Entrevista com artista Rodrigo Braga

© Rodrigo Braga

Rodrigo Braga
Entrevista para o site Dasartes – Novembro de 2014

ET: Vamos começar com você nos falando sobre a individual que está acontecendo no SESC Belenzinho em São Paulo até 30 de novembro?

RB: O galpão onde está montada é bem grande, mede 600m2, e a exposição conta com trinta fotografias que ficam orbitando as paredes, e três vídeos distribuídos em módulos. Tem uma área que estamos chamando de Gabinete, que é onde ficam os vários objetos coletados nas experiências e os documentos mostrando os processos. Reuni esse material ao longo de cinco anos entre Pernambuco, a região da Amazônia e Rio de Janeiro, que foram os lugares onde vivi. Nesse Gabinete, há um grande painel na parede medindo doze metros onde foram colocadas várias fotografias de diferentes formatos mostrando os meus percursos. São fotografias que nunca pensei em expor, mas o curador Daniel Rangel resolveu usar para enfatizar o processo, e eu aproveitei para fazer umas experiências instalativas com elas saindo das paredes, coisas que não costumo fazer. Faço, sim, muitas experiências matéricas, criar, juntar, montar quase esculturas em campo, mas acabei trazendo agora para o espaço expositivo. Além disso, no Gabinete há uma mesa onde colocamos os croquis e rabiscos dos projetos que vou criando ao longo das passagens, pois normalmente não vou para os lugares com as coisas definidas – elas vão se dando, vão se mostrando.
Há nos trabalhos um certo jogo formal, mimético, sobretudo essa relação entre folha e peixe e eu as coloco como um grande cardume na parede de sete metros. Há também um grande tronco feito de cascas [de árvore] e oco por dentro. Tenho andado bastante pela Floresta da Tijuca e, nessas andanças, após uma forte chuva qua caiu em janeiro deste ano, quando caíram muitas árvores tanto na cidade quanto na mata, me deparei com uma que deixou as cascas de mais dois metros pelo chão. As recolhi com assistentes, levamos para São Paulo e lá construímos esse tronco a partir das cascas. Dentro desse caule atravessei uma viga quadrada de madeira, ou seja, processada, tratada pelo homem. É como se fosse o miolo por subtração.

ET: Quer dizer que nessa exposição, além das fotografias e vídeos, você se aventurou pela experiência tridimensional na galeria?

RB: Sim, e isso foi algo totalmente novo, mas como eu disse antes, minhas imagens também são construídas – daí o nome da exposição [Agricultura da imagem], que aborda essa questão do cultivo da cena.

ET: Como é a escolha dos lugares onde você “cultiva as imagens” e o processo neles?

RB: O que me interessa observar nesses lugares é a interação do homem com a natureza, e aqui no Rio isso se dá de modo muito peculiar. O que ocorre aqui é um pouco diferente do que acontece quando vou para a Amazônia ou me isolo no litoral. Tudo aqui é tão próximo que posso tomar um ônibus na frente do ateliê e em 45 minutos estou adentrando a Floresta da Tijuca, e isso me faz voltar. Nunca invisto a semana inteira pois a facilidade de ir e vir é tão grande que acabo voltando, então minhas construções lá foram um pouco mais lentas. Vou em um dia e começo a desenhar, observo, fotografo, marco no mapa onde estão as coisas, e aí semanas, meses e até anos depois é que retorno para fazer alguma coisa.

ET: Algumas imagens demandam uma preparação bem elaborada. Você sempre conta com assistentes, mesmo nessas passagens por lugares onde você se isola?

RB: Normalmente, conto com a ajuda de pessoas muito próximas – um amigo ou parente; outras vezes só conto com tripé e controle remoto mesmo, até quando parece que não é, é. A série Desejo Eremita, que fiz no sertão de Pernambuco, fiz quase toda com tripé e controle remoto. Na que estou na água, mergulhei o braço até o punho e mantive o controle remoto na mão. É um processo bem individual. Quando há alguém comigo, eu instruo, digo o que quero, às vezes faço croquis…

ET: De um modo geral, como é a negociação com relação ao material que você costuma usar na produção de suas imagens, sobretudo levando em conta os lugares longínquos que você explora?

RB: Ando muito por zonas rurais, pelo interior, e a coisa lá é muito diferente da relação que a gente tem nas grandes cidades, mesmo em Recife. Não é difícil. Consigo muita coisa em feiras livres e mercados, mas também vou a abatedouros. No caso do cachorro [referindo-se ao trabalho Fantasia de compensação de 2004], consegui com autorização do Centro de Vigilância Ambiental.

ET: Aliás, esse trabalho é um caso bem especial na sua trajetória, certo?

RB: Sim, tenho uma questão muito pessoal com esse trabalho, meio autobiográfica. Acabou sendo muito maior do que eu previa e continua sendo meu trabalho mais importante. Ele me situou no que é o fazer artístico, o que eu quero com isso, me fez descobrir o que é realmente ser artista. Antes dele eu já produzia e expunha desde 1999, mas ele me situou nisso e também no que veio a ser o meu trabalho enquanto linguagem, a relação com a fotografia, com a performance, com a ação corporal, com meu corpo no trabalho. Isso perdurou, mas agora o corpo não aparece tanto, não está em nenhuma das fotografias da atual exposição.

ET: Sim, parece-me que em várias imagens a fotografia está, digamos, mais autônoma e menos registro de ação performática.

