© Foto: Cortesia Museu de Louvre, Paris

DASARTES 03 /

Eternizar a Imagem

Não é de hoje que homens e mulheres desejam ter sua imagem eternizada em uma pintura ou afresco.

Historicamente, o retrato existe desde a Antiguidade como objeto de culto, mas, como arte ou simples objeto de contemplação, ganhou importância principalmente a partir do Renascimento. Com o apoio dos mecenas, pintores e escultores passaram a assumir definitivamente o posto de artistas e não mais de artesãos. É possível conhecer mais dessa história passeando por alguns retratos famosos.

O retrato do mundo antigo

Os egípcios estavam mais interessados na arquitetura e na escultura; em suas pinturas, em especial as que decoravam as tumbas, o desenho tinha precedência sobre a cor. No culto egípcio, a representação por inteiro da figura era feita seguindo a “regra de proporção” – um sistema rígido de padrões que era acompanhado passo-a-passo pelos sacerdotes. Uma prancheta de desenho da XVIII Dinastia mostra o faraó Tutmés III em um quadriculado desse tipo.

Ao contrário dos egípcios, nenhuma pintura da Grécia clássica chegou até nós, apenas alguns poucos fragmentos e vasos. As referências que temos são os afrescos do império greco-romano. O estilo continuou a influenciar fortemente artistas até bem depois do período helenístico. Hoje, acredita-se que a pintura mural conhecida como O Padeiro e sua Mulher, uma obra do século 1º descoberta em Pompeia, retrata não um padeiro, mas um advogado e a esposa. Na verdade, pouco importa, pois arqueólogos nunca conseguiram identificar os moradores da casa.

Outro fantástico retrato duplo, que não poderíamos deixar de citar, é o do grande Jan Van Eyck, considerado pai da escola flamenga de pintura. Muito mais que uma simples representação pictórica, o retrato do Casamento dos Arnolfini (1434) é uma certidão de casamento entre o próspero banqueiro italiano Giovanni de Arrigo Arnolfini e sua noiva. É também cheio de simbolismos, como um rosário de cristal (típico presente de casamento de um futuro marido para a noiva), sapatos postos de lado (um sinal de que uma cerimônia religiosa estava ocorrendo) e finalmente a presença do pintor como testemunha ao fundo do quadro no reflexo do espelho. Van Eyck, nessa obra, demonstra sua extraordinária perícia como pintor, com total domínio das mais recentes técnicas de pintura a óleo, que o fizeram famoso por toda a Europa.

Sorriso materno

Ainda no período renascentista, Leonardo da Vinci, mestre artista engenheiro da corte do poderoso Duque Ludovico Sforza, de Milão, dedicava algum tempo aos retratos. Pintou a amante do Duque, Cecília Gallerani, e também é o autor do polêmico retrato de Lisa Gherardini, mais comumente chamada de Mona Lisa (1503-1506).

Lisa Gherardini era a terceira esposa de Francesco de Giocondo, rico mercador de Florença, que encomendou o retrato da esposa logo após o nascimento de seu primeiro filho (mais tarde seria mãe de mais quatro). Após vários dias posando no estúdio de Da Vinci, o retrato, mesmo concluído, nunca foi entregue, estando ao lado do artista até o momento de sua morte no Castelo de Cloux, em Amboise, França, sua última moradia.

Não é de se espantar que, a partir de então, grandes artistas da pintura façam da tela uma arena para a luta entre a sua imagem (ou eu exterior) e o seu eu interior. Rembrandt, o grande pintor do período barroco holandês do século 17, retratou-se em mais de sessenta telas. Seria a maior obsessão do tema já vista na história da arte, não fosse superado séculos depois por Egon Schiele, pintor expressionista austríaco, que produziu 250 autorretratos! No mesmo estilo de “autorretrato como função de autoanálise”, o holandês Vincent Van Gogh não deixou por menos, e tempos depois entrou para a história como o pintor de “temperamento difícil”, que se retratou com uma orelha mutilada.

Voltando ao período barroco, o espanhol Diego Velázquez fez rapidamente sua reputação em Sevilha com obras como Adoração dos Magos (1616). Em 1623, visitou Madri, incumbido de pintar um retrato do novo rei, Felipe IV, que fora coroado no ano anterior. O artista obteve tanto sucesso que o convidaram para assumir um dos cargos de pintor da corte. Além disso, o rei decidiu que, dali em diante, ninguém, com exceção de Velázquez, faria seus retratos. Aos 24 anos, ele se tornou o pintor de maior prestígio na Espanha. Pintou inúmeros retratos do rei e da família real. Realizou duas viagens à Itália, conheceu pintores famosos como Peter Paul Rubens e foi nomeado para cargos de destaque na corte espanhola.

