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DASARTES 36 /

Entrevista com Giovanni Gasparini

Como diretor do programa de mestrado em arte e negócios da Christie’s, Giovanni Gasparini esteve no Rio de Janeiro para uma palestra sobre o valor e o preço da arte.

Por Liege Gonzalez Jung

Como diretor do programa de mestrado em arte e negócios da Christie’s, Giovanni Gasparini esteve no Rio de Janeiro para uma palestra sobre o valor e o preço da arte. Em uma época em que a arte atrai cada vez mais investidores, o professor explica porque não é possível ver uma obra de arte como ativo financeiro.

Como se forma o preço de uma obra de arte?

A primeira coisa que tem que se saber sobre o preço é que ele só existe em um momento e circunstância específica. Nos leilões, duas fotografias da mesma edição, no mesmo estado de conservação, à venda na mesma data e cidade por casas diferentes podem alcançar preços totalmente distintos. Isso pode depender de coisas aleatórias, como quem recebeu o catálogo de cada leilão. No mercado primário, uma galeria pode reduzir o preço para posicionar a obra em uma determinada coleção ou aumentá-lo para valorizar o artista e, no secundário, onde não há uma tabela, cada negociação é determinada por vários fatores, muitos dos quais não têm a ver com a obra de arte em si. Se estou em uma sala com 50 pessoas e pergunto a cada uma delas quanto elas pagariam por uma obra de arte, provavelmente terei 50 preços diferentes.

Sua palestra na Casa do Saber (em setembro, no Rio de Janeiro) fala do valor e do preço da arte como fatores separados. Qual a relação entre valor e preço na arte?

Considero que o valor de uma obra de arte é definido por suas próprias características, como autor, data, qualidade estética, tamanho, conservação, procedência, etc. Para determinar um valor em moeda para uma obra, considera-se o contexto, por exemplo, a situação atual da economia e do momento da venda. Aquilo que influi no preço, mas não é uma característica da obra, não é valor. No mundo dos leilões, as estimativas de preço geralmente são baseadas em valor, mas mesmo estas incluem muitos fatores subjetivos, difíceis de estimar. Nos anos 1960, a seguradora do Louvre estimou a Monalisa em US$ 600 milhões. Esse é o preço da obra? Não, ela não está à venda; uma pessoa que tivesse esse dinheiro não poderia comprá-la e só faz sentido falar em preço no contexto de uma transação comercial. A Monalisa não tem preço. No final, o seguro seria tão caro que o Louvre preferiu investir em segurança, também porque, se fosse novamente roubada, não poderia ser substituída.

Em tempos de incerteza econômica, a arte é vista como um investimento seguro, com rendimento frequentemente maior que o dos mercados financeiros. Isso é um fator de atração para seu curso?

Paixão por arte é essencial para atuar com sucesso no mercado de arte. Se seu objetivo é apenas ganhar dinheiro, há maneiras mais rápidas e eficientes. A arte de qualidade certificada pode ser um ativo seguro como depósito de valor no longo prazo, mas especular em obras de arte não é simples e o retorno pode ser desastroso. Um bom exemplo são os fundos de arte: os compradores do mais antigo e bem sucedido, o Fine Art Fund de Londres, são pessoas do mercado de arte e não de finanças. Na China, houve uma febre de fundos de investimento em arte nos últimos cinco anos e a maioria deles quebrou recentemente, muitos por tomarem suas decisões de compras baseados em números, considerando apenas a evolução de preços de obras dos artistas. Mas cada obra tem sua história que é única. Se temos duas telas do mesmo artista, do mesmo ano e do mesmo tamanho, uma pode ser boa e uma pode ser ruim, e só alguém envolvido com arte sabe a diferença. Com certeza, muita gente é atraída pela velocidade com que algumas obras se valorizam e querem operar no mercado baseado na “teoria do mais tolo”: não compram porque acham que vale o preço, mas porque acreditam que conseguirão vender por mais a outra pessoa – o tolo maior – no futuro. Essas pessoas geralmente perdem dinheiro.

Apenas recentemente o Brasil tem se inserido no mercado internacional, comprando artistas estrangeiros e com nossos artistas valorizados em um contexto mundial. Essa é uma tendência para outros países?

Existe um componente de uma obra de arte que é essencialmente cultural, quase como uma linguagem ou idioma. Portanto, é natural que essa obra seja mais apreciada por quem entende essa cultura, essa língua. Isso é menos presente na arte recente, mas ainda existe. Na Itália, meu país de origem, há um mercado nacional para artistas que não são conhecidos em Londres, a poucos quilômetros de distância, e um grupo seleto de artistas que é reconhecido e negociado no mundo todo. Ser um desses artistas não depende apenas de produzir uma arte não regional, mas também de ser representado por uma galeria que participa de feiras internacionais e até mesmo de sorte. A internet e as feiras criaram um ambiente favorável para que um colecionador conheça e compre arte estrangeira, mas acredito que sempre haverá um mercado interno para cada país, pois a arte é uma língua.

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