Futurismo, uma era revolucionária

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A publicação do Manifesto Futurista de Filippo Tommaso Marinetti, em 20 de fevereiro de 1909, na primeira página do jornal Le Figaro, de Paris, representa o início do primeiro movimento literário e artístico que rejeitava a tradição estética e exaltava o mundo moderno, em particular a civilização urbana. Os pintores do futurismo italiano, principalmente Giacomo Balla, Umberto Boccioni, Carlo Carrà, Luigi Russolo e Gino Severini, agrupados em torno de Marinetti proclamaram a identidade da arte em direção à noção de velocidade.

Envoltos pela filosofia de Henri Bergson e pela teoria da Relatividade de Einstein, os futuristas achavam que a estabilidade era uma ilusão retrógrada e escolheram a velocidade como meio de perceber e de aceitar o movimento como princípio fundamental do mundo moderno. As indústrias e as invenções modernas eram glorificadas, assim como todos os barulhos que emergem dessa parafernália tecnológica. Nesse sentido, Luigi Russolo e Francesco Balilla Pratella teorizaram a noção do ruído, fizeram a apologia do som, influenciando os dadaístas e, mais tarde, a música contemporânea.

A adesão de Giacomo Balla ao futurismo ocorreu em 1910, quando assinou o Manifesto Técnico dos Pintores Futuristas juntamente com Boccioni, Severini, Russolo e Carrà. O artista Bonzagni deveria ter assinado, mas desistiu, por fim, em virtude do radicalismo de seus companheiros; em seu lugar, Boccioni propôs a entrada de Balla, seu mestre.

Fortunato Depero, artista que se juntou ao grupo dos futuristas com apoio de Balla, desenvolveu uma obra de impacto priorizando o movimento, a luz e buscando as formas do universo com o intuito de reconstruí-lo. Depero e Balla assinaram o Manifesto da Reconstrução do Universo, em 11 de março de 1915, introduzindo a qualificação de abstratos futuristas, enaltecendo a jocosidade na linguagem artística em uma antecipação do construtivismo russo com Tatlin, Rodchenko e aquele da Bauhaus. A intenção era transformar o mundo propondo a construção de objetos denominados conjuntos plásticos, uma combinação de equivalentes abstratos das formas e dos elementos do universo. As qualidades realçadas eram: a abstração, o dinamismo, a transparência, a cor e a luz, a autonomia, a transformação, a dramaticidade, o voo, o cheiro, o barulho, o estouro.

Sendo essencialmente contra uma estética tradicional solidificada, o futurismo colocava a arte em uma dimensão mais ampla como indicavam suas atividades paralelas à pintura: a música, a arquitetura, o teatro, o cinema e a moda.

Reflexos no cubismo

A estrutura do futurismo era fonte fundamental da modernidade promovendo um impacto na vanguarda francesa, o cubismo. A relação dos dois movimentos revelava paralelismos com obras de Georges Braque, Robert Delaunay, Felix de Marle, Marcel Duchamp, Albert Gleizes, Frantisek Kupka, Fernand Léger, Kasimir Malievitch, Jean Metzinger, Francis Picabia, Pablo Picasso e Ardengo Soffici, protagonistas de um diálogo de repercussão internacional. Os conceitos futuristas serviram como fonte de inspiração para numerosos artistas do mundo todo.

O otimismo fazia parte da filosofia do grupo, que inventou um novo relacionamento do homem com o mundo moderno, visando ao futuro em arrojadas concepções plásticas.

A exaltação do mundo moderno, propondo uma ruptura total com o passado, colocava, no âmago de suas experimentações artísticas, a cidade, as máquinas, a guerra e a velocidade. Tumultuado, agitado, provocador, este movimento refletia a estrutura mutante do mundo visível, captada por sensações dinâmicas da velocidade do tempo.

Várias publicações difundiam as ideias futuristas, como Lacerba, periódico quinzenal de Florença, o jornal La Balza, de Messina, o semanário Roma Futurista e a revista II Futurismo, de Milão, que circulavam mensalmente, entre outros veículos que ilustravam aqueles anos revolucionários.

Ideais em expansão

O movimento futurista estava presente, inclusive, na origem do cubo futurismo russo (Kasimir Malievitch, Lioubou Popova) e do vorticismo inglês (Wyndham Perry Lewis, Jacob Epstein, Henri Graudier Brzeska). O vorticismo (1914-1917) foi fundado em Londres por Lewis e inspirava-se nos delineamentos do futurismo e na conquista de um estilo puro, em que a ação e o movimento integravam-se na pintura e na escultura.

O termo vórtice vem do latim e significa redemoinho, que pode acontecer no mar, no rio ou no lago. O poeta Ezra Pound (1885-1972) cunhou esse nome para o grupo de artistas vanguardistas por causa da obra de Umberto Boccioni, que o impressionava pela criatividade, um verdadeiro vórtice emocional. Nela, a decomposição da figura destaca-se realçando a força da imagem em uma interpenetração dinâmica das formas no espaço, representando um novo parâmetro estético da escultura.

Para Balla, o futurismo possibilitava uma sensibilidade intuitiva pela absoluta ausência de tradição antiga e moderna, um movimento aberto aos novos caminhos envoltos nas conquistas tecnológicas. A sua casa, em Roma, onde morou entre 1904 e 1926, refletia sua visão artística, ao projetar toda a decoração, dos móveis aos tapetes, em uma coreografia de ritmos e cores, criando um cenário definido por ele como “o imaginário cósmico”. Todo domingo à tarde, era aberta ao público que, assim, podia apreciar as propostas arrojadas vinculadas aos preceitos do Manifesto de 1915, o qual dizia: “Nós, futuristas, queremos reconstruir o universo alegrando-o. Acharemos os equivalentes abstratos de todas as formas e de todos os elementos do universo e os integraremos conforme os caprichos da nossa inspiração”. A decoração futurista o acompanhou em suas novas residências, primeiramente em Via Porpora e depois na Via Oslovia, onde viveu com suas recordações futuristas até a morte, em 1958.

Influências e aproximações

O ano de 1922, porém, marcou a história com a Marcha sobre Roma, quando Benito Mussolini chegava ao poder com o apoio do rei Vitorio Emanuel III. Os principais expoentes da cultura e das artes estavam com ele, fascinados com a esperança de refazer o mundo. No salão de Margherita Sarfatti, uma intelectual renomada, amante do ditador, surgia o Novecento que acolhia os artistas mais representativos da época, de Mario Sironi a Morandi, enquanto no campo da arquitetura existia uma aproximação com o movimento racionalista de Walter Gropius, Mies Van der Rohe e Le Corbusier. Na literatura, a revista ‘900, de Marco Bontempelli e Curzio Malaparte, tinha colaboradores de primeira linha como Alberto Moravia, Emilio Cecchi, Giovanni Comisso, Barilli e James Joyce. Todos se uniam contra o naturalismo dos anos 1800 a favor do realismo mágico, que elucidava o lado mítico da realidade.

O futurismo, no entanto, propiciou uma revolução, influenciando gerações de artistas e gerando novos caminhos na complexidade de períodos conturbados como o fascismo, que acabou atraindo o próprio Marinetti. As ilusões passageiras desintegraram-se, mas a força da arte permaneceu nos resultados estéticos do período futurista como semente para novas incursões criativas.

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