© Cortesia do Museu de Arte Filadélfia

O escritor palestino Edward Said, em seu livro Orientalismo, afirmou que o “oriente” seria uma espécie de invenção ou criação da cultura ocidental. Essa ideia é recorrente quando se visita a exposição Gauguin y el viage a lo exótico. Ao mesmo tempo, a viagem aos mares do sul ganha um sentido metafórico e ambíguo, pois o deslocamento geográfico – da Europa ao mundo paradisíaco do Taiti e das ilhas Marquesas – também significa a busca de Paul Gauguin por descobertas bem mais contundentes que a simples intenção de retratar belas paisagens sonhadas na distante e fria Europa. Essa viagem passa a ser a metamorfose necessária que o artista precisa para ser outro capaz de ver o mundo e exprimi-lo de maneira única, particular.

Porém, arte e vida não são ilusões que caminham juntas?

Nossa cultura tem como paradigma o conceito de desenvolvimento em arte e a ideia de ruptura com o passado ou progresso é essencialmente uma concepção do pensamento ocidental. Sabe-se que, em outras sociedades ou culturas, comumente chamadas de primitivas, a questão da superação e, por consequência, a instauração de uma nova ordem nem sempre é uma categoria de pensamento. Nem mesmo a percepção do tempo que passou ou que passará é a mesma. O darwinismo em arte é a questão central dos séculos 19 e 20. Todo esse pensamento se opõe frontalmente a uma ligação mais espiritual, lúdica e mágica diante da arte e da vida.

Paul Gauguin viveu a evasão para poder forjar um artista mais “puro” numa paisagem distinta da Europa em plena expansão da Revolução Industrial. Ao, de certa forma, renegar a sociedade burguesa da qual fazia parte, Gauguin passou a encarnar o papel de artista romântico e independente. Turner, Delacroix, Rimbaud e muitos outros já haviam experimentado a “viagem” a lugares distantes como forma de procurar o “novo” e o outro. Paul Gauguin, todavia, levou às ultimas consequências sua odisseia particular. Foi até os confins de um paraíso imaginado, já maculado pela presença expansionista do colonialismo europeu, com suas mazelas, burocracias e repetições de modelos administrativos.

No plano pictórico, a obra de Gauguin é indissociável dessa paisagem idílica habitada por cores puras e mitos. Diria mesmo que a pintura reinventa a própria paisagem. “Queria pintar encenações e não realidades”. O que se vê, então, são encenações ou composições que contam as histórias vistas e também imaginadas, adornadas por uma paisagem luxuriante e um decorativismo simplificado e planar. Há também algo de extremamente carnal e libidinoso na pintura crua e direta.

A imagem da figura feminina tem grande importância. É, ao mesmo tempo, metáfora do mito cristão do paraíso terrestre e da pele da pintura – da constituição de sua superfície, pigmento e cor. Aparece quase sempre desnuda e emoldurada por manchas de cor que se dissolvem e se dissipam umas nas outras, sugerindo estuários, frestas, bordas de rios, lagos, florestas e mares. Às vezes, assombrada por ritos ou deuses supersticiosos, espíritos noturnos ou simplesmente oferecendo seus seios e sexo como frutos tropicais.

Pode-se entender a arte de determinado artista ao perceber as marcas deixadas por ele em outros artistas ao longo do tempo. Outra via é encarar a árdua tarefa de olhar o objeto de nosso estudo de maneira abstrata, longe de adjetivações, ilações históricas ou correspondências literárias.

Paul Gauguin tem grande influência sobre certos pintores e movimentos que o sucederam ao longo do século passado, como o fauvismo e o expressionismo. Isso se estabelece de forma clara, como bem mostra a exposição no museu Thyssen Bornemiza, quando se coteja sua obra com as de Emil Nolde, Max Pechstein, Ludwig Kirchner ou, de maneira mais sucinta, Klee, Matisse e, possivelmente, o simbolista Odilon Redon.

Para esse aventureiro radical, o êxito, como em várias outras histórias, não chegou em vida. Seu fim físico foi trágico e decadente, devastado pela sífilis e por sua postura amoral. Paul Gauguin sempre foi um homem inadaptado ao seu tempo. Restou-lhe, então, construir uma nova realidade e vivê-la.

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