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Certo dia, fiz uma visita a um acervo de arte instalado no último andar de uma torre empresarial, localizada em uma das mais movimentadas avenidas de Fortaleza. Dali se via um lado da cidade, o mais próspero, de onde saem as decisões sobre o destino dela. Por mais que apertasse os olhos, ficava outro tanto da cidade fora do meu alcance. Fortaleza me pareceu gigante, quase inatingível. Aquela era mais uma visão fatiada da cidade que se concretizou para mim nas várias entrevistas para esta matéria.

Pensar sobre a cena da arte contemporânea em Fortaleza, é colocar em pauta a discussão do processo de construção do lugar da arte buscado há 15 anos por uma sequência de ações bastante positivas, reforçadas com o retorno dos artistas Eduardo Frota e Solon Ribeiro a Fortaleza, fundando, em 1998, o Núcleo de Arte Contemporânea do Alpendre Casa de Arte, uma ONG que se manteve ativa por cerca de dez anos com grupos de estudos, a primeira biblioteca de artes visuais da cidade e exposições. No mesmo ano, com a inauguração do MAC Dragão do Mar, institucionalizou-se a aproximação dos artistas da cidade a grandes exposições nacionais. Pouco tempo depois foi criado o primeiro curso de graduação em artes visuais na Faculdade Grande Fortaleza, concebido sob a ótica de um “laboratório poético-experimental”, que fechou as portas depois de formar quatro turmas e uma geração de artistas atuantes hoje. A partir de 2003, o MAC alinha-se de vez aos artistas contemporâneos locais com a meta de abrir o museu ao que surge de mais desafiador e em diálogo com a jovem produção que estava se formando. Em seguida, o Projeto Artista Invasor, do curador Ricardo Resende, foi pensado para tornar o museu um território livre para a experimentação plástica e conceitual. Foram “artistas invasores”, dentre outros, os cearenses Jared Domício, Marina de Botas, e Yuri Firmeza. Já em 2004 foi criado o curso de Tecnólogo em Artes Plásticas no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará, hoje de licenciatura em Artes Visuais.

Bitu Cassundé, atual curador do MAC, ressalta que “esses locais tiveram ciclos de ápices e descontinuidade durante esse percurso, daí a importância da chegada das artes visuais do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), em 2003. O CCBNB vem atuando de forma contínua dentro de todos esses percalços das instituições locais, possibilitando um considerável fluxo de artistas, exposições, debates e cursos, sempre em diálogo com a cidade. Acredito que essa linearidade de atuação fortaleceu o terreno para que Fortaleza pudesse ter hoje alguma movimentação impactante para o Brasil”.

Atualmente, mais um ciclo de bons projetos acontecem em Fortaleza: a 70.ª edição do Salão de Abril; a atuação do CCBNB, inclusive com uma política de formação de acervo; a retomada do MAC, em 2012, com uma programação mais potente; a escola Porto Iracema, voltada à formação de artistas; a UNIFOR, que recentemente abriu sua coleção ao público, assim como as coleções do CCBNB e de Silvio Frota (Veja em Coleção, nesta mesma edição). São mecanismos que dão fôlego a essa movimentação na cidade, um microssistema construído a partir de ações que ficaram mais evidentes, colocando Fortaleza mais pública ao olhar do Brasil. No entanto para os que chegam aqui é preciso ter cuidado para não buscar mais uma ideia colonialista de Nordeste ou cair nos seus estereótipos regionalistas do passado, que podem aproximar das ações eurocêntricas e póscolonialistas, visivelmente retomadas em exposições nos Estados Unidos e Europa, que tentam criar uma identidade para a arte da América Latina e do Brasil. Por mais que se tente dar conta de mapear a produção artística nacional, será sempre mais uma visão fatiada deste imenso e adverso país.

