© Cortesia Istanbul Modern

A Turquia – e nela principalmente a cidade de Istambul – sempre despertou o interesse de estrangeiros. O país foi governado por tantos impérios distintos – romano, bizantino e otomano – que acumula uma história extremamente interessante e uma cultura rica. De uns anos para cá, esse interesse só aumenta. Nos primeiros quatro meses de 2013, o turismo na Turquia movimentou cinco bilhões de dólares, segundo a Turkish Statistical Institution. Quase 50% a mais que no mesmo período do ano passado. Um crescimento a passos largos.

Crescimento esse acompanhado pela abertura do país e pela valorização das artes visuais no mercado internacional. No ano passado, a casa de leilões Sotheby’s organizou uma semana dedicada à arte turca. O país – que teve as primeiras civilizações há 50 mil anos antes de Cristo – é culturalmente conhecido pela música, dança e culinária. O primeiro registro de obras de artes – com pinturas não figurativas – começou no final do século 19 e início do 20. Um dos grandes incentivadores foi o último sultão do império otomano, Abdülmecid II. Ele patrocinava artistas para estudarem na Europa, e também era pintor.

Apesar de o país ter se tornado uma república secular em 1923, foi apenas nos anos 1980 que as artes visuais começaram a despertar o olhar internacional. Um dos marcos foi a primeira Bienal, ou feira de arte contemporânea, em Istanbul, em 1987. O enorme sucesso do evento despertou o interesse de grandes empresários e colecionadores para a criação de galerias de arte e instituições culturais.

Como o Istanbul Modern. O museu foi chamado pelo jornal New York Times como o “símbolo da Turquia em transformação”. O projeto foi fundado pela família Eczacibasi, conhecida no ramo industrial e dona da Fundação para a Arte e Cultura de Istanbul. Nejat Eczacibasi era um grande colecionador de arte e, desde a primeira Bienal, sonhava em mostrar ao mundo a arte turca. Foi apenas em 2004 que ele conseguiu um espaço, na época aprovado pelo Primeiro Ministro Recep Tayyip Erdogan.

A chegada ao Istanbul Modern é impactante. A vista para o Bósforo e o charmoso jardim na entrada, com uma escultura abstrata do inglês Richard Deacon, convidam-nos a explorar a grandiosa estrutura retangular de pedra. A arquitetura do prédio destoa de uma mesquita avistada ali perto, do outro lado do Bósforo. O museu – de oito mil metros quadrados – foi um antigo galpão no século 13 usado por colônias italianas para o comércio. Mais tarde, no século 17, chegou a ser um dos portos mais estratégicos para os navios vindos de países europeus. Perto do Istanbul Modern, no mesmo bairro de Beyoglu, está outra instituição de grande importância para a cultura turca. A tradicional escola de belas artes fundada na época do império otomano, que hoje leva o nome de um mestre da arquitetura no país: Mimar Sinan.

O museu está dividido em dois andares – um para a exposição permanente, e outro para a temporária. Também há uma galeria apenas para exposição de fotografias, uma biblioteca (todos os livros podem ser encontrados on-line) e uma sala de cinema – que em abril recebeu um festival internacional de animação. Além de um charmoso restaurante de cozinha contemporânea, com vista para o Bósforo, que vira point de turcos descolados e turistas na hora do almoço.

A visita ao museu é uma boa oportunidade de conhecer artistas como ?brahim Çall? e Hikmet Onat, pertencentes à chamada “Geração 1914”. Eles estudaram na Europa mas voltaram à Turquia no início da Primeira Guerra Mundial. Daí o nome do grupo. A maioria voltou com fortes influências do Impressionismo francês. Também é a chance de conhecer um trabalho fascinante: o Fake Ceiling, de Richard Wentworth. O artista, que trabalhou como assistente de Henry Moore, criou um teto formado por livros ocidentais e orientais flutuantes, suspensos por fios de aço. Uma completa viagem para qualquer visitante.

Apesar de a Turquia ser composta por 99% de muçulmanos, o curador informou que não há censura religiosa no Istanbul Modern. Na exposição permanente Past and Future, deparamo-nos com dois vídeo-arte bastante chocantes. Um deles é de Kutlu? Ataman. Uma sala escura nos convida a ouvir depoimentos de quatro mulheres que se sentem reprimidas e marginalizadas pela sociedade por motivos distintos, e por isso usam perucas como forma de protesto. Uma delas é muçulmana e usa por cima do hijab ou lenço na cabeça, proibido onde estuda. Já a artista Nilbar Güres criou o projeto Despir-se. Um vídeo em que uma mulher retira, aos poucos, várias camadas de lenço que cobriam o rosto e a cabeça. A ideia é mostrar que as mulheres são todas iguais, independentemente dos ideais religiosos. Ainda não há artistas brasileiros na coleção do museu, mas alguns trabalhos de estrangeiros como o argentino Tomas Saraceno ou o dinamarquês Olafur Eliasson estão no acervo dos Eczacibasi.

Atentos à importância de instituições artísticas em países desenvolvidos, os fundadores do Istanbul Modern fizeram parceria com o Centre Georges Pompidou, em Paris, e com o Museu de Arte Moderna de Nova Yorque. Aliás, a estrutura interna e até a loja com os livros de arte e objetos de design moderninhos lembram o Moma. Além disso, desde 2009, o museu empresta obras de arte a outras instituições pelo mundo, como na Áustria, Inglaterra, Alemanha, Grécia, Coreia do Sul e Holanda. Coincidências à parte ou não, em 2010, a cidade de Istambul recebeu o prêmio de “Capital Europeia da Cultura”.

Com o objetivo de se tornar a grande referência para a história da arte turca, o Istanbul Modern também contribui para promover uma boa imagem do país, que já foi vetado de fazer parte da União Europeia e luta em oposição à afirmação de que teria praticado um genocídio contra os armênios na época do império otomano. O museu serve de exemplo de desenvolvimento da cidade, que sonha em ser escolhida para sediar as Olimpíadas de 2020.

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