© Cortesia do artista e da Donald Young Gallery, Chicago

Aos 13 anos, um jovem californiano de Santa Monica participou com um grupo de amigos do curta-metragem Skaterdater, do diretor Noel Black. Com apenas 18 minutos, sem diálogos e com uma trilha sonora surf-rock, o filme foi o primeiro a retratar skatistas no cinema, com cenas corriqueiras sendo interrompidas pelo crescente avanço da prancha sobre rodas. O trabalho foi vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1965, e nomeado para o Oscar no ano seguinte.

O filme foi também o primeiro contato do então jovem Gary Hill com o vídeo. Hill, que iniciou a carreira artística como escultor, começou a explorar, nos anos 1970, as possibilidades do vídeo em Woodstock; em uma época em que se discutia a descentralização da produção e a possibilidade da criação independente em comunidades alternativas. Hoje, ele é considerado uma das referências na história da videoarte. “Trabalhar em vídeo é como pensar em voz alta. Uma palavra vale o milésimo de uma imagem”, definiu o artista em entrevista exclusiva à DASartes, em sua passagem pelo Brasil para a exposição Circumstances/Circunstâncias, que depois de passar pelo Oi Futuro, no Rio de Janeiro, em 2009, chegou ao Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, já em 2010.

“A exposição trouxe a oportunidade de olhar para parte da história de Gary Hill e sua produção mais recente. Há alguns anos, seus trabalhos eram como um território de observação de como a máquina, a tecnologia, funciona. Agora, é território de observação de como a máquina humana, a mais sofisticada de todas, funciona. A fronteira da tecnologia é o corpo. A gente não pode fazer nada alem da nossa percepção de cores ou de espaço, por exemplo. Hill trabalha com esses limites. Há uma linha tênue entre esses dois mundos”, explica Marcello Dantas, curador da exposição.

Essa foi a segunda mostra individual de Gary Hill no Brasil. Em 1997, o artista apresentou O lugar do outro, no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro e, nesses últimos 13 anos, a produção da videoarte sofreu grandes mudanças. “O mundo inteiro mudou. Em 1997, as bienais tinham poucos vídeos expostos. Poucos anos depois, já eram a maioria dos trabalhos. Nesse momento, muita gente não sabia o que fazer com arte e foi flertar com arte e vídeo. E não contribuiu em nada com isso. O acesso à tecnologia, que antes era um problema, ficou mais fácil. Um celular faz um vídeo tão bom quanto os dos anos 1970, em termos técnicos, e você já edita aqui mesmo e manda para quem quiser. Isso não é bom. Agora está acontecendo uma nova triagem disso, separando quem estava ali pela novidade, pela sedução do novo meio, e quem estava fazendo uma pesquisa de fato”, aponta Dantas, curador da exposição de Hill também em 1997.

Os trabalhos apresentados na exposição Circumstances/Circunstâncias se relacionam com o tempo. O tempo é matéria-prima para seu trabalho?

Não acredito que exista um “tempo” propriamente dito. Criamos o tempo por causa da morte. Há vários tipos de tempo: de voltar, de sonhar… O tempo algumas vezes me interessa, outras não. Em Up against down (2008) [vídeo que mostra membros do corpo do artista que pressionam fortemente uma parede preta envidraçada], por exemplo, a ideia é que a coisa aconteça de uma vez só, como em um pensamento mais escultural. Aqui não me interessa que o trabalho aconteça no tempo. É mais a ideia de um filme parado, como fotos. Em outro trabalho, Blind spot (2003), o meu rápido encontro com um homem passando na rua é esticado no tempo. Os cinco segundos originais são transformados em pouco mais de 12 minutos. Cada frame da sequência leva cerca de um minuto e meio para aparecer. É um trabalho conceitual. Eu podia ter colocado um intervalo de uma hora, um dia, um mês, um ano, 10 anos para ter esse anúncio de que a imagem viria. Levaria cinco meses para ver três segundos de imagem. A ideia no fundo é a da perda de tempo dessa espera. Me interessa trabalhar nessas duas pontas.

Seus trabalhos seguem um roteiro ou um projeto?

Não. Na verdade, não é uma questão de sim ou não, de escolha. Posso tanto trabalhar com um roteiro ou não. Mais recentemente, tenho um conceito, uma ideia no início do trabalho e vou seguindo, completando os espaços entre imagens. Me interesso muito por trabalhos que ligam imagens. Gosto de estabelecer conexões, do processo de pegar componentes diferentes e ver como eles podem funcionar uns perto dos outros. Isso vai muito pela intuição. Ou você acredita em alguma coisa ou não acredita em nada.

Essa maneira de pensar a imagem, uma em relação à outra, de alguma maneira está próxima de um pensamento de escultura. O senhor acha que seus primeiros trabalhos, ainda como escultor, influenciaram a maneira como lida com a imagem hoje?

Não sei. Em primeiro lugar, não acredito que trabalhe tanto com a imagem, apesar das obras terem imagens. O trabalho não é sobre imagens, e sim por que essas imagens estão ali, sua presença. As imagens não contam histórias, nem representam nada. Mas essa pergunta sobre a relação com a escultura me interessa. Tenho muitos trabalhos que lidam muito com a fisicalidade e, mais tarde, outras peças que se livraram de todos os elementos escultóricos para um tipo de percepção a partir de uma membrana, indo para algo mais simples.