Apesar de toda essa movimentação, Fortaleza ainda não possui um curso de graduação em artes que pense a contemporaneidade e os interesses do sistema. “Numa universidade, os alunos convivem quatro anos conversando sobre suas produções, isso é muito rico. Sem um curso de graduação em instituições públicas, os centros culturais são demandados para serem uma escola de arte. O Dragão do Mar criou a escola Porto Iracema e o CCBNB o Laboratório de Arte Contemporânea que, evidentemente, tem resultado, mas ainda é um tempo curto”, afirma Solon Ribeiro. No entanto, há bastantes oportunidades de formação. Nesse momento, acontece um Laboratório de Artes Visuais do CCBNB, direcionado a novos artistas com orientação de curadores vindos de fora e tutores locais. Programa semelhante acontece no Porto Iracema, voltado a artistas com trajetória já iniciada. Há ainda cursos livres e gratuitos em ambas as instituições, além do recente mestrado em Artes da Universidade Federal do Ceará. Segundo Silvio Frota, a cidade “tem grandes artistas, mas eles estão muito dependentes do próprio esforço, ou vão embora do Ceará ou morrem aqui. Não têm galeria para vender e daqui não têm como atingir o mercado dos grandes centros. Alguns são representados por galerias do Sudeste, mas é complicado para o artista daqui entrar nessa luta de mercado nacional”.

ENTREVISTA EFRAIN ALMEIDA

 

Fortaleza das artes foi descoberta?

Espero que sim, a cidade vive um ótimo momento. Mas o interesse da cena artística brasileira em relação a Fortaleza é fruto de muito suor e trabalho.

 

O que o levou a sair do Ceará? Nesse mundo em trânsito, entre-lugares, ainda é preciso o artista fixar residência fora de Fortaleza?

Mudei com minha família no final dos anos 1970, ainda era pré-adolescente e não tinha a ideia de ser artista. Hoje, é totalmente possível viver em Fortaleza e ter uma carreira artística relevante. Obviamente, acho que o artista precisa ter uma representação em uma galeria comercial, principalmente em São Paulo, onde o mercado é realmente forte.

 

Costuma visitar Fortaleza?

Nos anos 1990, passei a voltar ao Ceará mais frequentemente. Meus pais moravam no Sertão Central, lugar onde nasci. Desde então, são muitas idas e vindas, pois realizo muito do meu trabalha no sertão. Lá tenho minha principal matéria de trabalho, a madeira de Umburana. É o ambiente imagético e memorial fundamental para o desenvolvimento do meu trabalho.

 

DEPOIMENTOS

 

“Fortaleza é a terra dos possíveis. Deve ser difícil atuar em Nova Iorque, Londres ou São Paulo, cidades cujos artistas vivem sob competição e reserva de mercado. Nesses lugares, já não discutem arte, discutem cifras. Estou generalizando, mas gosto de pensar que Fortaleza, com todas as adversidades, tem um potencial enorme. Os artistas aqui nada devem à produção de qualquer lugar do país. Discordo da posição vitimizante de alguns. Quando dizem que Fortaleza é impossível, costumo responder que o possível é muito pouco, a nós o impossível.” YURI FIRMEZA

“O olhar para a arte de Fortaleza não deve ser uma procura estereotipada. Deve-se mapear a produção com um olhar não superficial. Há uma produção diferenciada, pensada localmente, diferente de quem produz em Porto Alegre ou em Belém; não é pior nem melhor, são potências diferentes. É preciso ver como o artista equaliza seu processo produtivo e isso faz com que a obra já nasça crítica do lugar e dela mesmo.” EDUARDO FROTA

 

 