Séculos mais tarde, outros artistas entrariam no podium, entre eles Édouard Manet, que, apesar de apresentar uma pintura “moderna”, tinha fortes laços com o passado, em especial com Velázquez. Manet tinha grande interesse por naturezas-mortas, mas a figura humana permanecia crucial para sua obra. Victorine Meurent, uma jovem bela e despreocupada, foi por mais de dez anos sua modelo favorita.

O prazer na dor

O mundo nunca mais voltou a ser o mesmo depois do cubismo, um dos movimentos mais influentes e revolucionários da história artística. O espanhol Pablo Ruiz Picasso não apenas retratou, mas desconstruiu a imagem do retratado.

Seu método artístico tinha forte influência da distorção das máscaras africanas e, sendo um pintor ainda mais autobiográfico que Rembrandt ou Van Gogh, as mulheres de sua vida proviam um drama mutável: cada nova relação desencadeava nova onda de criatividade, com um novo modelo e uma nova visão.

A amante que lhe inspirou a arte mais suave foi Marie-Thérèse Walter, uma moça corpulenta de formas arredondadas, com as quais ele adorava brincar na tela. Em a Mulher Nua numa Cadeira Vermelha (1932), vemos, quiçá pela última vez, um Picasso tranquilo. Todas as pinturas de Marie-Thérèse (antes de o romance começar a ruir) são graciosas, vivas e provocantes.

O retrato da intelectual e obstinada Dora Maar, A Mulher que Chora (1937), tem uma força terrível. As lágrimas da mulher foram certamente causadas pelo artista e demonstram uma angustiada necessidade de respeito; ressaltam a crueldade de Picasso e sua determinação de não deixar-se intimidar.

Se reconhecermos que beleza e poder se relacionam, artistas como Picasso, Rembrandt e Van Gogh estão em uma escala de poder. Por sua vez, Manet, Degas e até mesmo Velázquez, com seu estilo “realista”, estão na extremidade da beleza de retratar.

Marilyn, o mito

Como se vê, o retrato está em nos principais movimentos e períodos da história da arte. No século passado, o criador da pop art, Andy Warhol, retratou todos os ícones da cultura pop dos anos 1960 a 1980, tornando-se insuperável pela quantidade de retratos que realizou. Nem nosso Pelé, o rei do futebol, escapou da adorada tinta acrílica do silk de Warhol.

Seus retratos Marilyn (Monroe) e Liz (Elizabeth Taylor) foram carros-chefe para todos os que se seguiram até o dia da sua morte. Marilyn, em seu estilo cambiante com cores sobrepostas, estava em exposição quando a atriz foi encontrada morta em sua casa. A imprensa usou e abusou da Marilyn de Warhol, tornando o retrato um cult, com reproduções em pôster, cadernos, lancheiras e tudo mais que se possa imaginar, cristalizando assim a imagem do mito.

Warhol mantinha uma contínua produção de retratos, que, segundo ele em seu diário (Os Diários de Warhol, publicado logo após a sua morte), era fonte segura para a manutenção de sua Factory e, mais tarde, nas décadas de 1970 e 1980, de seu escritório, quando os novos-ricos de Nova Iorque decoravam o hall de entrada de apartamentos desembolsando o equivalente a US$ 25 mil por um retrato feito por Warhol.

Atualmente, a exposição O Grande Mundo de Andy Warhol (Le Grand Monde d’Andy Warhol) está em cartaz no Grand Palais, em Paris, de 18 de março a 13 de julho,e faz uma extensa retrospectiva das obras do mestre pop.

Seja como for, o retrato nunca abandonou a cena, ou, em uma perspectiva mais acadêmica ou em uma linguagem contemporânea, hoje atrai a atenção da ala mais jovem, acostumada com imagens virtuais ou digitalizadas por câmaras.

Demitida pela fotografia!

No Brasil, são ricos os exemplos da importância do retrato. Um deles é a coleção de Carmen Mayrink Veiga, que já conta com um total de oito, sendo um assinado pelo mestre Portinari. Para os teóricos que gritam que a função da arte não é a de retratar (pois já teria sido demitida pela fotografia!), a pintura teve que se modernizar, acompanhar os novos tempos. Mas o retrato está na história e não há tecnologia que tire seu posto.

Um artista que utiliza a fotografia como registro de sua obra, pela perecibilidade de suas montagens, é Vik Muniz, artista visual brasileiro residente nos Estados Unidos que usa todo tipo de lixo produzido pela contemporaneidade para celebrar a arte e homenagear os grandes mestres da pintura, reproduzindo-os com o que não queremos mais. Também ele se autorretratou diversas vezes. Ou seja, na pintura ou no lixo, o retrato não sai de cena… E com certeza vai além de uma simples imagem!

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