© Carlos Filho

DASARTES 10 /

Jards Macalé

Pelos olhos do músico, conhecemos a intimidade de Hélio, Lygia e seus contemporâneos

Jards Macalé é músico e compositor, conhecido por sambas melodiosos e canções entoadas por nomes tão diversos quanto Elizete Cardoso e O Rappa. No entanto, é seu envolvimento com as artes visuais que o traz para as páginas da Dasartes. Macalé foi amigo íntimo de Hélio Oiticica e Lygia Clark, colaborou com exposições de Rubens Gerchman e compôs em parceria com Xico Chaves e Roberto Magalhães, entre outros. Tanto envolvimento com a arte fez com que o músico passasse a ver a criação musical “como uma pintura” e com que vivesse experiências, no mínimo, curiosas.

Como você conheceu Hélio Oiticica?

Já o conhecia de ouvido e, um dia, houve a audição do disco Tropicália na casa de alguém e ele estava. Era muito aberto com as pessoas com quem simpatizava, já me atacou e a amizade decolou. A foto da capa Real Grandeza, que mostra eu e Waly (Salomão), foi tirada na frente da casa do Hélio, que frequentávamos. Eu e Hélio também temos uma coisa em comum, incomum: eu sempre gostei muito de seu avô José Oiticica, um anarquista como eu, que eu já conhecia antes de encontrar Hélio. que, aliás, foi o membro da família que mais herdou esta tendência anarquista do avô. Meu livro de cabeceira, nesta época, era uma edição esgotada de José Oiticica, Ação Direta. Hélio não tinha mais o livro e queria me tomar. “Ah, o Macalé não tira meu avô da cabeceira, quero meu avô de volta…” (risos). Aí sumiu meu livro…, mas não sei se foi ele, acho que não foi não.

Como começou seu relacionamento com Lygia Clark e seu trabalho com ela?

Com Lygia, fiz os trabalhos do corpo, mas ela também me deu muita força. Ela gostava do meu som e me dizia isto sempre. Eu era inseguro e ela falava com tanta certeza e serenidade… Ela era grande demais para que eu duvidasse. Trabalhei com ela o preenchimento dos espaços no corpo, usando os objetos que ela criava e os quatro elementos: o ar que ela trazia nos saquinhos num canudo de borracha e soprava…, o fogo, a água, a terra. Era uma coisa meio bruxa. Foi um trabalho psicanalítico, me tratei com ela por mais de dois anos.

Você já citou Lygia, que dizia que “ninguém precisava lutar contra o vazio, pois ele acabava sendo preenchido pela força criativa do ser humano”. No mundo de hoje, cheio de Prozac, você ainda concorda?

Lygia falava sobre o vazio de uma forma mais simples. Dizia que não devemos nos preocupar quando nos sentimos vazios, pois isto é natural ao ser humano. Você está preenchido e vomita tudo aquilo criando obras, música, e daí você se esvazia e não é de imediato que se preenche, leva tempo. O preenchimento está no cotidiano: lave roupa, faça cafezinho, passeie pelo bairro… Não se impressione com o vazio, pois ele é preenchido naturalmente e você retoma seu corpo criativo e segue adiante. Nem é uma ideia dela, já foi dito por outros.

As terapias de Lygia também eram voltadas para preencher o vazio?

Eram terapias para tratar males da alma e do corpo. Faço psicanálise há 40 anos e, por algum tempo, fiz terapias com ela. Eram tratamentos excepcionais, mais físicos, que revitalizavam, reforçavam o fato de estar vivo. Ela recuperava seu corpo e fazia com que você tivesse consciência dele, com que o corpo o ajudasse a pensar. Em uma das seções, ela me levou para o quarto onde me tratava, me deitou no colchonete e me deu um lexotan (comprimido com propriedade ansiolítica, tranquilizante ). Depois ela me trouxe um chá fumegante, que eu tomei, e me deu o Poema Sujo de Ferreira Gullar: “Agora você lê um pouquinho isto aqui que você vai melhorar”. Eu comecei a ler, um poema barra pesada (risos). Depois apaguei e dormi por dois dias. Não tinha nada no chá (risos), foi um lexotan para acalmar, o poema para estimular o intelecto e era eu mesmo que estava precisando desligar, que estava louco.