ARTISTAS FLUTUANTES

Uma das características do cearense é estar em trânsito. Os artistas se tornam flutuantes e dão às artes na cidade o movimento de maré. Partir, mas sempre voltar, colaborar de alguma forma com a cidade e trazer de volta o que aprendeu fora dela. Nesse contexto, vemos resíduos da cidade natal tanto na produção visual dos residentes como na produção dos que saíram. Vemos isso claramente em trabalhos de Waléria Américo, Diego de Santos, Yuri Firmeza e Efrain Almeida, entre muitos outros. Assim também aconteceu com Bitu Cassundé, que retornou a Fortaleza, em 2012, para assumir a curadoria do Museu de Arte Contemporânea. Bitu é da equipe fundadora do MAC, trabalhou por sete anos e partiu à busca de outros horizontes. Sua primeira exposição ao retornar foi sobre arte contemporânea nordestina dos últimos dez anos e totalmente doada pelos artistas para compor o acervo do museu. Até hoje, recebeu doações de 20 artistas brasileiros, uma vez que não possui recursos para aquisição de obras. A coleção já tem mais de mil obras, com um recorte importante do Ceará como Leonilson, Sérvulo Esmeraldo e Zé Tarcísio, adquiridos na gestão de Ricardo Resende por meio de um projeto patrocinado pela CEF.

 

COLEÇÕES DE ARTE

Os principais acervos de arte das instituições de Fortaleza são formados de acordo com as políticas de atuação de cada uma. Temos o Museu de Arte da Universidade do Ceará (MAUC), com o foco na história da arte cearense e de arte popular dos anos 1960; a Universidade de Fortaleza (Unifor), com ênfase na arte brasileira, mais fortemente até os anos 1980. O MAC, voltado para a arte contemporânea nacional e cearense, e o CCBNB, único com um programa de aquisição permanente, prioriza no momento a produção nordestina a partir dos anos 2000. O Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (MAUC), fundado em 1961, iniciou seu acervo com arte popular: xilogravuras, ex-votos, cerâmica e santeiros, provavelmente influenciado por Lina Bo Bardi. O acervo também é referência importante para a História da Arte cearense com as primeiras obras e os esboços de Antônio Bandeira, Aldemir Martins, Raimundo Cela e Sérvulo Esmeraldo. Uma importante coleção veio a público recentemente ao comemorar 30 anos, o acervo da Unifor, com ênfase na arte nacional – Eliseu Visconti, José Pancetti, Anita Mafalti, Lasar Segal, Alfredo Volpi e Milton Dacosta, os pops Wesley Duke Lee e Nelson Leirner, os neoconcretos e até contemporâneos como Tunga e Luiz Zerbini. Em relação à arte cearense, possui os importantes artistas até a geração 1980: Antônio Bandeira, Raimundo Cela, Aldemir Martins, Luiz Hermano e Leonilson. Já a coleção do CCBNB, originada a partir das obras do Banco do Nordeste, é composta, na sua grande maioria, por artista brasileiros modernos e dos anos 1980. A partir de 2007, foi retomada a política de aquisição de obras. Num primeiro momento contemplou a formação de uma coleção de gravuras brasileira. Em seguida, foram adquiridas obras a partir de um estudo das lacunas da coleção em relação aos anos 1980 da arte cearense. Atualmente a Coleção compreende quase 800 obras.

 

A JOVEM PRODUÇÃO CEARENSE

Com os altos e baixos das políticas públicas e no mercado de arte em Fortaleza, recentemente ocorreu um grande vácuo de incentivos a formação em artes, o que impactou diretamente a nova geração de artistas; uma geração que chega agora à Escola Porto Iracema, no Laboratório de Arte Contemporânea do CCBNB e pretende chegar ao Salão de Abril, ao MAC e ao mercado. Essa produção necessita de maior aprofundamento nas questões conceituais e plásticas para conseguir desenvolver saídas para sua arte sem cair na retórica de direcionar suas dificuldades às políticas de editais ou às estruturas das instituições. “A experiência do Porto Iracema está marcando minha produção. O que eu precisava era de uma troca mais próxima e estou vendo que é possível por meio da orientação do Marcelo Campos. São encontros de trocas constantes, que ampliaram as possibilidades do meu trabalho, e tomou uma dimensão que eu nem imaginava”, afirma Diego de Santos, artista residente. Com desejo e comprometimento, essa nova geração perpassa obstáculos para desenvolver seu trabalho, sem a ansiedade do sistema de arte, sem buscar uma zona de conforto. É um longo caminho, de muita dedicação, pesquisa, seriedade e crença no que se faz.

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