© Sergio Guerini

Por ocasião do lançamento de seu livro (em Livros e etc.), o pintor Gonçalo Ivo nos leva a visitar seu ateliê. Esse espaço foi criado em 2005 para abrigar suas telas em escala monumental, como Santa Maria de Taüll, entre outras, que foram expostas na Galeria Anita Schwartz, Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes.

Fale-me de sua prática diária no ateliê.

É um dia a dia de disciplina. Começa antes de o sol nascer e termina depois que ele se põe. A manhã é a parte mais intensa, quando as coisas se projetam e me sinto mais criativo. Funciona como para um ginasta ou um bailarino, que vai se aquecendo até chegar ao ponto em que é capaz de se expressar com certa plenitude e poesia. Pois é importante começar em um estado psíquico mais fluido, em que o inconsciente trabalha de forma tão ativa quanto seu lado racional. De manhã, trazemos fresco na mente o resquício dos sonhos e isso se projeta na obra.

E seu processo de criação?

A parte da criação nem sempre acontece no ateliê; às vezes, os estímulos para as telas vêm em outros momentos – no avião, em um quarto de hotel – e são registrados em anotações que depois são transformadas em pinturas e objetos. Quando passo essas anotações para a tela, porém, as regras mudam de acordo com o que sinto e vejo no momento da execução. Há um lado físico da criação, que faz com que o trabalho mude ao longo do processo, e é essa parte que está refletida no ateliê.

Como?

Bracque brincava que “não trabalhava com ideias, mas com materiais”, mas as ideias são parte vital do trabalho e estão o tempo todo se desenvolvendo e mudando. Ele também dizia que “a pintura é como um prédio, que parte de uma fundação”. Concordo com ele, o ateliê expressa essa imagem, pois lá tenho os trabalhos a serem terminados, com a fundação já pronta – muitos, pois sempre estou trabalhando em várias telas ao mesmo tempo – e os insumos e materiais e tinta… É um espaço dionisíaco, muito sensual e vibrante, com muita coisa acontecendo. Preciso desse espaço para me realimentar. Voltando às metáforas, o ator precisa de um teatro para virar ator e o ateliê é esse lugar para o artista, um lugar de experimentação e improviso, um instrumento de verdade.

O bucolismo do local influi no trabalho?

Não só influi como foi algo que sempre busquei. Eu cresci e morei a maior parte da vida em um sítio e sempre trabalhei em casa. O trabalho em arte, na verdade, não é apenas um trabalho, é a minha vida. Estou constantemente no ofício da arte, por isso não faria sentido sair da minha casa para trabalhar, seria como ter que sair de casa para estar vivo.

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