© Jean Baptiste Debret

“O que fazer com tanta cor?”. A dúvida do pintor holandês Frans Post diante das paisagens de Pernambuco no século 17 resume o fascínio que nosso país exercia nos pintores viajantes que chegavam às terras tupiniquins. Desde a descoberta do Brasil pelos portugueses, em 1500, até meados do século 19, a colônia lusa nos trópicos recebeu diversas missões artísticas, para retratar o exótico e desconhecido novo mundo.

Artistas como Eckhout e Debret, guardadas as diferenças no contexto histórico e social da produção de suas obras – por causa da distância temporal de quase duzentos anos –, contribuíram significativamente para a construção do imaginário europeu a respeito do Brasil. A forma de enxergar esta parte desconhecida do planeta, no entanto, transformou-se ao longo dos séculos, o que pode ser observado nos retratos destes artistas, que se tornaram documentos de grande importância para a iconografia brasileira destes séculos.

A expedição Holandesa (1637-1644)

Durante a invasão holandesa no Nordeste, o conde holandês Maurício de Nassau foi convidado a governar esta parte do Brasil – Pernambuco, Bahia e interior do Nordeste – pela Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Entusiasta das artes, Nassau trouxe na expedição pintores que contribuíram para criar um levantamento completo de conteúdos etnográficos, botânicos e zoológicos do Nordeste do Brasil de forma rica e minuciosa.

As pinturas e gravuras naturalistas da missão holandesa uniram o real e o imaginário em retratos que exaltavam as formas e cores exuberantes do Nordeste brasileiro. A fauna e a flora brasileiras, os negros africanos e os índios do Nordeste exerciam fascínio sobre os artistas europeus, e foram retratados com riqueza de detalhes por eles, com técnica e estilo inovadores para o século 17. Este fascínio começou quando os pintores ainda não vinham para o território brasileiro junto com as missões. As pinturas eram feitas na Europa, por meio dos relatos que os viajantes faziam para os pintores. Por isso, é comum verificar que as telas produzidas sobre o Brasil neste período na Europa apresentavam animais retratados com tamanhos desproporcionais.

Em suas obras, Eckhout e Frans Post colocavam as figuras em destaque em relação à paisagem, característica peculiar da técnica empregada por pintores holandeses da época.

Albert Eckhout

Albert Eckhout é considerado um dos primeiros artistas a realizar um retrato etnográfico do Brasil. Suas telas possuem como característica marcante, além do detalhismo, os traços quase fotográficos. A composição étnica do Brasil da época com os nativos, mestiços e negros africanos, além das frutas tropicais e vegetais, ganham destaque entre suas pinturas.
A obra de Eckhout é formada tanto por retratos que afirmam a imagem selvagem que os europeus faziam da América na época, quanto de cenas de um Brasil que começava a se desenvolver a partir do olhar dos europeus.

Na pintura A Mulher Mameluca (1641), a figura da mulher destaca-se na tela, que possui a paisagem ao fundo e elementos da fauna e da flora ao lado. Já em Abacaxi, Melancias e outras Frutas (de data desconhecida), o pintor revela a beleza das frutas tropicais do Brasil e também de seu interior. Na pintura Índia Tairariu ou Tapuia (1641), Eckhout retrata uma índia que carrega restos de corpos decepados nas cestas, o que faz uma alusão ao canibalismo.

Frans Post

Frans Post foi um dos artistas que desembarcou no Brasil com a expedição holandesa, junto com Eckhout. O pintor preocupou-se em registrar a paisagem de Pernambuco – ao contrário de Eckhout, que privilegiou a figura brasileira – de forma detalhada, documentando vistas panorâmicas, os portos e edificações da cidade. A simplicidade é um dos traços marcantes deste artista, que retratou de forma inovadora os traços tropicais do Nordeste do Brasil.

Em Vista da Cidade Maurícia e Recife, Post retrata a cidade de forma panorâmica e preocupa-se em mostrar seus personagens de acordo com os trajes e traços físicos. Na tela Panorama Brasileiro, o artista retrata o horizonte, a partir de uma perspectiva do alto.

