Integração China-Brasil: Cai Guo-Qiang apresenta seu universo lúdico em três capitais

O artista plástico chinês Cai Guo-Qiang (pronuncia-se Tsai Guo Chang), 55 anos, ganhou fama mundial depois de atuar como diretor de efeitos visuais e especiais das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.

Esta é a primeira vez que suas obras desembarcam em solo tupiniquim para uma série de exposições. Brasília foi a primeira cidade a receber, entre os dias 5 de fevereiro a 31 de março, a mostra nos centros culturais do Banco do Brasil (CCBB) e dos Correios. Entre os dias 20 de abril a 22 de junho é a vez de São Paulo prestigiar o talento do chinês. Já o encerramento da individual itinerante acontece entre 21 de julho e 20 de setembro, no Rio de Janeiro, nas mesmas instituições.

Intitulada Da Vincis do povo, a mostra é a reunião de invenções desenvolvidas em parceria com agricultores e trabalhadores da China Profunda. Em entrevista a um jornal carioca, Cai Guo Qiang revelou que coleciona objetos criados por eles há quase dez anos em virtude da estética do artesanato, que o deixa encantado.

Cai Guo-Qiang vai apresentar nessa exposição instalações de grande porte, desenhos produzidos com pólvora (sua marca registrada), invenções ambiciosas desenvolvidas por camponeses do país asiático, bem como dezenas de aviões, helicópteros e objetos não identificados surrealistas suspensos no teto. Haverá também um tanque de água congelada, onde uma flotilha de submarinos semissubmersos simulará uma navegação em mar glacial. Cerca de 40 pipas de bambu e seda, presas ao chão por hastes, serão animadas com diferentes projeções de vídeo enquanto são avivadas por ventiladores. A curadoria é de Marcello Dantas, um dos mais ativos e respeitados fomentadores de arte contemporânea no Brasil nos últimos anos.

“Cai Guo-Qiang criou uma linguagem própria no cenário da arte contemporânea. Sua prática conseguiu fundir e confundir as fronteiras entre o espetáculo, a escultura e a instalação. Usando técnicas ancestrais e conceitos contemporâneos arrojados, pavimentou a estrada para um novo entendimento do que a arte pode ser e de como se pode construir uma ponte entre os imaginários coletivos do Oriente e do Ocidente, e – por que não? – entre o que é terráqueo e extraterrestre. A face mais conhecida do artista são seus trabalhos com pólvora, uma matéria-prima tão ancestral e simbólica, criando explosões efêmeras ou obras sacralizadas com o fogo. Depois, Cai passou a retrabalhar os ícones de como o modelo econômico e cultural chinês dialoga com outras culturas, explorando conceitos industriais de massa, a tradição da cópia e da releitura de tradições chinesas. Mas sempre dotado de uma mágica e de uma energia sobrenatural que permeiam todos os seus trabalhos”, afirma o curador da mostra Marcello Dantas. Inaugurada com enorme impacto no Rockbund Art Museum, em Xangai, em 2010, a mostra apresenta um acervo de engenhocas artesanais, feitas a partir de recursos primitivos – como sucata e materiais de uso cotidiano – por inventores amadores da nação mais populosa do planeta, em colaboração com o artista, que, além de ter encomendado parte dos objetos, os incorporou em suas instalações. A versão brasileira será adaptada ao contexto cultural e arquitetônico das três capitais que sediarão a mostra.

“Pode-se dizer que sou um contador de histórias, em que a arte contemporânea é a minha linguagem e os camponeses e suas criações são os protagonistas e tema principal desta narrativa”, analisa o artista, que tem boa parte do trabalho inspirado nas histórias e nas invenções dos “Leonardos Da Vinci” de sua terra natal.

Nessa múltipla atividade de colecionador e autor, Cai Guo-Qiang dialoga com seu fascínio pelo risco, fracasso e experimentação, investigando temas como a criatividade humana, o desejo universal insaciável de criar em busca de modernização e o impacto da natureza, da sociedade e da política na invenção. Cai discute não apenas as contribuições que os camponeses fizeram para o crescimento de seu país, mas também como, por meio do poder criativo de indivíduos autônomos e suas emocionantes trajetórias, é possível vislumbrar a esperança do povo que busca uma sociedade democrática e justa.

Sobre o artista

Cai Guo-Qiang nasceu em 1957 na cidade de Quanzhou, província de Fujian, na China. Formado em cenografia na Academia de Teatro de Xangai, seu trabalho artístico é realizado em diversos tipos de mídia, incluindo desenho, instalação, vídeo e performance. Enquanto viveu no Japão, de 1986 a 1995, o artista explorou as propriedades da pólvora em suas ilustrações, investigação que levou à experimentação com explosivos em grande escala. Tendo um conceito baseado na filosofia oriental e em questões sociais contemporâneas, suas intervenções explosivas visam estabelecer intercâmbio entre os espectadores e o universo que os cercam, em que cada projeto tem abordagem específica relacionada à cultura e história do local onde é realizada. Desde 1995, Cai vive e trabalha em Nova Iorque.

Suas principais premiações incluem o Prêmio de Design Cultural do Japão (1995); o Leão de Ouro, na 48.ª Bienal de Veneza (1999); o Prêmio de Arte de Hiroshima (2007); o Prêmio Asiático de Cultura de Fukuoka (2009); e o prêmio de Melhor Projeto de Arte Urbana da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte), pela obra Fallen Blossoms (2010). Em 2012, Cai foi agraciado com o Praemium Imperiale, que reconhece os feitos de artistas em categorias não cobertas pelo Prêmio Nobel. Mais recentemente, esteve entre os cinco artistas homenageados com a Medalha de Artes do Departamento de Estado dos EUA, devido à sua grande contribuição para o intercâmbio cultural no mundo.

O trabalho de Cai já integrou inúmeras exposições individuais e coletivas pelo mundo. Mostras individuais recentes incluem Cai Guo-Qiang on the Roof: Transparent Monument, no Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque (2006); a retrospectiva I Want to Believe, no Solomon R. Guggenheim Museum, Nova Iorque (2008), que também passou pelo National Art Museum, em Pequim, na China (2008) e no Guggenheim Bilbao (2009); Cai Guo-Qiang: Hanging Out in the Museum, no Taipei Fine Arts Museum, na China (2010); Cai Guo-Qiang: Peasant da Vincis, no Rockbund Art Museum, em Xangai (2010); Cai Guo-Qiang: Saraab, no Arab Museum of Modern Art, em Doha (2011); Cai Guo-Qiang: Sky Ladder, no Museum of Contemporary Art, em Los Angeles (2012); e A Clan of Boats, no Faurschou Foundation, em Copenhagen (2012).

Em 2005, Cai foi curador do primeiro Pavilhão da China, na 51.ª Bienal de Veneza e, em 2008, exerceu o cargo de Diretor de Efeitos Visuais e Especiais das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Saiba mais em www.caiguoqiang.com.

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