© Sergio Guerini

DASARTES 07 /

Gonçalo Ivo, uma pintura própria

A pintura primitiva e contemporânea do colorista.

Em um sítio em Teresópolis (RJ) em meados dos anos 1960, o poeta Lêdo Ivo trazia para sua coleção um primeiro quadro de Alfredo Volpi. Acostumado a imitar em desenhos e pinturas os óleos de Castagnetto e Visconti que adornavam as paredes de sua casa, seu filho ainda menino é atraído pela nova tela. Seu surpreendente frescor abria novas possibilidades, de exploração da cor de forma primitiva e essencial, uma antítese ao formalismo intelectual e a busca pelo aprimoramento dos artistas que até então conhecia. Lêdo não sabia, mas, ao adquirir sua primeira tela de Volpi, selava o destino de seu filho, Gonçalo Ivo.

O menino cresceria para se tornar o renomado artista que inaugurou em novembro uma exposição individual na Simões de Assis Galeria em Curitiba, na sequência de outra muito bem-sucedida na Multiarte de Fortaleza. Para o ano que vem, já está prevista mais uma no Rio de Janeiro em agosto, em que exporá duas megatelas de mais de 4 metros de comprimento.

Morando em Paris desde 1999, Gonçalo afirma que precisou sair do Brasil para tornar-se brasileiro. Quem observa suas pinturas deve concluir que funcionou. As cores vibrantes, as tramas e texturas e o uso da madeira bruta nos objetos dão à sua obra tão internacional a alma brasilis que a diferencia de outros coloristas estrangeiros.

No entanto, a brasilidade já vinha sendo construída na alma do artista desde jovem. Gonçalo cresceu em meio a mestres da pintura – Lêdo era amigo de muitos, entre eles Iberê Camargo, um dos que iniciou Gonçalo na arte. “Iberê me colocou no colo e começou a riscar, riscar. Depois, rasgou o papel no meio com uma faca e disse: ‘Às vezes, para criar uma obra de arte é preciso destruí-la’”. A experiência assustadora e a convivência com o mestre tornaram Gonçalo um de seus admiradores.

Passadas as aulas de pintura da infância, Gonçalo Ivo iniciou sua formação em arte em 1976, quando, paralelamente ao curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal Fluminense, passa a frequentar os cursos do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Neles, aprendeu desenho com Aloísio Carvão e pintura com Sergio Campos de Mello. Em 1980, fez sua primeira exposição individual na galeria da Funarte e, em 1981, sua primeira viagem a Europa, onde intensificou o trabalho com aquarelas. Naquele mesmo ano, inicia uma série de exposições, que culminam com as individuais na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu de Belas Arte em 2008.

Contemporâneo à Geração 80, que defendeu o retorno da pintura, Gonçalo não se inclui em seu núcleo, mas o faz sem condenações. “Quem o conhece, sabe que seu trabalho e atitude perante o universo da visualidade não nos autorizam supor que seu apreço pelo domínio técnico seja uma condenação àqueles que levaram a experiência artística para campos estranhos ao métier exlcusivamente artesanal”, escreve Fernando Cocchiarale (Gonçalo Ivo. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2008). Em oposição ao óbvio paralelo com Volpi, Cocchiarale situa Ivo em um ponto semelhante a Wassily Kandinsky, já que, para ambos, “o fazer manual permitira a objetivação, na obra, de sua subjetividade, sensibilidade, enfim, de suas intuições. Abrir mão do fazer seria abrir mão do sentido poético que move seu trabalho”.

Apesar das referências modernistas, é o contraste entre a contemporaneidade do tratamento das obras e do uso primitivo da cor que separa Ivo de outros pintores. De acordo com Camila Molina, “seria muito óbvio recalcar sua produção ao status de alienada porque não espelha de forma literal e direta a bizarrice e a violência dos tempos atuais. Gonçalo Ivo, talvez uma ‘ovelha negra da arte contemporânea’, segue sua corrente […]. Há muito de espiritual ao ver [suas] obras reunidas na sala da galeria. Ao mesmo tempo, algo de ancestral e primitivo traduzido em obras contemporâneas” (sobre a exposição na Dan Galeria, em O Estado de S. Paulo, 2007).

