DASARTES 78 /

Hugo França

CONHECIDO POR SUAS OBRAS EM MADEIRA E OUTROS ELEMENTOS DA NATUREZA, O DESIGNER HUGO FRANÇA SE AVENTURA EM NOVOS TRABALHOS EM IMPRESSÃO VEGETAL. O ARTISTA FALA À DASARTES DESTA E DE SUAS MAIS ICÔNICAS PRODUÇÕES

Cadeira Canoa


A “Cadeira Canoa” remete ao começo de tudo e também a um marco da minha carreira. Meu contato com o design começou em Trancoso, justamente pela convivência com os índios Pataxós, que produziam suas próprias canoas e ferramentas com a madeira da floresta. Foi ali que conheci as propriedades do pequi, minha principal matéria-prima de trabalho. Essa madeira é oleosa, tornando-a mais resistente à água (por isso viravam canoas) e traz muito mais durabilidade para minhas criações. Foi com essa mesma cadeira, produzida com uma canoa Pataxó abandonada, que ganhei o “Prêmio Brasil Faz Design”, do Museu da Casa Brasileira, em 1998. O prêmio deu grande visibilidade nacional e abriu as portas do mercado internacional ao meu trabalho.

Banco Tamboril – Inhotim


O “Banco Tamboril” representa o Instituto Inhotim na minha carreira. Foi minha primeira peça instalada nesse lugar maravilhoso, que é pura arte e natureza. Esse banco de grandes dimensões foi o pontapé para o que é, hoje, meu maior acervo no Brasil: são mais de 130 peças espalhadas pelos jardins do Museu. Impossível caminhar por lá e não as notar, fazer uma pausa, seja para descansar, contemplar a natureza ou refletir sobre tudo o que ainda pode ser visto ou explorado no local.

Lúdica Teia


A peça “Lúdica Teia”, que está no parque Ibirapuera, representa muito bem meu trabalho de mobiliário público. Tudo começou quando um grande eucalipto do parque foi atingido por um raio, em 2010. Imagina o problema: o que fazer com uma árvore de 23 metros e mais de 15 toneladas? Seu destino certamente seria o aterro, uma opção ruim, já que, ao se decompor, a árvore devolve para o meio ambiente todo o gás carbônico que reteve durante sua existência. Decidimos dar nova vida a ela: a árvore que viveu por décadas no parque seria devolvida ao local e à população em outro formato. Esculpimos o eucalipto e ele foi transformado em uma espécie de brinquedo, com um túnel e uma trama de cordas que lembram teias de aranha. Não tem uma vez que eu não passe pelo parque e não me emocione com a maneira com que as pessoas interagem com essa peça. Ela oferece a todos a chance de tocar, entrar na árvore, sentir a natureza. É uma das minhas peças preferidas.

Casulo Cabrué


Esta peça é a mais importante da série “Casulos”, obras que criei para convidar as pessoas a entrarem na árvore para uma experiência sensorial única. Ela fez parte da minha exposição individual no Fairchild Tropical Botanic Garden, em Coral Gables, Flórida, em 2013. Esse jardim botânico belíssimo tem uma programação de exposições de arte e design muito interessante: as obras se inserem no próprio ambiente. Foi a única oportunidade que tive de ver meu trabalho em um ambiente tropical fora do Brasil. Produzida com a raiz de um pequi que viveu em torno de 1.500 anos, a obra foi a que mais se destacou na exposição. Ao final da mostra, doei a peça para o Fairchild e sempre passo por lá para uma visita, quando vou a Miami, para registrar a interação das pessoas e contemplar aquele monumento da natureza uma vez mais.

Impressão Vegetal


Essa peça representa um momento novo, desafiador na minha carreira. Eu jamais poderia imaginar que meu contato com o artista alemão Tom Fecht, durante a Design Miami, de 2016, levar-me-ia a criar uma série de monotipias. Nunca me imaginei em uma montagem de exposição pensando na disposição das minhas obras em uma parede. Realmente, tudo isso aguçou meu lado criativo e fez voltar aquele frio na barriga de quando estamos diante do desconhecido. Essas monotipias são registros íntimos do corpo e da textura da estrutura lenhosa das matrizes que utilizei, feitas de pedaços de troncos, fatias e blocos saídos de outras produções minhas e uma mistura de carvão vegetal e verniz.

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