A Missão Francesa (1816 -1831)

Outra missão artística que chegou ao Brasil colônia foi a francesa, em 1816, oito anos após a chegada da família real ao Rio de Janeiro. Chefiados por Joaquim Le Breton, os artistas Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay, entre outros pintores, escultores, além do arquiteto Grandjean de Montigny, chegaram ao Brasil para retratar a evolução e o progresso dos brasileiros, como resultado da permanência de Dom João VI na capital e também da própria chegada da missão francesa na cidade.

Estes artistas foram responsáveis pela mudança do estilo arquitetônico do Rio de Janeiro, além de atuarem nas grandes transformações que ocorreram na cidade, que deixou de ser apenas uma cidade da colônia para se transformar em uma metrópole. Estas mudanças “aproximaram” a cidade da Europa e foram responsáveis por transformar o período em uma das épocas de reformas mais ricas da cidade e do próprio Brasil.

Os pintores franceses apresentaram em suas obras uma visão realista da sociedade brasileira – em especial, do cotidiano da cidade do Rio de Janeiro – no século 19, retratadas por meio do estilo neoclássico. A permanência dos franceses no Rio de Janeiro não resultou apenas em um acervo significativo de imagens sobre o cotidiano da cidade. Le Breton criou também a Academia de Belas Artes no Rio de Janeiro, então capital do país, que só começou a funcionar em 1926. Este foi um dos objetivos da vinda dos artistas franceses ao Brasil.

Este projeto pioneiro foi o precursor do ensino das artes no Brasil e se tornou um capítulo indispensável para quem quer entender a arte brasileira do século 19. Estes artistas foram responsáveis pela implantação de um processo acadêmico e de uma metodologia de ensino das artes no Brasil. A influência destes personagens foi fundamental no cenário cultural e artístico do Rio de Janeiro do período, sem contar com as mudanças na paisagem da cidade na época.

 

Jean-Baptiste Debret

Debret preocupou-se em mostrar em sua obra uma visão que ultrapassa a do Brasil exótico. Ele retratou também os hábitos dos homens no Brasil, o que demonstra a sua preocupação em criar uma obra histórica, que registrasse as cenas do cotidiano da cidade e as atividades diárias exercidas por seus habitantes.
As aquarelas do pintor deram origem, após o seu retorno à França, em 1831, ao livro Viagem Pitoresca e História do Brasil, que em três volumes uniu as imagens a textos explicativos também de sua autoria. A obra aborda também o cotidiano da sociedade do Rio de Janeiro durante a sua permanência na colônia portuguesa.

Os textos descritivos da obra, acompanhados pelas imagens pintadas por Debret, contribuíram para que a obra não fosse considerada importante apenas pelo seu conteúdo artístico, mas também pelo histórico. Esta documentação revela também a forte relação emocional que Debret desenvolveu com o Brasil, adquirida ao longo dos anos em que viveu aqui.
Na tela Calçadores (1824), Debret mostra o trabalho destes profissionais para calçarem as ruas do Rio de Janeiro. O aspecto “civilizatório” da colônia com a chegada da família real é abordado nesta tela e também se revela em Quitandeiras de Diversas Qualidades (1826) e Caçador de Escravos (c. 1825).

Nicolas-Antoine Taunay

A obra de Taunay privilegiou as paisagens do Rio de Janeiro, mas também retratou cenas do cotidiano da cidade, além da pintura sacra. Uma das características mais marcantes de sua obra são os efeitos de luz das telas. Durante sua passagem pelo Brasil, Taunay tornou-se pintor oficial da corte e professor de pintura.

A herança deixada no Brasil pela passagem destes artistas pode ainda ser vista nas cidades do Rio de Janeiro e Recife. Estes mestres deixaram lições de arte que ainda hoje encantam e influenciam. A presença deles no país foi um verdadeiro divisor de águas na arte brasileira e na paisagem urbana do Brasil.

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