© Divulgação

Uma galeria transformada em sala de dança, comprimido, bandeira, aula… tudo é passível de ser mais, do que assumido, projetado como obra de arte. Essa primeira lista resume alguns dos trabalhos da dupla Franz Manata e Saulo Laudares. Ambos, além de suas obras individuais – o primeiro como artista e o segundo primordialmente como DJ – colaboram há dez anos desenvolvendo proposições cuja condição, ou melhor, o fato de existirem como trabalho artístico (e merece ênfase a distinção aqui entre trabalho e obra, na medida em que a última denominação reduz o primeiro termo apenas ao objeto final) se pauta no desejo de ativar relações entre pessoas.

Naturalmente, tal princípio existe desde que a arte existe como arte. A expansão de meios acionada pelos artistas também guarda vínculos com as experiências dos anos 1960, em particular as ideias de Helio Oiticica acerca do objeto, apresentadas em um texto no qual o artista carioca comentava a nova dimensão adquirida pelo termo, que poderia descrever uma instalação, um som, uma proposição e tudo mais. Franz e Saulo lidam conscientemente com essas discussões. Deve-se entretanto, observar como elas são assumidas por eles com caráter próprio, tal como transparece na seleção de trabalhos a serem apresentados na Casa de Cultura Laura Alvim, dentro do projeto de curadores residentes, este ano coordenado por Fernando Cocchiarale.

As instalações The place, heart beat e after: nature exemplificam alguns aspectos explorados em sua produção. Se no primeiro caso, uma sala ocupada por um desenho modular, som e dança, a instauração de um lugar como momento de convívio e partilha coletiva (o mesmo se pode falar de suas aulas no curso/workshop Arte Sonora, uma vez que reiteram a troca como trabalho artístico, e, por falar em troca, suscitando a possibilidade de relações dentro do circuito que escapem da mecânica observação, compra e venda), heart beat investe no que se chamaria “plástica do som”, isto é, da potência das ondas ser capaz de moldar, agir sobre o corpo do participante, conferindo uma corporeidade escultórica dada menos pelas características físicas particulares do espaço do que pelo quanto o som cria ali campos de força de atração ou repulsão, fazendo-nos tanto imergir hipnoticamente quanto em contrapartida sermos “obstruídos” naquele ambiente. No terceiro caso, tratava-se de uma intervenção feita em 2008 no parque do Flamengo. Os artistas instalaram em algumas árvores pequenas caixas de som que emitiam o canto dos pássaros. Esse trabalho quase “mimético” trazia à tona aquilo que Franz chama de “arte como artifício”, isto é, da arte como produto cultural que busca dar significado ao seu outro (a natureza), ainda que ciente do teor arbitrário dessa dualidade construída. Em suma, o que era esse duplo da natureza que precisa parecer para ser e, por conta disso, nesse jogo da aparência, faz ver seu antagonismo? Nos três casos, coloca-se uma desnaturalização do ordinário. Os franceses costumam usar uma expressão (sempre difícil de ser traduzida, mas já caída em domínio comum) – dépaysement – para descrever o deslocamento de um lugar para outro e junto a isso seus efeitos advindos das mudanças de hábitos e de ambiente. Considerada sob certo ponto de vista, as ações de Franz e Saulo são esse dépaysement em nosso próprio território.

Uma vez que a presença do outro é elemento fundamental do processo – nisso distingue-se em parte da visão do espectador que completava a obra vinda dos anos 1960 – os artistas discutem outra condição para o conceito de autoria. A rigor, ambos, em vez de se fincarem a uma ou outra maneira irredutível de entendê-la, preferem a simultaneidade e o trânsito entre suas inúmeras modalidades. Assim, se certos trabalhos geram produtos mais “tradicionais”, em outros casos coexiste uma possibilidade de autoria expandida, ou seja, um mesmo trabalho amalgama em si duas situações: aquela na qual se pode entender a dupla como propositora que projeta áreas de experimentação; outra, na qual, admitida a autonomia (e também a autodeterminação) desses espaços e seus ocupantes, o trabalho/situação ganha rumo próprio e coletivo. Abrem-se as portas para um conceitualismo sensível, uma experiência afetivamente pactuada entre os envolvidos que, dentro ou fora do sistema, se sabe maior do que suas regras e procedimentos.

CASA DE CULTURA LAURA ALVIM
De 23 de agosto a 07 de outubro

Compartilhar: