Entre intelectualização e academicismo

Em recente debate no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o crítico e professor Agnaldo Farias questionou a validade de os artistas cursarem pós-graduções. Desafio que, sem dúvida, surpreende ao suspender a naturalidade, ou melhor, a suposta necessidade inelutável da formação atual em pós-graduação dos artistas. Os argumentos de Farias dizem respeito, sobretudo, a organização e metodologia eminentementes científicas que regem o sistema universitário, despreparado, assim, para o ensino de arte.

Data dos anos 1980 a criação dos cursos de pós-graduação em arte no Brasil, e sua ampliação se deu com o doutorado cerca de uma década depois. O processo de intelectualização dos artistas, sabemos, guarda suas origens na própria formação do sistema de arte iniciado no Renascimento. Adquire, contudo, uma nova voltagem no pós-guerra, pelas exigências de uma formulação estética que garantisse a práxis artística, diante da suspensão das definições canônicas sobre a arte, dos parâmetros historiográficos que balizavam a relação com a tradição e as “noções estabelecidas de plasticidade”, como diz Barnett Newman sobre os dogmas ideológicos da crítica. O esgotamento da ideia de vanguarda, passível de assegurar um porvir para a arte, coloca na ordem do dia a exigência de uma conceituação diretamente ligada à gênese da obra, transformando as relações com a história e a crítica de arte, e assim, com a própria teoria.

O pintor e escultor Marcel Duchamp, em 1960, em sua conhecida alocução “O artista deve ir à universidade?”, exorta os artistas a se educarem, condição para assegurar liberdade e capacidade de defesa de suas posições estéticas. Por injunções de ordens diversas, inseparáveis, contudo, das transformações internas do fazer artístico e da inserção do artista no mundo, o processo de domínio de instrumentais teóricos tem sido crescente como, também, a formação de pesquisadores e outros agentes do meio de arte em franca expansão. Processo esse não restrito ao âmbito universitário, embora, por suas próprias características, a universidade, em particular os cursos de pós-graduação em arte, ofereça um campo de aprendizado não apenas de conhecimento, mas de criação de espaços reflexivos sobre a relação teoria e prática. Sem modelos, a priori, capazes de assegurar metodologias, cada dissertação ou tese é uma realização que, necessariamente, conjuga questões teóricas e poéticas inerentes às estratégias artísticas particulares.

As armadilhas e riscos, internos a esse processo, são, contudo, permanentes: seja no desvio para uma espécie de defesa crítica do próprio trabalho e, assim, de criação de armaduras teóricas que o subsumem; seja nas abordagens teóricas filosóficas, que, em geral, carecem de conhecimentos mais aprofundados, e deixam de abordar questões que permeiam a práxis. Armadilhas e riscos, como alerta Agnaldo Farias, cujas exigências universitárias, e mesmo as dos órgãos fomentadores tendem a acentuar, criando arcabouços cientificistas que minam a démarche especulativa no universo da arte, mas asseguram aos programas seus pontos e classificações. O pensamento especulativo, no entanto, é hoje, mais do que nunca, um material da arte.

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