nosei. “ As pinturas de Jean-Michel que vi eram imagens com dizeres que me lembravam do vocabulário da pintura, como linguagem ‘concreta’, como poesia. Agendei para visitá-lo no apartamento de sua namorada no Lower East Side. Era uma espécie de sótão, mas eu fiquei tão encantada quando ele me mostrou seus desenhos – tantos desenhos lindos! Então ele disse, “Você gosta dos meus desenhos, vamos fazer uma exposição.”Disse que não tinha dinheiro para material, mas se eu desse a ele US$400, que faria trabalhos para mim e eu poderia decidir se seria bom para uma exposição.

“Para minha surpresa, ele apareceu na galeria quatro dias mais tarde, com um rolo de telas debaixo do braço. Como era o fim do dia, sugeri que me acompanhasse visitar o ateliê de Sandro Chia e me mostrasse o trabalho lá. Pensei que se as pinturas fossem horríveis, eu poderia ir embora e fugir. Então quando ele desenrolou as telas ficamos chocados por estas pinturas incríveis. Elas tinhas tanto poder e tanta intensidade. Em quatro dias ele tinha feito três pinturas gigantescas, uma das quais era Big Head, que é uma obra icônica do artista.”

Apesar de vir a cultivar relações com aqueles que acreditavam em sua visão, Basquiat preferia ficar sozinho no início. Mesmo Richard Marshall, o curador que viria a dar a ele sua primeira individual, teve que procurar o artista na galeria de Nosei, onde ele então trabalhava.

“Eu estava visitando Annina para ver alguma exposição em 1981 ou 1982”, conta Marshall. “Ela disse “Quero que você veja as pinturas de Jean-Michel Basquiat, que tem ateliê aqui no porão da galeria – o que na hora não me pareceu estranho, mas agora em retrospecto é esquisito. Então eu desço e encontrei montanhas de pinturas. Nunca tinha visto nada como elas: cores berrantes com muitos gestos. E palavras e texto. Perguntei a ele sobre um texto em especial, sobre de onde tinha vindo, e ele me deu uma resposta evasiva. Na verdade, ele mais sugeriu que respondeu…”

O que Marshall pensou do trabalho?

“Era muito denso, com muitas camadas” ele explica. “ Enquanto ele estava vivo, nunca soubemos que tinha conteúdo, queo trabalho tinha uma voz pessoal e política. A atenção sempre foi pela moda e porque ele era um arroz de festa. E parecia que após sua morte ele seria lembrado apenas por sua fama. Então em 1992, quando fiz a retrospectiva de Baquiato no Whitney Museum, meu objetivo era deixar o trabalho falar por si só.”

O amor de Basquiat pelo mais amplo espectro de fontes artísticas também era um aspecto importante de seu trabalho.

“ Em muitos sentidos, o trabalho de Basquiat é mal compreendido, mesmo hoje”, diz Nosei. “Ele sempre foi ligado às tradições romântica e gráfica nos Estados Unidos, como Warhol. Mas para mim a linguagem de sua pintura se conecta com o modernismo clássico e o movimento COBRA. Jean-Michel tinha apenas 19 anos quando nos conhecemos e conversávamos sobre arte europeia e tradições clássicas em arte.”

E sobre o poder duradouro do trabalho de BAsquiat e sua relação com o mercado?

“Não sei explicar como colecionadores avaliam o trabalho de BAsquiat hoje.”, observa Nosei. “Mas posso contar sobre minnha experiência seis meses atrás, quando a obra Dusthead de Jean-Michel foi vendida na Christie’s por US$48 milhões, uma pintura que eu tinha originalmente vendido por US$20 mil. Estava sentada na plateia enquanto o preço escalava para mais de US$40 milhões e pensei: “ Por que?” Aqui está a pintura entre um Clifford Still e um Phillip Guston—porquê isto está acontecendo? E veio a mim que Dustheads tem a energia do totalmente novo e aquele gênio de Basquiat que movei a pintura de um espaço tradicional para o real espaço que habitamos. Suas pinturas estão em total competição com a vida – e esta pintura em particular não é uma tradução de uma ideia, é uma nova linguagem, com um sentido mais forte de autenticidade psicológica do que tantas outras tentativas de se comunicar que por aí estão.”

