DASARTES 79 /

Gunga Guerra

Nascido em Moçambique e radicado no Rio de Janeiro, Gunga Guerra é a escolha da equipe curatorial da Dasartes para o Concurso Garimpo deste ano. Por meio de pinturas e instalações, Gunga trata de temas atuais como conflitos urbanos, manifestações e a crise de refugiados

Nascido em Moçambique e radicado no Rio de Janeiro, Gunga Guerra é a escolha do conselho editorial da Dasartes para o Concurso Garimpo deste ano. Por meio de pinturas e instalações, Gunga trata de temas atuais como conflitos urbanos, manifestações e a crise de refugiados.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, 2016

O artista explora a realidade ao mesmo tempo em que flerta com o surrealismo. Suas criações lançam mão de metáforas, onde o animal toma o lugar do humano, e dessa maneira se propõe um novo olhar para imagens que são vistas exaustivamente na mídia de massa – como confrontos entre policiais e manifestantes, representados nas pinturas “Briga de galo” e “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Nesses trabalhos, a dimensão alegórica é reforçada pelos títulos, que conduzem a experiência imaginativa do espectador diante das intensas cenas construídas nas telas. O artista tensiona os limites entre animal e humano e coloca em xeque a noção de racionalidade.

“O artista explora a realidade ao mesmo tempo em que flerta com o surrealismo”

Briga de Galo, 2016.

A composição dos quadros de Gunga evoca uma constelação de cenas de batalhas e execuções que atravessa toda a história da arte, sobretudo o século 19, como os famosos fuzilamentos pintados por Francisco Goya e Édouard Manet. Tais formas são reconfiguradas nas telas de conflitos contemporâneos de Gunga onde a linguagem fotográfica, mais especificamente o fotojornalismo, se coloca como referência. Diante de suas pinturas, somos colocados como testemunhas de um embate iminente. Os segundos que antecedem tal colisão são congelados pelo artista, que nos convida a imaginar a cena subsequente.

Travessia, 2015-6

A atmosfera onírica criada por Gunga assinala o espaço urbano como cenário de conflitos, em uma crítica aos dispositivos de poder e à parcela da sociedade que se mantém indiferente diante de cenas de violência e miséria. Essa questão se evidencia em “Travessia”, que dá protagonismo a refugiados – estes que aparecem em primeiro plano, em escala reduzida, comparados aos transeuntes que aparecem ao fundo. As figuras maiores, em segundo plano, são retratadas como consumidores, carregando sacolas de compras, seguindo seu percurso sem prestar atenção ao redor. Seus rostos são ocultados pelo artista, o que lhes priva de individualidade. A escala com a qual os refugiados são retratados carrega dimensão simbólica, reforça seu lugar como “o outro” por meio do contraste com as demais figuras. A faixa de pedestres que os imigrantes cruzam, assim como o próprio ato de atravessar a rua, opera como alegorias desse trânsito e de um não lugar. Além de uma mala, os refugiados carregam um rinoceronte branco, espécie que vem sendo dizimada em Moçambique, terra natal do artista, demonstrando que o trabalho de Gunga também é atravessado por sua história pessoal.

Provocativo e sensível, Gunga Guerra desperta nosso olhar crítico acerca das imagens e situações que nos rodeiam.

A prisão de uma figura de Bacon, 2017

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