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Um dos responsáveis por reestruturar a Fundação Bienal de São Paulo, Heitor Martins assume a presidência do MASP em um momento de crise financeira e tem o desafio de adequar o museu aos tempos atuais.

Sendo o museu mais visitado do país e com um dos ingressos mais caros, por que acha que o MASP chegou à atual situação?

O museu tem quase 70 anos, foi fundado por um mecenas, o Chateaubriand, que o liderou por bastante tempo. Muitas instituições que começam com um mecenas são bem sucedidas e estabelecem uma cultura e um posicionamento forte, começam a apresentar certa dificuldade de se adaptar à mudança dos tempos. Acho que é um pouco do que vemos no MASP: um processo lento de transição de um modelo muito personalista para um modelo realmente institucional. A gente viu isso na bienal também. Instituições que nem sempre estão em sintonia com a necessidade de cada momento. Acho que, nos últimos anos, o MASP perdeu um pouco o compasso com as demandas de hoje, e estamos readequando as governanças, as estruturas do museu e a forma de ele se relacionar com a sociedade atual.

Quais os termos da atual gestão e as consequências dessa nova forma de administrar?

O que houve em um primeiro momento foi uma profunda reformulação no modelo de governança, fortalecendo o conselho de administração, que passa a incluir 80 membros em adição aos três membros natos (os secretários de cultura do Estado e do município e o presidente do IBRAM), e passa a ser contributivo, tendo as pessoas que colaborar financeiramente para o museu. Houve também uma importante renovação da liderança: além da nova diretoria, o conselho tem quase 70 membros novos, fazendo com que o museu se abra para a sociedade, com pessoas e ideias novas. Criamos ainda três diretores executivos: o diretor artístico, cargo assumido por Adriano Pedrosa; uma diretoria administrativo-financeira, assumida por Miguel Gutierrez, diretor financeiro da Pinacoteca nos últimos dez anos; e uma diretoria de operações e fomento, para a qual trouxemos o Lucas Pessoa, que vai cuidar de processos, captação, comunicação digital, etc. Tudo isso está promovendo uma grande mudança.

Qual o primeiro foco da nova gestão?

Assegurar a estabilidade financeira. Tivemos um esforço grande de arrecadação e terminaremos o ano sem dívidas, mas precisamos buscar parceiros corporativos e trabalhar programas de patrocínio para assegurar um fluxo de recursos estável e adequado às atividades do museu.

Quais os planos culturais, projetos de exposições e atividades na vida da cidade e do país?

A grande força do MASP está em seu acervo, que talvez seja o mais importante em arte europeia fora da Europa e dos Estados Unidos. É o maior da América Latina, com quase oito mil obras. É um acervo valioso com obras de muitíssima qualidade, incluindo nomes como van Gogh, Monet, Cézanne, Rembrandt, Goya, Velázquez, Boticcelli, entre outros. Temos também uma vasta coleção de fotografias, arte africana, uma pequena coleção de moda e o comodato de uma coleção de arte asiática. É um acervo muito vasto e pouco conhecido, muitas obras não foram vistas ou devidamente exploradas. A ideia é construir a programação a partir desse acervo, mas com um olhar contemporâneo, porque a gente vive no momento do hoje, não no passado.

Em princípio, sem expansão do acervo?

Com expansão. A gente tem um processo de expansão desse acervo, que passa por uma política de doações e aquisições de obras. Nossa programação tem que ser feita pela exploração desse acervo e seu diálogo com outros acervos e a contemporaneidade. Isso vai ditar nosso eixo curatorial. Acreditamos que o que dá vida de fato a um museu é seu projeto curatorial e precisamos ter uma equipe para apoiar a instituição. Por isso escolhemos o Adriano Pedrosa, que tem uma carreira muito rica, uma produção internacional grande e é muito respeitado. Sob sua liderança, construiremos uma equipe curatorial forte. Teremos curadores adjuntos, curadores assistentes, pesquisadores, arquitetos e designers para criar um núcleo robusto de reflexão sobre a coleção, as artes e a concepção de exposições. Queremos assegurar a inteligência e a capacidade de criação do museu. Tipicamente, os museus – não só no Brasil, mas no mundo – se preocupam muito com a infraestrutura e investem pouco em curadoria. Há muitos museus com prédios belíssimos e grande acervo, mas sem curador, dependendo da contratação de profissionais para suas mostras.

O próprio prédio do MASP é um marco arquitetônico.

Sem dúvida, é um grande símbolo da cidade, a obra-prima da Lina bo Bardi. Se, quando você quer retratar o Rio de Janeiro, coloca o pão de açúcar; para retratar São Paulo, mostra o MASP. E o prédio é parte dessa memória da Lina, que tinha uma visão muito transversal da arte. O MASP nos anos 1960 e 1970 tinha uma horizontalidade muito maior do que tem hoje, com performances, concertos, mostra de cinema, exposições sobre a metrópole, arte popular, moda. Essas transversalidades e multimodalidades são aspectos algo que pretendemos resgatar.

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