Entre a dança e as artes visuais

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“É preciso adorar dançar para persistir. A dança não dá nada em retorno, nem manuscritos a guardar, nem pinturas a colocar na parede ou mesmo a expor nos museus, nem poemas a publicar ou vender; nada salva esse instante fugaz, único, quando você se sente viver”, diz Merce Cunningham. Este é o desafio de exposição Danser sa vie. Art et danse de 1900 à nos jours, com curadoria de Christine Macel e Emma Lavigne, instalada no Centre Georges Pompidou de novembro de 2011 a abril deste ano: explorar o diálogo, às vezes fusional, da dança moderna e contemporânea com as artes visuais; colocar em cena a arte do corpo em movimento, sua representação como mise en action, apresentando o desenvolvimento de uma aspiração à sinestesia que marca a arte moderna e se confunde com a perda das fronteiras entre as artes na contemporaneidade. Além de vários eventos paralelos, acompanha a exposição um belo catálogo, com textos importantes, cujo título é uma referência a Isadora Duncan.

A mostra é organizada segundo três eixos temáticos. O primeiro, a subjetividade que se exprime na obra, a dança como expressão de si mesma, tratando da liberação dos códigos preestabelecidos, em estreita relação com as artes plásticas. Um pequeno extrato de Vaslav Nijinski dançando L’Après-Midi d’un faune nos introduz a sua ambição de uma nova linguagem do movimento, sincrética, imediata e universal, em consonância com a concepção global, própria à síntese das artes experimentada pelo Ballets Russes ? uma espécie de nova concepção dionisíaca para as artes. Artistas, por exemplo, como Henri Matisse e André Dérain celebram o corpo nu e liberado da dança em rodas e cortejos dionisíacos. Comunidades como Monte Veritá, estabelecida por Rudolf von Laban, na mítica colina de Ascona, na Suíça, tentam educar os corpos em função de ritmos musicais em paisagens naturais ou em cena. Mary Wigman, sua aluna, que se considera uma dançarina da humanidade, encarnando pulsão de vida e morte, fascina, entre outros, os pintores Emil Nolde e Ludwig Kirchner ? trocas entre arte e dança, próprias ao expressionismo.

O segundo trata de uma história mais conhecida nossa – da abstração do corpo – e tem seu início com as performances dadá, e é comum a toda a vanguarda histórica, com fortes ressonâncias a partir dos anos 1960. Com um novo repertório de gestos e formas, dançarinos e artistas introduzem o corpo na modernidade, reduzindo-o a elementos simples e à mecanização. De Loïe Fuller e seu balé cinético às sinfonias cromáticas e rítmicas de Sonia Delaunay, ao dinamismo da obras futuristas como as de Gino Severino e de Fortunato Depero ou ainda a Vassily Kandinsky, a relação entre dança e arte é determinante na abstração. De Stijl e Bauhaus, são particularmente interessados pelo corpo em movimento, por suas cores, linhas, por seu dinamismo e ritmo. Célebre é o Balé Triádico de Oskar Schlemmer. Como assinala o artista em 1928: “Que quer dizer, o que significa abstrato? Para ser breve, e de uma maneira geral, significa a simplificação, a redução ao essencial, ao elementar, ao primário, para opor uma unidade à multiplicidade das coisas… ”.

O terceiro e último eixo temático trata especialmente da relação entre dança e performance na arte contemporânea, a começar pelas experiências do Black Mountain College, com a participação de John Cage, Cunnigham e de uma plêiade de artistas, como Nam June Paik, Andy Warhol e Robert Rauscherberg. A dançarina Ann Halpin, na Califórnia dos anos 1950, com suas tasks ? movimentos que estabelecem uma relação com os atos cotidianos, a natureza e o espaço sociopolítico ? teve grande influência no início da arte minimalista. Do Judson Theater, em Nova York, nos 1960, aos happenings de Allan Kaprow e ao movimento Fluxus, como dizem as curadoras, fazem “do corpo em movimento a sismografia dos estados da alma contemporânea. As idas e voltas estéticas, formais e conceituais entre coreógrafos e artistas são então incessantes”. Outros artistas, como Robert Morris, Robert Rauschenberg, Yvonne Rainer e Trisha Brown, atuam (ou atuaram) tanto na coreografia quanto nas artes plásticas. Inúmeros são os filmes ou vídeos e obras expostos, num total de 450. Destaco Pina Bausch, Wiliam Forsythe, Olarfur Eliasson (com Mouvement microspoce, de 2011) e Matthew Barney, que revisitou, nos anos 1990, o fauno encarnado por Nijinski. De brasileiro, apenas alguns parangolés de Hélio Oiticica, acompanhado do vídeo de Katia Maciel. O Balé Neoconcreto, de Lygia Pape, esse… Nem pensar.

 

 

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