“Eu desejo o seu desejo”

© Cortesia New Musuem

A artista mineira Rivane Neuenschwander, em 2003, cobriu uma das paredes do Palais de Tokyo, em Paris, com coloridas fitas que se movimentavam, cambiantes com o vento. A fixação de um significado, um conceito, uma identificação, paira confusa e resistente, semelhante à junção de dois ímãs da mesma polaridade.

Nas fitas, vemos frases como: “Eu desejo o que está fora de mim”, “I wish you”, “Je desire vivre”. O hábito que se tornara popular, recorrente nas festas religiosas, de amarrar fitinhas no pulso, fazendo pedidos secretos, é agora estimulado por uma artista contemporânea em ambientes bem distantes das quermesses brasileiras. O erudito espaço do cubo branco da galeria hibridiza-se com a reelaborada ideia da religiosidade popular. A barreira do idioma é quebrada. Conforme a instalação é remontada em lugares estrangeiros, a artista recolhe desejos dos espectadores em várias línguas, reimprimindo-os sobre as fitas.

Em vez de inscrições com o nome de santos, como Nosso Senhor do Bonfim, as fitas revelam os secretos pedidos com ares existencialistas, repletos de palavras de ordem: “desejo”, “outro”. Nada tão grave, já que o filósofo Jean Paul Sartre consultara os búzios de Mãe Senhora no candomblé do Opô Afonjá em Salvador na década de 1960. Ao mesmo tempo, a antropofagia proclamada pelo modernismo brasileiro pode ser reapresentada a partir de uma referência ao Manifesto Antropófago: “só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”.1

Ao tratarmos de brasilidade, hoje, devemos nos remeter a estas possibilidades multiculturais. Signos flutuantes em outras línguas, ambicionando outros sistemas de arte, fato já anunciado pelos teóricos do pós-modernismo. Tornaram-se frequentes, em textos que tratam de pós-modernidade ou da cena contemporânea, relatos de cenários culturais, nos quais se apresentam fatos que se vinculam a uma mesma época, mas participam de temporalidades distintas. Em Culturas Híbridas, Canclini lança alguns encontros inusitados, porém possíveis, exemplificando essa pluralidade temporal, como “do artesanato indígena com catálogos de arte de vanguarda sobre a mesa da televisão”.2 Andreas Huyssen, no artigo “Em busca da tradição”,3 inicia sua explanação propondo uma ficção, na qual Walter Benjamim, um dos principais teóricos do modernismo, encontra em Berlim, cidade de sua infância, ou na Paris dos bulevares um “cenário cultural sincrético”.4 Nestas cidades, Benjamim visitaria exposições da vanguarda histórica e de multimídia pós-moderna em museus com edificações antigas. Paulo Sérgio Duarte, ao apresentar seu estudo sobre os anos 1960, também inicia seu texto descrevendo uma galeria imaginária para aquela década, onde poderíamos encontrar um hambúrguer de plástico, Elvis Presley vestido de cawboy, rostos de Jackie Kennedy, luzes de néon, fotografias que mostram um despejo de terra de um caminhão. Misturam-se, nestes anos 1960 de Duarte, obras da pop, da minimal, e da land art.5

Estamos, então, diante da contemporaneidade que congrega ficções, figurativismos, abstracionismos e impossibilita a distinção clássica das categorias artísticas (escultura, pintura, gravura). A isso, Ihab Hassan classificou de “indeterminação”, como um dos pilares do pós-modernismo, no qual ambiguidades, deslocamentos e incertezas “afetam o saber e a sociedade”.6

Pensar em como artistas brasileiros conseguem se tornar fetiches nas exposições e mercados internacionais é perceber que parte da arte contemporânea brasileira se dedica a criar respostas multiculturais a um mundo que se preparou para o hibridismo, aceitando, com curiosidade, uma espécie de nativismo pós-moderno. Sim, continuamos tratando do lugar do fetiche, mas com intensas recodificações. Passadas as certezas formais, as autonomias excludentes, chegou a hora de ver e ouvir o que restou de materialidade para ser reencantada. A brasilidade que percorre a produção atual e acessa facilmente outras esferas, outros sistemas de arte, faz parte de um desejo amplo e profundo de reencantamento de um mundo plural anunciado, para alguns, como epílogos, para outros como vir-a-ser. Por isso, sobre a fita em branco de Rivane Neuenschwander, podemos pedir, em segredo: arte.

Marcelo Campos é crítico de arte, curador e professor do Departamento de Teoria e História da Arte do instituto de Artes da UERJ.

1 ANDRADE, Oswald. Manifesto antropófago. In: ______. Do pau-brasil à antropofagia e às utopias: obras completas de Oswald de Andrade. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1970. p. 13.

2 CANCLINI, N. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EdUSP, 2000. p. 18.

3 HUYSSEN, Andreas. Em busca de la tradición: vanguardia y postmodernismo em los años 70. In: PICÓ, J. (Org.). Modernidad y postmodernidad. Madri: Alianza Editorial, 1998. p. 141-164.

4 Estamos diante daquilo que Barth denomina “cenário cultural sincrético”, já que para o autor a cultura não é um conjunto de referências fixas, e sim uma instância dinâmica resultante de acréscimos diversificados. BARTH, F. A análise da cultura nas sociedades complexas. In: ______. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000. p. 109.

5 DUARTE, Paulo Sérgio. Anos 60: transformações da arte no Brasil. Rio de Janeiro: Campos Gerais, 1998. p. 13.

6 HASSAN, Ihab. El pluralismo en una perspectiva postmoderna. Criterios, 29, I-1991. p. 269.

Compartilhar: