Dos milhares de livros da Biblioteca de Alexandria transformados em cinza à destruição do Palácio de Verão, em Pequim − incêndio orquestrado por 3.500 soldados britânicos no século 19 −, ou aos milhões de livros queimados na Segunda Guerra, as labaredas, entre outras catástrofes, têm deixado suas marcas de destruição na cultura mundial. Marcas estas que, no Rio de Janeiro, revelam mais do que precariedades. A recente perda de parte considerável de obras de Hélio Oiticica (cuja real porcentagem e indicação das obras ainda não foram divulgadas) reativa de modo doloroso, como tem sido lembrado, o fogo que consumiu, objetiva e simbolicamente, o Museu de Arte Moderna. Naquela ocasião, além de cerca de mil peças, entre outras, de Picasso, Miró, Max Ernst, Volpi, foram destruídos quase duzentos trabalhos apresentados na exposição Geometria Sensível, entre os quais a retrospectiva de Torres García. Com curadoria de Roberto Pontual, essa mostra buscou apresentar, segundo Frederico Morais, a vocação construtiva da arte latino-americana, e inscreveu-se no amplo processo de reavaliação dessa experiência, à qual se soma a análise de Ronaldo Brito sobre o Neoconcretismo e a mostra Projeto Construtivo Brasileiro na Arte (1950-1962), realizada no Rio e em São Paulo, em 1977, com curadoria de Aracy Amaral e Lygia Pape.

Com exceção das recentes exposições sobre o concretismo paulista no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo, pouco tem sido apresentado e formulado como avaliação crítica de um tempo, como diz Paulo Sergio Duarte, “em que se acreditava na inserção da cultura local no sistema do mundo através da busca de valores universais”. Este trecho é de um texto publicado no belo livro Arte Construtiva no Brasil: Coleção Adolpho Leirner, organizado por Aracy Amaral, em 1998, que não nos deixa esquecer a venda, para o Museum of Fine Arts, de Houston, dessa coleção − apresentada, atualmente, na exposição Dimensions of Constructive Art in Brazil, na Haus Konstruktiv, em Zurique. O fogo, até poderíamos dizer, parece corroborar a inoperância e o descaso do poder público brasileiro em constituir acervos coerentes de trajetórias artísticas e períodos históricos, impossibilitando a relação direta e crítica com essa produção.

O incêndio na casa da família Oiticica, no Jardim Botânico − palco de várias experiências, como a do Poema Enterrado, de Ferreira Gullar, do reconhecido trabalho fotográfico de José Oiticica e, há algum tempo, sede do Projeto Hélio Oiticica − causa estupor e interrogações. Assombro tanto pelo acidente/catástrofe que se abate em um dos trabalhos mais coerentes e profissionais no resgate e apresentação da obra de um artista ao longo destes últimos quase trinta anos, quanto pela inexistência de uma sala sequer, em todo o território brasileiro, que disponibilize ao público, como coleção permanente, sua produção, assim como a de outros artistas. Quanto às interrogações, elas são de várias ordens. Seria a desconfiança expressa por diferentes críticos e mesmo artistas de um possível assoberbamento por Lygia Clark e Hélio Oiticica do conjunto da produção contemporânea brasileira, que parece inviabilizar uma avaliação crítica do Neoconcretismo, nos cinquenta anos de sua primeira exposição?

Multiplica-se no contexto internacional a presença de produções artísticas das mais variadas latitudes, incluindo a brasileira. Como situar essas produções nos grandes mapas e diagramas da história da arte, estabelecidos segundo parâmetros ocidentais, sem referências a momentos decisivos de inflexão da prática e da reflexão artística particulares? Se o Neoconcretismo se tornou, do ponto de vista de muitos críticos internacionais, o caminho de acesso, às vezes de modo excessivo, para a compreensão da produção brasileira, não teria sido essa experiência o solo para a arte contemporânea em um diálogo − e não atualização − com a arte internacional? Ou será a permanente tendência a considerar a história e a cultura visual que baliza a produção brasileira um capítulo à parte da história da arte, cuja memória crítica se esvai ao sabor de cada novidade?

Continuaremos, como disse Hélio Oiticica, um país mata-borrão?

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