RB: É, acho que fico entre, pois mesmo meu registro performático é muito estético, e acho que isso vem da minha formação em pintura e desenho. Não à toa o Daniel Rangel resolveu trazer meus desenhos, até os que fiz na infância, para a exposição. Há uma relação entre o que faço hoje e o que eu fazia já naquela época. Há, por exemplo, o homem-lagarto que fiz quando tinha 11 anos, e se você pensar no “homem-cachorro”… Há também os desenhos que fiz para os folders de ONGs ambientalistas. Meus pais são biólogos, então eu saía para as visitas de campo com meu pai, íamos para os manguezais e sentia vontade de desenhar uma árvore de mangue. Eu começava a desenhar in loco, meu pai fotografava comigo e depois eu finalizava a partir da fotografia.

ET: Com relação às suas ações performáticas, a gente percebe que você se expõe a uma série de procedimentos e mesmo materiais que podem trazer risco à sua saúde. Como é o seu preparo para isso?

RB: Por causa dessa formação familiar que falei, eu tenho muita intimidade com esse material. Ao mesmo passo que meu pai coletava material nas visitas de campo e trazia para o laboratório ou para casa, eu também trazia o que, brincando, coletava. Eu também dissecava. Meu pai me dava pinça, microscópio, frasquinhos… estimulava o pequeno cientista. Não virei cientista, mas isso sempre foi matéria para mim. Para além dessa intimidade, eu tenho gosto, tenho apreço, tenho interesse, curiosidade, então quando eu manipulo a matéria em si, estou fazendo uma coisa que sempre fiz e faço com naturalidade. Até me assustaram quando vieram as primeiras reverberações negativas sobre o trabalho. Claro que, sobretudo em relação ao cachorro, eu sabia do potencial de polêmica, sabia que eu estava mexendo com um animal que não é qualquer animal – é um animal doméstico, é diferente de mexer com uma galinha ou com um boi. Um cachorro é um animal pelo qual as pessoas nutrem afetividade. Não deveria ser diferente, mas é. Mas não tive qualquer intenção aparecer com isso. Eu não era ingênuo e sabia que isso poderia me causar certos problemas, mas não previ a dimensão que, de fato, foi muito maior do que imaginava. Recebi ameaças de morte por telefone, 40 e-mails por dia de gente dizendo que iria me matar em vários idiomas, imprensa querendo falar bobagem, tive que procurar advogado, psicólogo, enfim, foi muita pressão. Penso que ajo dentro da liberdade artística e não quero me privar a priori da experiência que é como entendo a arte. E no caso desse trabalho, o título – Fantasia de compensação – já traz a indicação de que nem tudo é verdade. Ele tem um misto de realidade e ficção. Houve a matéria, o cachorro, a cirurgia de fato aconteceu, foi feita por um veterinário e durou seis horas, mas não foi feito na minha cabeça. Fiz um molde da minha cabeça em gesso e silicone e o veterinário trabalhou nele.

ET: E você auxiliou o veterinário na dissecação?

RB: Sim, auxiliei na dissecação e fotografei. O veterinário tinha um assistente. Depois de seis horas chegamos ao resultado que é aquela imagem. Mas eu não queria só a cena final, queria o processo, porque a minha ideia era mexer com a realidade e a ficção, com a expectativa que se tem com a imagem fotográfica. Fiz esse trabalho dentro de uma bolsa que ganhei no Salão Pernambucano de Arte Plásticas em 2003, e o título do projeto era “A manipulação digital da fotografia como meio de expressão artística”, ou seja, parti do pressuposto da linguagem técnica, depois é que veio a história do cachorro. Então há imagens manipuladas e outras não. Não dá pra saber o que é verdade ou não e essa era a intenção. Naquele momento, as câmeras fotográficas digitais entraram mais fortemente no comércio, os profissionais estavam começando a usá-las e a arte também, o Photoshop também estava avançando, então era uma discussão bem da época no mundo inteiro. No Brasil, entretanto, não se fazia manipulação desse tipo. As manipulações eram muito pictóricas, simulando distorções surrealistas, colagens, e dava pra ver que era manipulado. Eu queria manipular o índice fotográfico de uma maneira sutil. Não deixa de ser uma montagem, uma colagem. Depois disso não trabalhei mais com o Photoshop.

ET: O que há em vista para depois dessa exposição no SESC Belenzinho?

RB: Fui convidado para uma residência de um mês no Palais de Tokyo em Paris com exposição individual prevista para junho. Há também um projeto para a Casa França-Brasil. Fui convidado para fazer uma individual lá em abril do ano que vem. Vou levar duas palmeiras-imperiais lá pra dentro.

ET: Uau! Ocupar aquele espaço é mesmo um desafio! E de onde você vai tirar as palmeiras, como vai ser isso?

RB: No Jardim Botânico do Rio há duas atualmente já bem velhas com a copa caindo. A produção vai ser complexa. Vamos ter que guinchar, colocar num caminhão grande e guardar em um depósito enquanto a exposição não abre.

ET: A gente percebe um esgarçamento das fronteiras na sua fotografia, que, afinal, não é apenas fotografia, mas Land Art, Body Art, escultura, performance. É interessante que isso agora esteja migrando para o espaço da galeria.

RB: Sim, estou vendo isso agora. Mas acho que os processos vão coexistir, não acho que isso vá mudar tão rápido.

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