DASARTES 31 /

Entrevista com Will Gompertz

Editor de artes da BBC, Will Gompertz lançou o livro Isso é arte?, um guia irreverente para começar a entender sobre os arcantes nos últimos 150 anos de história da arte.

Você já afirmou que as pessoas são ensinadas a se sentirem intimidadas por arte, e defende uma forma simples de explicar sobre ela. Como isso poderia ser feito?

Há uma tendência no mundo da arte e entre os acadêmicos, de falarem sobre arte de forma rebuscada e arcaica. Na maioria das vezes em que isso acontece é porque não direcionam os pensamentos e comentários para o leitor comum, mas para um especialista. O problema é que os acadêmicos não mudam o estilo de escrever textos para exposições e catálogos, por exemplo. O resultado é que nós ficamos confusos e desestimulados em entender sobre o assunto. É por esse motivo que resolvi escrever o livro, para reagir a essa linguagem rebuscada comum no mundo da arte, e falar de forma mais clara e direta ao público.

O primeiro capítulo de seu novo livro é sobre o mictório de Marcel Duchamp e seu impacto na história da arte. A partir da ideia de Duchamp, o artista deveria “ditar” o que é arte (e não o meio ou os curadores). Teria como comentar sobre isso?

Não há dúvida de que o mictório criado por Duchamp mudou a história da arte. Não apenas porque mudou a maneira de enxergar a prática artística, elevando a importância de uma “ideia” sobre o “modo de fazer”. Duchamp desafiou várias “pré-concepções” sobre arte, causando um impacto que reverbera até hoje. Ele escolheu um urinol porque, nas palavras dele, aquilo era um objeto “antirretina”’, ou desagradável aos olhos. Ele pretendia questionar a afirmação de que toda arte deveria ser bela. Para ele, o mictório era um objeto pronto, mas também uma escultura, dentro do novo conceito de obra de arte criado por ele. Mais uma vez, Duchamp questionava a “sabedoria nata” de que os artistas seriam uma espécie superior. Ele achava que essa reverência não fazia sentido e, por isso, apresentou um trabalho que nunca havia sido tocado pelas mãos de um artista. Duchamp foi um artista brilhante e corajoso, mas não foi o primeiro a ter essas ideias. O crédito da mudança fundamental na história da arte também deve ser dado a Picasso e Braque, que inventaram o Papier Collier, em 1912, onde incluíram a ideia de produtos de massa, como o papel de parede, nos próprios trabalhos. Ao fazerem isso, transformaram um objeto comum, corriqueiro, em um trabalho único e de grande valor.

Como podemos definir o que é arte boa ou ruim?

Eu propositadamente não pretendo definir no meu livro o que é arte boa ou ruim. Fazer isso é ser simplista e condescendente. Não pretendo dizer às pessoas o que elas devem ou não gostar – até porque não podemos definir se uma arte é boa ou ruim, apenas se ela nos toca ou não. Minha intenção no livro é explicar a linguagem da arte e algumas regras, mas cabe ao leitor decidir do que gosta. Minha sugestão é sempre dar uma chance a um novo trabalho artístico, e entender que, mesmo a arte mais básica, também tenta comunicar algo a alguém. Nosso papel, como apreciadores de arte, é tentar entender a mensagem dessas novas obras.

Se tivéssemos que definir um movimento artístico para a arte contemporânea hoje, qual seria?

Acho que o movimento artístico dos últimos 20 anos poderia ser o do “empreendedorismo”. Hoje se vê arte como uma mercadoria, e os artistas, como marcas. Isso é um reflexo da nossa época e dos artistas contemporâneos. Como alguém muito sábio já disse: “cada geração tem os artistas que ela merece”.

Nos últimos anos, os preços no mercado de arte subiram de forma enlouquecedora. No Brasil, há poucos anos, alguns artistas vivos começaram a vender obras por milhões de dólares. Como você enxerga esse cenário para os próximos anos?

Acredito que o valor do trabalho de alguns artistas vai continuar a subir. Uma obra de arte é o produto perfeito para a economia capitalista, está baseada no princípio de oferta e demanda. Ao mesmo tempo, uma obra de arte é um objeto único, ou seja, se mais de uma pessoa quiser, o preço vai, inevitavelmente, subir. Hoje há mais colecionadores de mais países do que jamais houve, e, ao mesmo tempo, não há tanta arte de qualidade para ver. Os preços vão continuar subindo nas obras mais conceituadas, mas outras menos conhecidas vão sofrer.

Depois de visitar o Brasil e participar da feira de arte (Art Rio), quais foram suas impressões sobre como os brasileiros lidam com o assunto da arte?

Fiquei impressionado com o tamanho, a profundidade e a energia do cenário artístico brasileiro. Sou fã de alguns artistas há algum tempo, como o Hélio Oiticica, o Cildo Meireles e a Beatriz Milhazes, mas encontrei muitos trabalhos bacanas de artistas que nunca tinha ouvido falar. Honestamente, acho que o Brasil é um dos lugares mais interessantes do mundo para a arte. Se eu pudesse viver em outro lugar nos próximos anos, escolheria o Rio de Janeiro, sem dúvida.

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