Gostaria de retomar um evento artístico – ou antes um não evento – que, a meu ver, foi praticamente ignorado, pela expectativa que mobilizou. Refiro-me ao caso da malfadada SOLO Art Fair, que se anunciava como uma feira de arte inovadora que ocorreria em paralelo à última edição da SP Arte, no último mês de abril. A empreitada definia-se como nada menos que uma “uma revolução no mundo das artes”, apresentando como diferenciais o fato de oferecer estandes individuais para os artistas e, o que é mais importante, ser gerada à base de um “sistema colaborativo”, que consistia no conhecido formato de crowd funding. Na prática, significava que seriam os participantes, leia-se os artistas, a ter que levantar fundos para o dito evento; caso contrário, este não aconteceria.

Adotando um jargão peculiar que alternava termos como “economia criativa”, “participação direta” e “diversidade cultural”, o edital destacava-se pelo tom claramente alheio ao dos que usualmente circulam no mundo da arte. Os responsáveis pela organização – um economista e uma publicitária – anunciavam a SOLO Art Fair como uma “grande oportunidade” para os artistas, que teriam a chance, com o formato proposto, de poder comercializar seu trabalho sem intermediários. Mas para tal, havia antes um pequeno desafio a se superar: deveriam ser também eles, artistas, a arrecadar um valor total estipulado em R$ 1,2 milhão para viabilizar o evento. Como foram selecionados 60 artistas (a seleção, à maneira de um salão, foi feita por um júri de cinco integrantes, três dos quais atuantes na área, a partir da análise de material dos candidatos), isso totalizava um montante de R$ 24 mil a ser captado por cada um. Aos que garantissem sua participação – leia-se, que arrecadasse a cota estipulada –, a organização “generosamente” repassaria a quantia de R$ 4 mil, a título de cobrir os custos de participação na Feira. Trocando em miúdos: cada artista tinha que conseguir, às próprias custas, R$ 24 mil, dos quais R$ 4 mil poderiam retornar a ele. Tudo isso num prazo curto:cerca de dois meses, entre dezembro e fevereiro.

Pois bem: frente a essas diretrizes e limitações, as metas de financiamento não foram atingidas e a SOLO Art Fair não aconteceu. E, para minha estranheza, de modo geral, não se falou nada a respeito, tanto na imprensa em geral, como em veículos especializados do setor, impressos ou eletrônicos. Mesmo nas redes sociais, amplamente utilizadas quando da divulgação do evento, era sensível o total silêncio sobre o caso quando o fiasco se consumou.

Essa quietude frente a um fato desse porte faz pensar num aspecto que considero algo perverso, embutido na premissa do projeto. Apesar de não economizar superlativos em sua descrição, estava claro que o mesmo não se realizaria se os artistas não fossem capazes de levantar os fundos estipulados. E aí se tem o estabelecimento de uma dinâmica que me parece injusta: apesar de presumivelmente cientes das condições, o fato é que, de uma hora para outra, pessoas sem experiência na área – em sua quase totalidade artistas jovens e/ou não estabelecidos, perfil médio atraído pelo edital – tinham que se converter em agentes de marketing pessoal e se empenhar em vender seu peixe na internet. Tem lugar uma verdadeira corrida autopromocional edulcorada como “processo colaborativo de financiamento coletivo”. Tal processo certamente gerou frustração e constrangimento para aqueles – e foram muitos, até onde pude acompanhar – que compreensivelmente não foram capazes de atingir a meta, sentimentos acentuados quando se lembra que se podia acompanhar os resultados a qualquer momento, na plataforma de ativação on-line.

Em suma, a meu ver, houve no mínimo despreparo da organização e desrespeito com os participantes, cujas reais condições de participação foram sempre estimuladas com eufemismos. Entendo o constrangimento dos artistas que se viram nessa situação, depois de se submeterem a tais procedimentos, em vão, e que prefiram não se posicionarem publicamente. Mas justo por isso creio ser fundamental que casos como esse sejam mais discutidos, até para se evitar novos desencantos do gênero.

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