DASARTES 23 /

Entre intelectualização e academicismo

Cursos de pós-graduação de artistas estão no centro da polêmica.

Em recente debate no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o crítico e professor Agnaldo Farias questionou a validade de os artistas cursarem pós-graduções. Desafio que, sem dúvida, surpreende ao suspender a naturalidade, ou melhor, a suposta necessidade inelutável da formação atual em pós-graduação dos artistas. Os argumentos de Farias dizem respeito, sobretudo, a organização e metodologia eminentementes científicas que regem o sistema universitário, despreparado, assim, para o ensino de arte.

Data dos anos 1980 a criação dos cursos de pós-graduação em arte no Brasil, e sua ampliação se deu com o doutorado cerca de uma década depois. O processo de intelectualização dos artistas, sabemos, guarda suas origens na própria formação do sistema de arte iniciado no Renascimento. Adquire, contudo, uma nova voltagem no pós-guerra, pelas exigências de uma formulação estética que garantisse a práxis artística, diante da suspensão das definições canônicas sobre a arte, dos parâmetros historiográficos que balizavam a relação com a tradição e as “noções estabelecidas de plasticidade”, como diz Barnett Newman sobre os dogmas ideológicos da crítica. O esgotamento da ideia de vanguarda, passível de assegurar um porvir para a arte, coloca na ordem do dia a exigência de uma conceituação diretamente ligada à gênese da obra, transformando as relações com a história e a crítica de arte, e assim, com a própria teoria.

O pintor e escultor Marcel Duchamp, em 1960, em sua conhecida alocução “O artista deve ir à universidade?”, exorta os artistas a se educarem, condição para assegurar liberdade e capacidade de defesa de suas posições estéticas. Por injunções de ordens diversas, inseparáveis, contudo, das transformações internas do fazer artístico e da inserção do artista no mundo, o processo de domínio de instrumentais teóricos tem sido crescente como, também, a formação de pesquisadores e outros agentes do meio de arte em franca expansão. Processo esse não restrito ao âmbito universitário, embora, por suas próprias características, a universidade, em particular os cursos de pós-graduação em arte, ofereça um campo de aprendizado não apenas de conhecimento, mas de criação de espaços reflexivos sobre a relação teoria e prática. Sem modelos, a priori, capazes de assegurar metodologias, cada dissertação ou tese é uma realização que, necessariamente, conjuga questões teóricas e poéticas inerentes às estratégias artísticas particulares.

As armadilhas e riscos, internos a esse processo, são, contudo, permanentes: seja no desvio para uma espécie de defesa crítica do próprio trabalho e, assim, de criação de armaduras teóricas que o subsumem; seja nas abordagens teóricas filosóficas, que, em geral, carecem de conhecimentos mais aprofundados, e deixam de abordar questões que permeiam a práxis. Armadilhas e riscos, como alerta Agnaldo Farias, cujas exigências universitárias, e mesmo as dos órgãos fomentadores tendem a acentuar, criando arcabouços cientificistas que minam a démarche especulativa no universo da arte, mas asseguram aos programas seus pontos e classificações. O pensamento especulativo, no entanto, é hoje, mais do que nunca, um material da arte.

Compartilhar:

Confira outras matérias

Matéria de capa

Regina Parra: Eu me levanto

Não é a realidade que é exterior, é que não há exterior em uma prática artística em que o corpo …

Do mundo

500 anos de Tintoretto

Jacopo Robusti, conhecido como Tintoretto, nasceu em Veneza entre 1518 e 1519, não se sabe ao certo. Por ocasião de …

Flashback

Lasar Segall: ensaio sobre a cor

 

Nascido na comunidade judaica de Vilna (Lituânia), Lasar Segall (1891-1957) adquiriu formação acadêmica em Berlim e participou da Secessão de …

Alto relevo

Paul Klee

Poucos artistas do século 20 são tão singulares quanto o suíço Paul Klee. Sua obra é como um grande lago …

Garimpo

Coletivo Lâmina

Em sua 10ª edição, o já tradicional Salão dos Artistas sem Galeria apresenta duas mostras coletivas simultâneas em São Paulo, …

Matéria de capa

Alphonse Mucha

Alphonse Mucha é hoje um dos artistas tchecos mais famosos do mundo. Nascido em 1860 na região da Morávia, ganhou …

Destaque

Rosana Paulino: a costura da memória

Voz singular em sua geração, Rosana Paulino surgiu no cenário artístico paulista em meados dos anos 1990, propondo, de modo …

Do mundo

Anni Albers

Anni Albers começou seus estudos na Escola Bauhaus em Weimar em 1922. Apesar de seu desejo inicial de ser pintora, …

Reflexo

Vinicius SA por ele mesmo

O pensamento científico me influencia pela racionalidade, pelo cálculo e pela possibilidade de antever meus projetos. A prática artesanal é …

Garimpo

Marcel Diogo

A escolha dos leitores da Dasartes para o concurso Garimpo Online 2018/2019 é Marcel Diogo, somando a votação no site …

Resenhas

Resenhas

Intempéries permanentes e Ultramar
Referência Galeria de Arte
Intempéries permanentes – visitação até 23 de fevereiro
Ultramar – visitação até 26 de janeiro
POR …

Destaque

Jean-Michel Basquiat na Fundação Louis Vuitton

Inquebrável

Parece que palavras “tour de force” foram criadas para a exposição épica de Jean-Michel Basquiat na Louis Vuitton Foundation. A …

Matéria de capa

Andy Warhol: de A para B e vice-versa

“Eles não queriam meu produto. Ficavam dizendo ‘queremos sua aura’. Nunca entendi o que queriam.” – Andy Warhol
Esse trecho tirado …

Flashback

Constantin Brancusi

Constantin Brancusi (1876-1957) exibiu pela primeira vez sua escultura em Nova York, no Armory Show de 1913, ao lado de …

Do mundo

Jaume Plensa

“A escultura é a melhor maneira de fazer uma pergunta.” Jaume Plensa

“Firenze II”, de 1992, é um enorme ponto de interrogação …