Você criou uma versão da bandeira do Brasil, que fala em “Amor, Ordem e Progresso”. O Brasil precisa de amor antes de ordem e progresso?

O mundo precisa de muito mais amor do que de ordem e progresso, pois a desordem está instalada e o progresso só existe para alguns poucos. O amor é de todo o mundo, não tem dono. E ainda tem uma razão filosófica: na época da proclamação da república, todo aquele pessoal que hoje virou nome de rua se inspirou em um lema positivista de Auguste Comte, que era “amor por princípio, ordem por base, progresso por fim”. E cortaram o amor por princípio. Uma pena, pois acho que quem nasce sobre a égide do amor, vendo por toda a parte a palavra amor, será uma pessoa melhor. Seríamos o único país do mundo que teria amor em sua bandeira. Por isto convenci um deputado a propor uma nova bandeira com amor em seu lema e a lei está tramitando por aí. Independente de ser aprovada, terá que ser votada na Câmara e no Senado; e vou me divertir muito vendo estes políticos discutindo o amor, minha missão já estará cumprida. Se for aprovada, aí será a glória, aí viro estátua.

Como foram selecionadas as músicas para a exposição de Rubens Gerchman, Boa Noite (1977)?

Gerchman sempre falava que sua obra se inspirou na coisa suburbana do namoro no carro e criou para sua exposição um clima de puteiro, coisa que Lygia Clark também gostava de fazer. Então pensei nas músicas de Lupicínio Rodrigues, que na época era considerado brega, mas que dava bem o clima de dançar de rosto colado, nos bares, na noite.

Você diz que os inventores que te inspiraram são Lygia Clark e Hélio Oiticica, ambos artistas plásticos. Como músico, não existem outros músicos que te inspiram?

Sim, mas a música é muito grande e muito pouco quando você olha para o universo das manifestações artísticas. Sempre estive mais envolvido com artistas plásticos do que com músicos, talvez exatamente porque eu viva com música e não gosto de ficar só em uma língua. Acho que música também é pintura, é uma coisa totalmente abstrata, você compõe dentro de um espaço do nada, como todas as outras artes. Estou compondo e estou pintando as notinhas na minha cabeça, no espaço. Também é um pouco cinema: quando ouço, vejo a música, viajo para outras paisagens, crio fantasias. É um cinema da cabeça. Música é um pouco artes visuais, um pouco cinema, cinema é arte visual, enfim, tudo é arte. Eu gosto de fazer arte. Minha mãe já dizia: “Este menino só faz arte”.

Você já teve uma incursão mais direta no cinema, com O Morcego na Porta da Frente.

O Morcego foi outra história. Fizeram minha videobiografia, mas fizeram apenas o lado A, porque o lado B – de sexo, drogas e rock n’ roll – eles não tiveram coragem de mostrar. Não chega a ser um filme limpinho, mas a outra face tem sua graça.

Você recebeu um prêmio da ONU, consequência de um show que você fez em defesa dos direitos humanos. “Diz a lenda” que este evento começou como um show “em benefício próprio”.

Era 1973, tava tudo fechado, um horror. Todo mundo estava fazendo shows beneficentes para levantar fundos para DCE fulano, ato político siclano, uma esculhambação. Então resolvi fazer uma piada e fazer um show em auto-benefício, para levantar fundos para mim. Convidei meus amigos, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Chico Buarque, Raul Seixas, Johnny Alf Dominguinhos, Gal Costa, Gonzaguinha e muitos mais. Aí o Cosme Alves Neto, que era diretor da Cinemateca do MAM, deu a dica: “Cara, porque você não faz aqui este show? Vai haver uma comemoração do 25º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos.” Conversei com a Heloísa Lustrosa, minha amiga e diretora do MAM na época, e toparam. Aí nos reunimos na casa do Chico (Buarque) com os artigos da Declaração e começamos a fazer a seleção: “Este artigo aqui? Este corta que é muito burguês. E este aqui? Este da tortura deixa, este é bom.” Deixamos só uns 15, que seriam lidos no show. Foi um show tenso, tinham 4mil pessoas e no meio alguns provocadores que nos chamavam de comunistas. A plateia mesmo botou este pessoal para fora, vaiando. No final, a alegria era tanta que poderíamos ter tomado o poder. Só que, também, no final, o MAM estava totalmente cercado pela polícia. Saímos de fininho. O mais engraçado é que eu enviei a Declaração dos Direitos Humanos, pela qual estávamos comemorando os 25 anos, para a Censura e voltou toda censurada: “Não se pode falar em tortura, não se pode falar nisto, naquilo…” Mas resolvemos botar pra quebrar assim mesmo: “Vamos cantar o que quiser e se quiserem prender, vão prender todos juntos”.

Tem também uma história famosa, de quando sua mãe foi te buscar numa churrascaria…

A gente morava próximo a uma churrascaria, a Pirajá, que era perto da televisão Excelsior. Então era muito frequentada pelos artistas. Minha mãe sempre me dizia: “Nove horas em casa.” Um dia, eu não apareci às nove e ela desceu e foi me buscar. Quando o porteiro me avisou que minha mãe estava na porta, Grande Otelo resolveu me defender. Minha mãe sempre amou o cinema, e adorava o Otelo. Quando me viu com ele, já se derreteu um pouquinho. E ele começou: “Dona Ligia, por favor, meu nome é Grande Otelo, Sebastião Prata. Seu filho é muito talentoso, estamos conversando ali e gostaria que a senhora visse que ele não está em má companhia, por favor.” Foi entrando com ela e apontando para o pessoal. “Aquele ali é nosso poeta, Sr. Vinicius de Moraes …” E o Vinicius levantou a cara do piano, bêbado: “Aãhnooi…” “E este é o maestro Antonio Carlos Jobim, e aquele é nosso grande Baden Powell.” Um estava meio dormido e o outro desmaiado no violão, soltou um grunhido: “Bshhoa Noitshhch…”. Estava todo mundo doido. Dona Ligia já estava meio assustada. Aí Otelo vira para outro e aponta: “E este é nosso querido Stanislaw Ponte Preta, das Certinhas do Lalau” (seleção das Mulheres mais bem despidas do ano, publicada por Ponte Preta na revista Manchete, uma paródia da tradicional lista das Mulheres mais bem vestidas do ano, da mesma revista). Nisto ela já foi saindo: “Obrigada, vamos embora, meu filho!”.

Como você vê a arte contemporânea?

Contemporâneo é o de agora, mas muito do que é de agora já pode ter sido. Por exemplo, estava em Amsterdam e fui ao Museu Van Gogh. Fiquei pensando “Como é que pode existir uma coisa destas? Tudo em 3ª, em 5ª dimensão, tudo pulando das telas, se mexendo.” É verdade que eu tinha tomado um ácido (risos), mas queira ou não queira, aquilo mexe com as pessoas. Então, para mim, aquilo é contemporâneo. A arte contemporânea é aquela que mexe com as pessoas do agora, de todas as idades. O Hélio mesmo ultrapassou a barreira do tempo. Vamos ser sinceros: não é nenhuma novidade, novidaade, mas é atual. Nada é novidade depois que inventaram a televisão, o pólo visual ficou completamente louco. Olha uma natureza morta (aponta para a televisão, que mostra a imagem de uma mesa com frutas). Claro que quem está antenado à arte identifica o novo no olho. Tenho quinhentas mil melodias na cabeça, mas quando ouço algo novo, me pula aos ouvidos, é uma descoberta. Pode não ser nada importante na história da música, mas sei que é novo, que nunca ouvi.

A ideia de que tudo é arte, de que vale tudo na arte já está na música?

Estava fazendo uma música com Frejat, o Omar Salomão, filho do Waly, e outro menino. Lá pelas tantas, batemos numa coisa chamada “derretendo ovelhas”. Não me pergunte o que é, estava lá na letra, até chamei Frejat do lado para perguntar. Nunca gostei muito da ideia do Zé Rodrix que falava das “cabras solenes pastando no meu jardim.” Isto é coisa que se diga para alguém? E aí “derretendo ovelhas”… Tem algumas loucuras que funcionam, tem frases e frases. Pense em “segredos de liquidificador”. Que coisa maravilhosa! Não precisa explicar, todo mundo entende. Mas “derretendo ovelhas”? Não sei. Não sei se vale tudo.

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