Logo cedo o senhor participou do filme Skaterdater. Essa experiência influenciou de alguma maneira o seu trabalho?

É engraçado, esse filme se tornou uma referência. Diria que nunca pensei nisso. Me interessa a rua, a ideia de home-made, mas provavelmente trabalhar com um baixo orçamento e tentando fazer o trabalho dar certo foi a maior influência para o que faço hoje. Meus trabalhos estão interessados na simplicidade. Uma grande influência é o surf e as noções sobre as ondas. Cresci praticando skate e surf no sul da Califórnia em meados dos anos 1960. Isso, com certeza, me ajudou. Já fiz trabalhos que usavam esses conceitos do surf.

O senhor começou a trabalhar com o vídeo ainda nos anos 1970, em um momento em que esse meio estava começando a aparecer no cenário artístico. Desde então, muitas mudanças aconteceram, especialmente no que diz respeito a desenvolvimento tecnológico. Essas mudanças influenciaram sua produção?

Não acredito que essas questões estejam limitadas ao meio eletrônico. Dito isso, te digo que me interessa flertar com novas tecnologias, novas pelo menos para mim. Com toda certeza não estou na vanguarda da produção artística e, normalmente, deixo de lado grandes possibilidades de produção em favor de trabalhar com recursos mais simples, algo mais visceral ou primário. Uma vez que eu dialogo com essas ferramentas, que realmente me interessam, minhas ideias mais fortes, mais interessantes, tendem a aparecer a partir de qualquer acontecimento do meu cotidiano. No meu caso, fiz trabalhos muito mais complexos, tecnologicamente falando, quando eu tinha poucos recursos, pouco acesso. Hoje tenho tentado me livrar dessas possibilidades, não ficar dependente delas. As limitações te dão mais possibilidades do que “você pode fazer qualquer coisa”.

Unconditional Surrender é um site específico criado para a exposição. A obra é seu primeiro trabalho totalmente realizado com técnicas de computação digital. O senhor se interessa por pesquisar novas tecnologias?

Se considerarmos uma continuidade da trajetória atual da arte e da tecnologia, e de como definimos os seres humanos, eu diria que as novas mídias, a interatividade e elementos afins são os lugares onde as coisas que fazem alguma diferença acontecerão. Novas realidades, realidades virtuais e computadores me interessam. É um espaço inacreditável que está sendo construído!

O que mudou na sua produção desde 1997, quando esteve pela primeira vez no Brasil para a exposição O lugar do outro?

Os trabalhos que apresentei naquele momento, Tall Ships, Standing Apart/Facing Faces e Clover, se concentravam na noção do outro e na ideia de projeção, tanto literalmente quanto de maneira figurativa. Desde então, tenho trabalhado mais com o corpo, continuando a explorar a fisicalidade em relação à linguagem, continuando também, com meus esforços, com animação com computador. Então, em certo sentido, estou queimando a vela pelos dois lados: a fisicalidade e a realidade virtual. Também tenho feito mais trabalhos com performance ao ponto de repensar minhas instalações como performáticas.

Quando o senhor considera um trabalho pronto para ser exposto?

Acredito que um trabalho está sempre pronto para ser exposto, para se comunicar. Sempre desejando uma resposta vinda do outro. Com certeza, não fico sentado falando para mim mesmo: “Meu trabalho ainda não está maduro o suficiente. Acho que vou deixá-lo de lado”. Não é assim que funciona. Somente olhando para trás eu poderia pensar que não estava pronto, ou pior, ficar constrangido por algum trabalho que está vagando pelo mundo. Em certo sentido, em algum momento estou pronto para alguma coisa? Agora, em retrospectiva, algum tipo de sucesso veio em minha direção relativamente tarde para os padrões de hoje. Me inscrevi em prêmios e bolsas por oito anos antes de receber um. Não tive exposição em uma galeria comercial até ter quase 40 anos. E fico muito feliz de não ter conseguido isso antes.

As obras da exposição Circumstances/Circunstâncias

Unconditional Surrender um site especialmente criado para o Museu da Imagem e do Som. A obra é o primeiro trabalho do artista totalmente realizado com técnicas de computação digital. A obra reúne diferentes mídias, incorporando imagens geradas em computador e explosões de luz de extrema claridade. Cinco projeções criam uma contínua vista do espaço circular escuro. Projetores e luzes estroboscópicas são montados em um disco suspenso no meio do local, estrutura que sugere uma roda na qual o espectador adentra.

Viewers confronta o espectador com uma longa fila de homens silenciosos, estabelecendo um tempo em que o visitante passa a se sentir o objeto visitado e observado.

Up Against Down mostra membros do corpo do artista que pressionam fortemente uma parede preta envidraçada; é onde a tensão de um corpo se torna insustentável para o visitante, cujo ponto de vista se torna o corpo do outro.

Wall Piece cria uma poética no limite da cognição, uma vez que não se sabe se o espectador atentará ao que é ferozmente dito ou ao impacto sensorial que pode impedi-lo de construir as lacunas entre as palavras.

Language Willing mostra a ideia de manipulação da linguagem levada à mais firme das metáforas ao trazer duas mãos que giram discos de tecido florido como se recitassem/dublassem uma poesia.

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