Em 2005, um bar do Rio de Janeiro apresentava em uma placa o cardápio da semana seguinte: “sexta-feira, filé de peixe”. Reunido ali, um grupo viu no anúncio um possível título para um evento marcado para o dia em questão. E assim foi feito: num misto de cineclube, sarau de poesias e evento performático surgia o Filé de Peixe, ação que se tornou periódica e chamou atenção, levando seus organizadores a uma ocupação no MAC-Niterói – chamada MAC-Filé – que tomou toda a área externa do museu. Essa foi a primeira vez que o grupo (batizado com o mesmo nome da primeira ação) entrava oficialmente no espaço de uma instituição.

De maneira natural, o Filé começou a migrar mais enfaticamente para o campo das artes visuais, ao mesmo tempo em que uma consciência crítica sobre o próprio trabalho tomava forma. Aos poucos ia se configurando um coletivo artístico marcado pela busca por processos de horizontalização entre as camadas elitizadas e populares da sociedade e do meio artístico.

O primeiro trabalho de grande repercussão do grupo lida exatamente com uma proposta de acessibilidade à arte: o Piratão Filé de Peixe copia e coloca à venda, no conhecido modelo “um é cinco; três é dez”, arquivos de videoarte. O que se poderia pressupor simples pirataria consiste, na verdade, num procedimento de apropriação e difusão inspirado na cultura do camelô carioca. Quando o comprador adquire um DVD do Piratão, não está adquirindo uma obra do artista originalmente criador do material, mas uma obra do Coletivo Filé de Peixe, com embalagem especial e número de série, vendida apenas nas ações do grupo, que colocam no mesmo patamar (ou “na mesma ‘filinha’ da videoarte”, como brinca Alex Topini, artista do coletivo) o espectador comum e o curador renomado.

A ação já passou por locais tão próximos e díspares quanto a Caixa Cultural Rio de Janeiro e as ruas do Saara, mercado popular da cidade. Neste último caso, a infiltração na cultura popular atingiu seu ápice, não sem certa tensão. Com o evento oficializado e inserido diretamente na teia urbana, foi inevitável o desconforto tanto entre policiais do local, que não podiam impedir a ação, regulamentada, quanto entre os próprios camelôs que, ao mesmo tempo em que se viam positivamente representados pela arte, sentiam-se injustiçados por não terem seu trabalho permitido, diferentemente do coletivo.

Consumida principalmente em ambientes que possuem público especializado, a videoarte foi para a rua, intrigou os passantes e elevou uma atitude muitas vezes considerada ilegal ao status de alta cultura. Em meio às constantes discussões e tentativas de atualização das leis sobre direitos autorais – principalmente em relação a arquivos digitais, onde original e cópia se confundem –, qual o limite que separa a apropriação do uso ilegal da produção alheia? Da mesma forma, o que diferencia este “ser” artista do trabalhador do Saara, quando suas práticas são, a priori, iguais? Numa sociedade marcada pela hibridez, em que limites se sobrepõem, o Filé se infiltra no cotidiano e causa fissura em verdades já cimentadas. Ao mesmo tempo em que a prática da ação pode ser vista por alguns como ilegal, a arte se dissemina e atinge um público ao qual talvez não chegasse pelas vias comuns, ao mesmo tempo em que se cria um dos maiores – senão o maior – acervos de arquivos de videoarte do país.

Se o Piratão lida com apropriação e não prevê autorização prévia pelos artistas, a nova obra do Filé de Peixe vai à contramão desta ideia, ainda que vinculada à mesma proposta de acessibilidade a obras de arte. O CM² de Arte Contemporânea, que levou o coletivo à sua primeira exposição individual, parte de uma ampla análise de mercado e depende diretamente da participação dos artistas convidados. A partir dos tamanhos e valores de vendas foi elaborada uma equação que chega ao valor médio do cm² de obra de cada artista. Com essas informações, o coletivo compra obras ou fragmentos de obras nessa unidade mínima de medida, criando uma coleção particular e repassando 50% do valor das unidades vendidas ao seu autor. Assim, torna possível a aquisição de obras de nomes como Antonio Dias, Rosana Ricalde e Rodrigo Braga por preços que vão de R$ 0,02 a R$ 46,00. O produto varia entre 1 cm² de uma obra de arte ou uma obra de arte de 1 cm², já que muitos criaram trabalhos exclusivamente para o projeto.

Com uma carreira em visível ascensão e se preparando para uma residência em 2014 pela Bienal de Vancouver, o coletivo Filé de Peixe causa atritos, questiona e põe em xeque o status elitizado e a função de commodity que a arte adquire atualmente. Em época em que feiras de arte viram febre e obras atingem cifras exorbitantes, qual o valor real do nome de um artista e de sua obra? Se depender do coletivo, por dois centavos já é possível começar sua coleção. Para os mais ousados, três por dez é o prato do dia.

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