© Foto: Cortesia FIESP

A história do Comitê de Ação Cultural da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) caminha junto com a de Fernando Greiber, seu mentor. Desde sua criação em 2004, o comitê já organizou exposições de arte importantes em sua galeria na Avenida Paulista, incluindo A Arte Argentina na Encruzilhada: Informalismo e Nova Figuração, em cartaz até 14 de junho. Inaugurada com a presença da presidente argentina Cristina Kirchner e um grupo com os maiores empresários do país, a mostra é uma das muitas ações culturais da FIESP que fomentam as relações comerciais e políticas entre o Brasil e seus parceiros, delegando à arte um papel além do meramente cultural.

Nascido em Recife, há mais de vinte anos Greiber é diretor da FIESP, para onde migrou depois de comandar o Sindicado da Indústria de Artefatos de Metais não Ferrosos do Estado de São Paulo. Nesta entrevista, ele nos fala mais sobre o papel de seu comitê e a relação entre a arte e a economia.

Como surgiu o Comitê de Ação Cultural da FIESP?
Eu sempre insisti no ponto de que a FIESP não podia se manter alienada da visão da comunidade, e a melhor forma de nos relacionarmos com a comunidade é por meio da cultura. Após ganharmos a eleição (para presidência da FIESP em 2004), Paulo Skaf adotou esta ideia da criação de um comitê cultural que, além de suas próprias produções culturais, de certa maneira supervisionasse o Serviço Social da Indústria (Sesi), que é administrado por nós e que tem como função oferecer lazer e cultura aos associados.

E o que o comitê adiciona ao trabalho que já era feito pelo Sesi?
O que muda é que a FIESP está mais disposta a correr riscos. Podemos incluir ações culturais que não são tão populares, como, por exemplo, a música erudita, enquanto o Sesi vai oferecer aquilo que já é pedido por seus associados, que é a música popular. Nós não temos estrutura, usamos a estrutura do Sesi, mas buscamos oferecer aquilo que os agentes comerciais não têm interesse em fazer, que é o teatro de risco, o cinema nas cidades pequenas, a música clássica…
Fale de algumas iniciativas culturais do comitê.
Fazemos uma média de duzentos concertos por ano em dezessete cidades do interior de São Paulo. Temos teatros e cinemas em todo o estado e fazemos alguns concursos, como o de poesia, que recebeu mais de 92 mil inscrições em sua última edição. E, é claro, temos a galeria de arte, que mostra arte a que o público não teria acesso se não fosse por ela.

E que iniciativas podemos esperar para o futuro?
Estamos construindo, no interior do estado, cinco teatros com foyer para exposições, todos sob o mesmo padrão, com as mesmas dimensões, para que as mostras e espetáculos possam itinerar pelo estado sem necessidade de adaptação. Hoje, temos dificuldade em itinerar qualquer exposição porque cada um de nossos espaços no interior é diferente, tem dimensões diferentes… Então, isto exige uma adaptação que é custosa e às vezes inviável. A ideia é de que também os dezessete espaços que já temos aos poucos sejam reformados e adotem este padrão. Para a galeria de arte, estamos planejando uma exposição de arte colombiana.

A maior parte dessas iniciativas está no interior do estado. Por quê?
Porque aqui na capital você tem uma oferta muito grande, enquanto em algumas cidades do interior não tem nada. Em muitas delas, somos o único cinema da cidade, o único teatro, então lotamos os espaços sempre que oferecemos algo. Isso não apenas é importante porque cria uma demanda, mas também porque cria empregos para músicos e outros profissionais da cultura no interior.

Recentemente, a presidente da Argentina esteve presente na abertura de uma exposição de arte argentina na galeria da FIESP. Podemos imaginar, então, que o tema da mostra foi decidido em função desta visita. As iniciativas culturais em artes visuais da FIESP são decididas em função de interesses políticos e comerciais?
Essa é uma boa pergunta. Eu diria que a cultura se aproveita dos interesses industriais, dos interesses políticos no país, pois estamos usando a arte para aproximar os industriais paulistas e os nossos compradores dos países vizinhos. Neste caso, tínhamos uma grande missão comercial da Argentina vindo para cá chefiada pela presidente. Há coisa melhor para se receber os representantes de um país do que homenageá-los com o que de melhor produziram em arte?