O mercado em relação às obras de Basquiat

Recordando uma visita feita à galeria Annina Nosei, em uma manhã de sábado em 1981, um colecionador se lembra dela afobada, dizendo: “Você realmente tem que ver isto… é realmente importante…”. E assim ela o conduziu pela escada a um porão de paredes brancas nove metros abaixo, que era o ateliê de Basquiat. Em um dos extremos, estava uma mesa de trabalho e, pelas paredes e pelo chão, havia pinturas em progresso. No meio do caos do pintor estava um catálogo aberto de Cy Twombly. Quando foi dito ao colecionador que as pinturas custavam US$ 1.500, ele respondeu: “Essa não! Ele só está copiando Twombly! Eu posso comprar um desenho do Twombly pelo mesmo preço…”. Dessa forma, deixou o ateliê sem comprar qualquer pintura. Dois anos depois, em 1983, quando o artista se mudou para a Mary Boone Gallery, o mesmo colecionador pagou US$ 10 mil por uma de suas pinturas, que vendeu em 2011 por US$ 10 milhões.

O mercado em relação às obras de Basquiat – de pinturas e desenhos à memorabilia –, mostra sinais de significante crescimento em largura e profundidade. No entanto, esse mercado tem muita preocupação no que diz respeito à autenticidade e à procedência; e os colecionadores são sábios ao querer estar bem informados.

Obras importantes excederam ou alcançaram as estimativas de leilão em todo o ano de 2013:

• US$ 48,8 milhões (estimado em US$ 25 milhões a US$ 35 milhões) foi o recorde alcançado em maio na Christie’s de Nova Iorque para a Dustheads de Basquiat, uma pintura de 1982 que mede 2,1 m de altura;

• US$ 29 milhões (estimado em US$ 23 milhões a US$ 30 milhões) pelo Sem título, de 1982, de Basquiat, vendido em junho pela Christie’s de Londres. A última vez que essa pintura foi colocada em leilão foi em 2002, quando alcançou US$ 1,6 milhão;

• US$ 29 milhões (estimado em US$ 25 milhões a US$ 35 milhões) foram alcançados pela Christie’s de Nova Iorque em novembro pela Sem título (com coroa) de Basquiat, uma pintura de 1982 em acrílica e óleo sobre madeira que mede 1,8 m e representa uma figura com uma coroa; e

• US$ 26 milhões (estimado em US$ 15 millhões a US$ 20 milhões) foram alcançados pela Sotheby’s de Nova Iorque em novembro pela Sem título (pichação amarela com penas), de Basquiat, uma pintura de 1982 que mede 2,4 m.

As vendas das três pinturas mais caras somaram em torno de US$ 107 milhões, quase o dobro da venda das três pinturas mais caras do ano anterior. Durante 2012, as obras de Basquiat geraram mais de US$ 161 milhões em vendas por leilões e, desse total, US$ 62,8 milhões foram gerados por três vendas recordes do artista.

Tem interesse em uma obra de Basquiat, mas não em entrar em uma disputa acirrada?

A consultora de arte de Nova Iorque, Jennifer Vorbach – cuja experiência inclui uma década à frente do departamento contemporâneo da Christie’s e uma década na direção da C&M Arts – fala francamente por que se deve procurar por uma fonte particular: “Ainda há ótimas pinturas nas mãos de particulares, e nem todas são negociadas em leilões, muito embora esteja claro que o processo de leilões é atrativo e ajudou a criar novos níveis de preços. As obras que vendem bem nos leilões são do tipo troféu, mas nem todas as pinturas em leilões são desse tipo. Algumas obras muito boas têm baixa venda nos leilões porque elas não são “tão especiais” quanto outras. As casas de leilões são muito poderosas e negociam bem, mas pode haver desequilíbrio nos resultados. Um negociante é um especialista no artista que apresenta, e um bom consultor pode oferecer uma visão imparcial. Quando se opta pelo particular, você sabe o que está comprando e o preço, diferentemente do jogo dos leilões. É difícil para alguns colecionadores se dedicarem a uma obra de arte só para conseguirem um valor mais alto na sala de vendas: deve-se lembrar que colecionar deveria ser, antes de mais qualquer coisa, um caso de amor”.

Compartilhar: