© baseado em foto de Ayrton Senna_cortesia Museu do Prado

DASARTES 03 /

Fancis Bacon

Trypich 1991

Francis Bacon é considerado um dos mais importantes pintores do século 20. Para celebrar o centenário de seu nascimento, a Tate Britain organizou em 2008 uma exposição retrospectiva com 78 obras do artista, incluindo quinze importantes trípticos. A mostra itinerante ficará exposta no Museu do Prado em Madri até abril de 2009, de onde seguirá para o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque.

Considerado um gênio da pintura moderna, a arte de Bacon lida com as fraquezas e as limitações do ser humano. Pintor autodidata, ele desenvolveu um rico conhecimento sobre a história da arte e buscou referências nela, na literatura e na fotografia para expressar seus sentimentos por meio da pintura.

Nascido em Dublin em 1909, Bacon sofria de uma severa condição asmática que o impediu de viver uma infância normal. Devido a tensões sobre sua sexualidade, foi levado a deixar a família aos 16 anos e viver em Londres, Berlim e Paris. Este histórico e a vivência da guerra deram a ele uma grande consciência das limitações humanas e proximidade com a violência. Foi nesta época que Bacon decidiu ser pintor, após visitar uma exposição de Picasso em Paris. Ele ainda atuou como designer de interiores, mas, no início dos anos 1930, o foco de seu trabalho passou a ser a pintura, a qual revela, na riqueza dos cenários de fundo, o conhecimento adquirido como designer de interiores.

Apesar de uma de suas primeiras obras, Crucifixion (1933), ter sido reproduzida na revista Art Now no mesmo ano de sua produção, suas pinturas iniciais não foram bem recebidas no meio artístico. Ambicioso e altamente crítico, Bacon dizia que suas obras “ou iriam para a National Gallery ou para o lixo”; dessa forma, o artista destruiu a maioria delas nesse período, restando poucos registros de seus primeiros trabalhos. De fato, foi no pós-guerra que Bacon começou a ganhar notoriedade. A sua primeira grande obra, Three Studies for the Base of a Crucifixion (1944), foi exibida em uma coletiva em Londres junto com Figure in a Landscape (1945). A brutalidade e o caráter angustiante de suas figuras humanas causaram grande choque no mundo artístico. Influenciado pelas obras de Picasso dos anos 1920, nas quais há ênfase na forma orgânica das figuras, em Three Studies for the Base of a Crucifixion, Bacon deforma suas figuras, tornando impossível decifrar qualquer origem humana. Além disso, sua posição contorcida e seus detalhes expõem uma selvagem ferocidade e violência. O fato de Bacon não representar nas telas nenhum ato violento que possa causar tal sofrimento instiga no espectador a sensação de que tais criaturas foram vítimas de grandes atrocidades, uma referência à guerra e à angústia do artista em relação ao seu homossexualismo.

Ateísta, a visão do mundo de Bacon exaltava a existência humana como um acidente. Dessa forma, o homem estaria sujeito aos mesmos impulsos naturais de violência, luxúria e medo presentes nos outros animais. Na obra Head I (1947-1948), isso fica bastante evidente. Ela ilustra uma cabeça humana; todavia, por meio de uma técnica de pintura singular, a única forma que se pode distinguir é a boca de um macaco sobreposta à boca do ser humano. Bacon cria a ilusão de que o resto da face está se desintegrando. O resultado final é uma imagem forte e sombria, em que a figura humana parece estar dominada por uma brutalidade animal.

As obras do final dos anos 1940 e 1950 deram destaque a Bacon, que passou a ser visto como um pintor excêntrico, sombrio e transgressor. Sua notoriedade culminou com sua primeira retrospectiva na Tate Britain em 1962, quando foi reconhecido como um dos grandes pintores de sua época. As obras desse período abrangem variados temas, como as pinturas de animais, as cabeças e os famosos gritos, as figuras do Papa, entre outras.

Dentre estas obras, destaca-se Study after Velázquez’s Portrait of Pope Innocent X (1953), baseada no retrato Pope Innocent X (1650) de Velázquez, que Bacon só conheceu por fotografias. Ele produziu uma série de Papas obcecados pelo poder que a santidade tinha na época, tendo como base as cores utilizadas por Velázquez. Um fator de importante cunho referencial nessa obra é a boca. Aberta, a boca do Papa baseia-se em um still do grito da enfermeira no filme O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (1925), mostrando também a grande afinidade de Bacon com o cinema, além da fotografia. Outros fatores são a questão espacial e a técnica de pintura. O espaço pictórico é delineado de forma complexa com zonas de confinamento da figura dentro do espaço fictício criado na tela. As pinceladas verticais formam uma “cortina” que se dissolve no chão e gera a sensação de que o Papa está sendo jogado para cima. A obra é concebida de forma que toda a atenção se volte para seu grito. Ainda nos anos 1960, Bacon retorna ao tema dos crucifixos e volta a utilizar cores vibrantes. O tema religioso pode parecer uma escolha curiosa para um ateu, mas engana, como mostra o depoimento do pintor ao crítico Michael Peppiat: “sempre que como um pedaço de carne, penso: é isso aí! Nós vivemos uns dos outros. A assombração da carne morta está presente desde que nascemos, eu nunca consigo olhar um pedaço de carne sem pensar na morte”. Assim, o tema busca lidar mais com a questão do sacrifício animal e da mortalidade, fato sempre presente na vida do pintor.

Na segunda fase da carreira de Bacon, podemos perceber em sua obra a constante presença de amigos e pessoas próximas. É difícil identificar a pessoa retratada, pois, segundo o artista, suas formas são “acidentais e fragmentadas”. Isabel Rawsthorne, amiga, modelo e musa de artistas como Giacometti e Picasso, é uma das retratadas, em obra de 1967. Outro retratado foi seu amante George Dyer, que se suicidou dois dias antes da abertura da exposição do Grand Palais em 1971. Na obra Triptych – In Memory of George Dyer (1971), o artista reproduz o suicídio de Dyer em três telas, como se buscasse, por meio de sua obra, expressar todo seu sentimento de perda e culpa.

A boêmia sempre foi parte da vida de Francis Bacon, incluindo mergulhos intensos no álcool e no jogo, bem como nos relacionamentos amorosos, sempre com finais trágicos. Ao fim de uma vida intensa, nos anos 1980, o falecimento de amigos próximos e a idade levaram o artista a resgatar temas do início de sua carreira e a reinterpretá-los de forma mais suave. Triptych (1991) foi a última obra que Bacon pintou. Nela, ele retorna aos seus anseios sexuais por meio de figuras sensuais, utilizando curiosamente uma foto de Ayrton Senna em uma montagem no canto esquerdo. Bacon faleceu solitário em 1992 em Madri, de ataque cardíaco.

Hoje, sua obra serve de inspiração a diversos artistas contemporâneos. Entre eles, está Damien Hirst, que desistiu de pintar por achar que “todas as suas pinturas eram como uns Bacons mal feitos”. O fator de choque que a obra de Bacon estabeleceu está cada vez mais presente e popular na arte contemporânea, e sua importância é reconhecida pelo mercado: sua obra mais cara vendida em leilão, Triptych (1976), alcançou a soma de US$ 86 milhões em 2008.

Para muitos um artista pessimista, Bacon dizia que “a insignificância da vida o levava a vivê-la ao limite do extraordinário”. Damien Hirst também acredita que as pinturas de Bacon “nos fazem pensar que estamos aqui para nos divertir e não para nos prolongar”. O que Bacon nos quis fazer pensar é mais um enigma a se somar ao seu legado.

Os depoimentos de Bacon foram extraídos dos livros Interviews with Francis Bacon, de David Sylvester (Thames & Hudson, 1987) e Francis Bacon: Studies for a Portrait, de Michel Peppiat (Yale University Press, 2008).

 

 

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