Feito por brasileiros e estrangeiros

© Denis Decaluwe

A parte de baixo do prédio estava inundada, convertida em um reservatório d’água. Uma chuva atravessava o interior da construção, seu som ampliado. Céu e inferno ficaram indistintos nessa transição que é o Purgatório, obra de Arthur Lecher. Ela está entre as que melhor aproveitaram a arquitetura do antigo Hospital Matarazzo, onde, de 6 de setembro a 12 de outubro, fica em cartaz a exposição Made by… Feito por brasileiros, com possível prorrogação até o início de novembro. É uma exposição monumental. São mais de cem artistas, metade deles brasileiros, ocupando uma série de construções em uma área de 27 mil metros quadrados. Abandonado há cerca de 20 anos, o local abrigará, depois de reformado, um complexo comercial e cultural.

A invasão criativa Made by… Feito por brasileiros foi inspirada em três referências-chave: a L’École de Paris, a exposição Les Magiciens de la Terre (concebida em 1989 por Jean-Hubert Martin para o Centre Pompidou e o Grande Halle de la Villette) e o famoso percurso Chambres d’amis, criado por Jan Hoet, em 1986, na cidade de Gand, na Bélgica.
Para nós, Made by… Feito por brasileiros poderia se chamar L’École de São Paulo, criando um paralelo com a famosa escola de Paris, como era conhecida a comunidade de artistas que fizeram a supremacia da capital francesa em termos de criação artística até os anos 1960. Agora é o Brasil que vem se firmando como um dos epicentros da criação artística, atraindo o interesse do mundo inteiro. Os artistas brasileiros foram chamados dentro do espírito de laboratório. Quisemos fazer a aproximação de obras ocidentais conhecidas, ligadas ou não à história do Brasil, e de obras de “outros” lugares. Não se trata de apenas mostrar a universalidade do ato de criar, mas dar início a um diálogo intercultural entre expressões artísticas geralmente separadas.

Marc Pottier
Curador chefe

Participam renomados artistas da cena contemporânea mundial. A portuguesa Joana Vasconcelos, nascida na França, apresenta dois trabalhos. Um deles, denominado Valquíria Matarazzo, ocupou a capela com uma de suas típicas instalações de formas orgânicas e feitas em tecidos coloridos e, procedimento inédito dentro de outros trabalhos dessa mesma série, milhares de luzes coloridas. A forma em cruz inspirou os diferentes volumes têxteis da obra. Tony Oursler apresentou, em um cômodo pequeno, uma videoinstalação imersiva, com quatro grandes projeções de pessoas falando. A interferência do norueguês radicado na França, Per Barclay, desorienta o espectador. Um espelho de óleo no chão impedia o acesso às belas escadas que levariam ao segundo andar, parecendo um gigantesco buraco no chão.

A curadoria geral da exposição é de Marc Pottier, com projetos especiais de Simon Watson, Nadja Romain, o Museu do Invisível/ Pascal Piquet, Baixo Ribeiro, 3ª Bienal da Bahia e deste que lhes escreve, em parceria com a artista, curadora e diretora do
selo multimídia TAL (TechArtLab), Gabriela Maciel. Nomes consagrados da arte contemporânea brasileira estão presentes, junto a outros de trajetória recente. Tunga mostrou uma instalação com performances ao vivo e Beatriz Milhazes criou com uma obra que funcionava como uma espécie de ambientação para a coreografia de sua
irmã Márcia. Alguns artistas fizeram suas instalações pelos pavilhões, praças e corredores do antigo hospital aproveitando material encontrado nos edifícios, estabelecendo um diálogo com a história do lugar e com a própria situação dos prédios. Causaram forte impressão as obras da francesa Cécile Beau, que utilizou tijolos, cimento, concreto e outros destroços do local, e construiu, em um dos ambientes, uma série de grandes esculturas que evocavam os profetas de Aleijadinho na cidade de Congonhas (MG).

Exatos 40 anos após os primeiros trabalhos de arte feitos exclusivamente em vídeo pelos pioneiros da videoarte no Brasil, em 1974, ainda não é muito comum encontrar obras que utilizam esse suporte em coleções particulares ou instituições. A despeito disso, diversos dos trabalhos apresentados na Mostra Vídeo TAL já foram exibidos mundo afora, mostrando a força da produção brasileira de vídeo no circuito internacional das artes. O que costurou a escolha de todos os trabalhos foi o bom humor, a ironia e a autoria de artistas do Rio de Janeiro.

Gabriela Maciel e André Sheik, curadores

Outros artistas colocaram trabalhos produzidos anteriormente ou fizeram suas interferências nas paredes, dentro de suas linguagens poéticas, a maioria ainda assim relacionando-se com a situação da ocupação. A artista Sofia Borges tem uma pesquisa que inclui fantasmagoria, ruínas e arqueologia, o que casou perfeitamente com o estado da construção. Além de fotografias e escritos, ela mostrou o que chamou de sua primeira escultura. Era um trabalho denso, que requeria tempo para observação atenta e reflexão.

