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DASARTES 30 /

Entrevista – Solange Farkas

O Videobrasil celebra 30 anos de como um dos grandes festivais internacionais da arte eletrônica. Quem sopra as velas é a sua curadora e mentora desta sucedida evolução.

“Com a assimilação do vídeo pela produção artística nacional, o sistema se redesenhou, borrando as fronteiras entre linguagens e suportes.”

Sabemos que o vídeo, no Brasil, enfrentou, historicamente, certas dificuldades, tanto para se definir como possível mídia, dentre outras mais categóricas, como a pintura e a escultura, quanto para ganhar uma notoriedade de mercado, figurando em coleções importantes. Hoje, você acredita que esta cena mudou? De que maneira?
Como mostram todas as maiores bienais e grandes mostras pelo mundo, o vídeo se situa lado a lado com esses outros suportes que você menciona. É claro que, como todo suporte, tem suas especificidades, como o tempo que o vídeo naturalmente demanda do público para sua fruição, além do modo como nosso olhar para o vídeo tem quase sempre uma grande contaminação advinda do cinema, da televisão, da publicidade e, agora, da internet. Essas especificidades, porém, podem até ressaltar sua atualidade. No Brasil, existem peculiaridades históricas na relação entre a imagem em movimento e o circuito das artes plásticas: com o surgimento do vídeo nos anos 1960 e sua assimilação pela produção artística nacional, no início dos anos 1980, o sistema artístico se redesenhou, culminando nas práticas contemporâneas que borraram as fronteiras entre linguagens e suportes para manifestações artísticas. Esse cenário fez com que, em diversos momentos dessa história, redesenhássemos o Festival Videobrasil, por exemplo, tornando-o, desde 2011, um festival voltado para a arte contemporânea em sentido amplo.

Outra importante configuração do uso do vídeo como meio de expor ideias, pensamento, é o que hoje se agrega às mais variadas expressões artísticas. Hoje, vemos os termos “videodança”, “videoescultura”. Há diferença entre vídeo e vídeodança, por exemplo, ou são apenas jogos de linguagem para tratar do que não se pode definir separadamente, a arte?
Como mencionei, há especificidades do vídeo como suporte e como linguagem. Isso, de certa forma, já bastaria para considerar que trabalhos feitos em vídeo são basicamente ou vídeos ou vídeo-instalações. Mas simplesmente ignorar outras nuances – videodança, videoescultura… – não é justo para com a voz dos artistas. A definição de modalidades de arte é algo com que nós, curadores, lidamos a todo momento, e nós, curadores do Videobrasil, com especial frequência e riqueza, já que recebemos projetos de artistas de todo o mundo em nossas convocatórias. Em muitos trabalhos é difícil identificar rapidamente os limites entre videoarte e outra designação que se atribua, por exemplo, videodança. No entanto, a voz do artista é ponderada com o olhar curatorial e crítico para compreender o quanto e quando essas distinções são necessárias, ou então quando elas apenas complicam a obra além da conta, ou mesmo diminuem suas possibilidades de entendimento. Quando comentou a relação dos videoartistas com a televisão, Walter Zanini disse algo que acho que se aplica aqui também: a experiência plástica do artista será sempre o suporte último. Aliás, o próprio título desse texto de Zanini já nos dá uma resposta à sua questão: “Videoarte: uma poética aberta”. Em resumo: as hibridizações do vídeo fazem parte de sua própria natureza; incorporar essas hibridizações ao modo como nos referimos a essa ou aquela produção depende do quanto essa incorporação é consistente e rica de sentidos. Ora cabe, ora é simplesmente dispensável.

Na definição das ações do Videobrasil, o termo “circuito geopolítico Sul” aparece. Explique um pouco essa abordagem.
Como mencionei anteriormente, o Videobrasil tem uma preocupação real com o estímulo à produção artística em áreas específicas. Isso se tornou especialmente evidente a partir do 14.º Festival, quando as reflexões que se sucederam aos atentados de 11 de setembro e à agressividade do governo Bush nas questões do Oriente Médio nos levaram a convidar dois libaneses – a curadora Christine Tohme e o artista Akram Zaatari – para desenvolverem uma exposição. Paralelamente, houve também minhas viagens de pesquisa pelo Oriente Médio e outras investigações curatoriais que confluíram para projetos que desenvolvemos, como as mostras Africana e Pan-africana de Arte Contemporânea. Mais recentemente, o Videobrasil tem atentado às ideias de pensadores como Edouard Glissand e Edgar Morin, que propõem, respectivamente, repensar as dinâmicas de embate e assimilação cultural e compreender como a nova realidade mundial reposicionou os polos de emanação de paradigmas para a sociedade. Acreditamos, sinceramente, que esse chamado Sul não só – como atesta o próprio sistema das artes e seus grandes eventos internacionais – é celeiro de grandes artistas e importantes produções, mas também oferece matéria para se pensar a arte, a cultura, a sociedade e a política de uma nova maneira, talvez muito mais adequada à complexidade dos novos panoramas.

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