Então a prioridade do comitê seria dar suporte às ações comerciais e políticas da FIESP ou incentivar a cultura?
Claro que o papel da FIESP é representar os interesses dos industriais, mas a prioridade do comitê é oferecer cultura e, nestes casos em que recebemos missões estrangeiras, estes objetivos andam juntos. Acabamos tendo a oportunidade de trazer para o público brasileiro coisas que nunca teriam a chance de ver. Já fizemos isso com o Chile, com obras incríveis do museu Fundação Salvador Allende. Foi um sucesso de público e também como missão, pois resultou no aumento do comércio com o Chile e teve resultados tão bons sobre as relações entre os países que cheguei a ser condecorado. Também fizemos isso com o Peru e a exposição sobre Paracas, que foi uma civilização da costa sul do Peru que produzia mantos fúnebres extraordinários, com uso da lã e do algodão surpreendente pela tecnologia – estamos falando de 400 anos antes de Cristo. Com Portugal, trouxemos obras do Museu do Azulejo, incluindo uma réplica perfeita de um painel que retratava com fidelidade 16 quilômetros da costa de Lisboa antes do terremoto de 1755, um dos poucos registros de como era Lisboa antes de ser quase completamente destruída. E a próxima exposição será sobre a Colômbia, quando acolheremos a maior missão comercial que já saiu da Colômbia para qualquer país.

E como será a exposição sobre a Colômbia?
Para começar, não vamos atrás de pré-colombianos. Gostaríamos de mostrar o Museu do Ouro, que é extraordinário, tanto em termos de design como de tecnologia, mas isso é algo muito complexo, pois tem que ser exposto em vitrines etc. Então focaremos nas artes visuais. E aí buscaremos mostrar a figura mais atual da arte, a Colômbia que não se conhece tão bem.

Existem alguns nomes colombianos que se destacam na arte de hoje.
Talvez para um público formado, mas para a população só um nome se destaca, o de Botero. Claro que Botero, de 1990 para cá, descobriu que fazia sucesso com as pessoas redondas, mas ele é um artista extraordinário, muito mais rico que apenas isso. Ele doou muitas de suas primeiras obras a museus com cláusulas que as impedissem de sair de lá, mas abriu uma exceção para que estas obras possam vir para a FIESP. No entanto, não faremos uma exposição só sobre Botero, pois queremos mostrar mais da arte colombiana.

Pode-se dizer que as exposições da FIESP seguem uma linha mais tradicional. Podemos esperar exposições com instalações, vídeos, jovens artistas em um futuro próximo?
Não temos espaço aqui para fazer instalações, performances. Não falo de espaço físico. Refiro-me ao nosso público, que não é o público dos vernissages e das galerias, são os alunos do Sesi, do Senai. Para a pessoa que não quer entrar na filosofia da arte, o que significa uma obra de arte? Deve ser algo que a toca sem que ela precise saber quem é o artista ou o que ele quis dizer com a obra. Eu vi uma cena maravilhosa no Museu Nacional de Bogotá, onde tem uma tela de Botero que mostra uma árvore gorda, com o tronco e os galhos redondos, parecendo uma alucinação. Uma criancinha de 5, 6 anos de idade que passeva pelo museu puxou a saia da mãe, apontou a tela e disse: “olha, mamãe, que lindo o brócolis gigante”. Para ela, significa alguma coisa.

As grandes instituições de artes são públicas e vivem com dinheiro de impostos gerados pela indústria e pelo comércio. Você diria que arte e economia andam juntas?
No nosso caso, isso é mais direto. Afinal, quem são os industriais? São os geradores de riqueza e empregos. E queremos também participar da vida cultural, por meio de nossas iniciativas. Nos Estados Unidos, teríamos criado uma fundação e estaríamos distribuindo dinheiro para as instituições. Aqui, não temos isso; aqui, o Estado ainda é o grande indutor da cultura. Nos Estados Unidos, por exemplo, qualquer dólar que você doa a uma ação cultural é descontado dos impostos de forma pouco burocrática. O resultado é que ações como a Ópera de Nova Iorque são sustentadas quase que totalmente por doações. Aqui, as pessoas não entendem porque as empresas não patrocinam seus projetos, mas elas não o fazem porque não querem mais dor de cabeça na sua contabilidade. Por isso, quando você abre o jornal, você vê que os patrocinadores são sempre Petrobras, Banco do Brasil, BNDES, grandes empresas.

Mudar isso requereria uma reforma. A FIESP tem enorme poder de barganha com as entidades políticas. O comitê de cultura poderia almejar usar este poder para negociar em favor da cultura?
A FIESP busca uma reforma completa, uma reforma política. O Estado não pode ser um objeto estático, tem que ser permanentemente atualizado. O Estado de cinquenta anos atrás não serve para um país no mundo globalizado de hoje, está obsoleto em relação ao avanço da iniciativa privada e do país como um todo. Mas somos o braço da indústria, representamos seus interesses e a cultura não entra nestes interesses de forma direta, portanto não é coerente que faça parte de nossas negociações. Apenas seguimos acreditando que não pode haver um país rico sem uma cultura rica e que o que é bom para o país é bom para a FIESP.

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