A citada espiritualidade vem conquistando colecionadores no Brasil e no mundo. Um deles é Raul Forbes – conhecido por ter vendido a tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, ao argentino Eduardo Constantini –, que escreve o depoimento a seguir.

Gonçalo Ivo por Raul Forbes

Nunca fui crítico de arte, e jamais pretendi ser.

Ainda assim, pedem minha opinião sobre Gonçalo Ivo e sua obra. Nada mais prazeroso para mim, que acompanho há anos e com alumbramento crescente a trajetória desse artista maior. Sim, estamos finalmente diante de um verdadeiro pintor. Alguém que domina com maestria seu ofício e tem a alegria de praticá-lo com sua extraordinária inventiva e competência. Tudo isso vem de muito longe. Menino ainda, na casa paterna, onde as paredes exibiam telas de Volpi, Da Costa e outros artistas essenciais, Gonçalo participava já de uma atmosfera impregnada de manifestações e debates culturais sobre quase tudo, não fosse o aglutinador de tantas figuras interessantes, intelectuais de pensamentos conflitantes ou não, o grande Lêdo Ivo, seu pai e poeta de escola, “poeta para todas as estações”, como bem reconheceu a Academia!

Nesse ambiente, cresceu Gonçalo, que, bom ouvinte, curioso e sempre interessado espectador, aproveitou ao máximo as lições praticadas naturalmente. Notando talvez suas inclinações e desejos, um dos frequentadores habituais, o intelectual, poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca (injustamente esquecido!), presenteia o menino com uma sonhada caixa de crayons! Eis o ponto de partida de um caminho felizmente para nós sem volta, e que o trouxe já merecidamente conhecido e consagrado até os dias em que vivemos. Todavia, foi e tem sido um longo caminhar na busca permanente das fontes primordiais. Recebeu aqui e ali lições de professores como Aluízio Carvão e Aberlado Zaluar (outro injustamente relegado ao esquecimento!). Participou, desde muito moço, de grupos formados por artistas de sua geração, em que logo despontou como um de seus expoentes. Não mais descansou. Frequentou todos os artistas que, de alguma forma, poderiam lhe repassar conhecimentos, técnicos ou não, fossem na pintura, na aquarela ou nos objetos. Sem preconceitos de qualquer espécie, tudo leu, tudo examinou, tudo visitou, tudo comentou. O Gonçalo de hoje é o resultado de sua própria inquietude, de sua incessante necessidade pessoal de buscar a melhor maneira de poder tornar real e a todos visível (inclusive a ele mesmo) o que lhe vai na alma! Sim, Gonçalo não experimenta, executa! Dentro dele – como diria Fernando Pessoa –, existe um “volante” – girando sem parar, misturando em velocidade quase aflitiva emoções, conhecimentos, sensações, desejos, sonhos e lembranças, e que, de repente, como um vulcão, expele a obra pronta e acabada. São e foram aquarelas cuidadas e competentes, objetos intrigantes pela forma ou tratamento em que está evidente o inusitado e, por tudo e sobretudo, as imbatíveis pinturas! Foram árvores, pequenas e grandes, tristes e alegres, ambientadas em todas as estações, coloridas sempre, e hoje verdadeiros “objetos do desejo”… Foram também “bandeiras”, “catedrais” e “panos da costa”. Foram e são “rios”, tranquilos ou caudalosos, em cujas margens antes se erguiam também as árvores de seu sonho.

Agora, o mais importante. A obra de Gonçalo Ivo chega a seu melhor momento! Resta admirá-la! Toda a longa e persistente caminhada do artista, seu esforço pessoal, sua inventiva, sua alma em ebulição, o conhecimento adquirido, a apurada técnica conseguida, a inquestionável competência estão presentes e triunfantes em suas excepcionais pinturas recentes. Porém, nada disso seria possível não fosse Gonçalo um dos grandes coloristas do Brasil! Sua paleta, ampla e generosa, busca a luz!

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