Caminhar pelos corredores dá uma sensação de vazio e abandono, não somente do prédio, mas também em relação às pessoas, as que ali nasceram, as que ficaram internadas, as que viam as obras e refletiam sobre a condição humana, do nascimento à degradação do corpo no fim da vida, como o complexo, que contava com maternidade e hospital, e depois virou a ruína que recebeu as obras. Um instante de reflexão. Rochelle Costi construiu, diretamente na parede de um dos corredores, um gigantesco relógio de um só ponteiro, em que pedia silêncio, sem marcar o tempo, uma vez que as letras da palavra “silêncio” substituíam os números. Simples, forte, potente e muito apropriado ao espaço e à exposição.

A abertura da clínica da árvore, com o Manifesto da Árvore, é outra maneira de olhar para a arte, propondo-se que a obra ofereça tratamento, como as árvores e as florestas podem fazer. Com as etnias warlys, da Índia, e huni quin, da Amazônia, é possível entender melhor como a arte, assim como a árvore, pode fazer a conexão entre o homem e as forças da natureza. A necessidade de se reconectar com a natureza fundamenta todo o projeto do Museu do Invisível.

Pascal Piquet, curador do Museu do Invisivel

O coletivo OPAVIVARÁ mostrou, ou melhor, escondeu-se com o camuflado NAMOITA, obra que costuma levar para espaços expositivos externos dezenas de vasos com plantas altas circundando uma área onde instalam cadeiras de praia e promovem churrascos, bebem e confraternizam. Isso para quem encontrou a entrada secreta desse oásis em meio às ruínas. Valeu a busca. Fazendo contraponto à estrutura pesada da Cidade Matarazzo, com suas edificações do princípio do século 20, estava a bela e poética instalação de Marcelo Jácome, com pipas desnudas, onde, sem o papel seda, havia somente esqueletos das armações, as varetas, agrupadas em grande quantidade, permeando o espaço com leveza e transparência.
O local ainda está degradado, quase em escombros. Em um prédio anexo ao principal, onde era a cozinha, Laura Vinci e José Miguel Wisnik fizeram a instalação Papéis Avulsos. Antiga ideia da artista de utilizar papéis presos por fios e movimentados por ventiladores, segundo o projeto dela para a exposição, uma maneira de “pontuar o movimento de transformação pelo qual o edifício vai passar (…), capaz de nos remeter a uma experiência de movimento análoga à nossa própria”.

“Memória & Futuro” é o nome do conjunto de intervenções e instalações realizadas por um grupo multidisciplinar. O processo criativo incorporou a participação do público, tanto virtual quanto presencialmente. Um exemplo é a obra “Muro da Memória & Futuro”, um grafite com retratos em estêncil e pequenos adesivos com sinais que podem ser lidos pelo aplicativo de realidade ampliada “Zappar”. Quando conectado, o público tem acesso imediato aos depoimentos das pessoas que estão retratadas. O eixo central da curadoria foi abrir o diálogo a respeito do espaço que ficou por vinte anos abandonado e em breve iniciará uma grande transformação urbana numa das áreas mais importantes e populosas da cidade.

Baixo Ribeiro
Curador do projeto Labcidade/ Memória & Futuro

Uma mostra e muitas polêmicas

Tombado em 1986, o Hospital Matarazzo foi comprado pelo grupo francês Allard, em 2011, depois de passar pelas mãos de diversos proprietários que não conseguiram levar adiante sua restauração. Uma longa negociação com o Conselho de Patrimônio Histórico de São Paulo (Condephaat) chegou ao fim em fevereiro deste ano, com a aprovação da reforma para construção de um complexo com espaços comerciais, shopping e hotel. Algumas organizações manifestaram revolta, sem, no entanto, propor soluções para a preservação do conjunto de edifícios, que já se encontra em estado avançado de degradação resultante de 30 anos de abandono. Outra polêmica foi gerada pela indignação de alguns artistas, que veem na exposição um mau uso da arte como forma de promover um empreendimento imobiliário. O grupo Allard tem um bem sucedido currículo de projetos de restauração de edifícios históricos em vários países, lançando-os com exposições de arte. Em entrevista exclusiva à Dasartes, Alexandre Allard informou que menos de 25% dos custos da exposição veio de patrocínio com incentivo fiscal e mais de 20 mil pessoas a visitaram em sua primeira semana. De acordo com ele, “o projeto da Cidade Matarazzo prevê um novo destino turístico centralizado na cultura brasileira, com exposição e comércio de artigos de design, moda e artesanato, além de um laboratório que convidará gênios criativos de diversas áreas da cultura e das ciências para palestras e produções.”

 

A ocupação trouxe reflexões e uma ótima oportunidade para ver diversos trabalhos de importantes artistas de várias nacionalidades em um mesmo local. Que venham mais.

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