© Centre Pompidou, MNAM-CCI / Dist. RMN –GP | © Banco de México Diego Rivera Frida Kahlo Museums Trust, Mexico, D.F. / Adagp, Paris

A mostra ELLES: Mulheres Artistas na coleção do Centro Pompidou, depois de sua estada em Paris e visitas pontuais a cidades dos Estados Unidos, chega ao Rio de Janeiro, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), onde fica entre 24 de maio e 14 de julho. Apresentam-se trabalhos de mais de 50 mulheres do mundo todo produzidos entre 1907 e 2010, com participação das brasileiras Letícia Parente, Anna Maria Maiolino, Sônia Andrade, Rosângela Rennó, Rivane Neuenschwander e Anna Bella Geiger. Trata-se de uma exposição histórica que faz um panorama sobre a contribuição da mulher ao universo das artes.

A mulher sempre esteve presente na arte como objeto, o que fica evidenciado, por exemplo, no capítulo que trata das mulheres do obrigatório Sobre a Modernidade, de Charles Baudelaire. Ali está apresentada a visão de um homem para outros homens, observando a mulher como objeto a ser compreendido, mas que é, no entanto, “incomunicável como Deus”. Embora o poeta exalte a figura feminina durante o capítulo, isso está sempre em função de entender como ela afeta o cérebro masculino. Baudelaire está interessado no objeto mulher, na musa mulher, na obra de arte mulher – a mulher ainda não existe como ser pensante, ativo ou criador, no sentido de não desempenhar essas funções no mundo artístico, intelectual e acadêmico.

O mergulho ao universo particular de cada artista, proposto pela exposição, evidencia um deslocamento da mulher no universo da arte, quando ela deixa de ser somente objeto para se tornar também sujeito artístico. É certo que não se trata de um movimento linear, mas plural e complexo, pois as épocas, as questões, os contextos, as mulheres e, é claro, as obras resultantes desses fatores são diferentes entre si. Passando pelo abstracionismo geométrico de Sonia Delaunay, pelos retratos de Suzanne Valadon, pelas fotos de Anna Bella Geiger e ainda pelos filmes de Germaine Dulac (só para citar alguns exemplos), há uma diversidade enorme a ser percorrida pelas 115 obras da mostra.

Para abarcar toda essa variedade, a curadoria de Emma Lavigne e Cécile Debray divide a exposição em cinco seções. A primeira delas, “Tornar-se uma artista”, homenageia Sonia Delaunay, pioneira na arte abstrata, tendo fundado por volta de 1912, juntamente com seu marido Robert Delaunay, o efêmero movimento orfista, que explorava a cor e a forma em sua dimensão abstrata. A seção conta ainda com a portuguesa, também pioneira, Maria Helena Vieira da Silva, a primeira mulher a receber o Grand Prix National des Arts, concedido em 1966. Há também trabalhos de surrealistas como Germaine Dulac e Dorothea Thanning e outras obras de artistas mais recentes, como Valérie Belin e Pipliotti Rist.

A segunda seção é intitulada “Abstração colorida/ abstração excêntrica” e traz nomes como Louise Bougeois, Aurélie Nemours e Vera Molnar. Cada uma de uma subseção diferente, representando tipos distintos de abstrações. Figuras de traços coloridos, por vezes fluidos, algumas vezes em excesso outras nem tanto, estão na parte denominada “Excêntrica”; na parte “Colorida”, estão trabalhos voltados para a cor pura, ou mesmo plena; e em “Espaços infinitos” estão experimentações que levam em conta perspectivas ou áreas.

“Feminismo e a crítica do poder”, a terceira seção, é talvez a mais provocativa e reúne a maior parte das obras. Aqui se vê o reconhecimento da feminilidade em sua nudez em seus volumes e em sua natureza carnal, bem como a desconstrução de discursos opressivos do poder. Estão reunidos nessa seção os trabalhos de Marta Minujin, Hannah Wilke, Orlan e Anna Bella Geiger, para falar de apenas alguns.

A quarta e a quinta seções, respectivamente “O corpo” e “Narrativas”, apresentam o trabalho de artistas como Nan Goldin, Eleanor Antin, Rosângela Rennó, Sophie Calle e Annette Messager. Em “O corpo”, aprofunda-se a expressão carnal e imagética da forma feminina, com destaque à materialidade do corpo; já em “Narrativas”, são exibidas sequências de imagens ou imagens únicas que, num sentido próximo aos velhos sapatos de Van Gogh, evidenciam a passagem do tempo e a existência de histórias que por esse tempo se desenrolaram.

O sujeito artístico tem como característica a reflexividade, pois, ao se expressar, imprime naquilo que produz as questões que o motivam a produzi-lo; de certa maneira, imprime a si próprio. É possível ler dessa maneira, para além do sentido narcísico, aquilo que Oscar Wilde escreve, nas palavras de seu personagem Basil Hallward: “todo o retrato pintado é compreensivelmente um retrato do artista, não do modelo”. Nessa esteira, quando a mulher se torna artista, imediatamente torna-se também objeto, mas de um tipo diferente daquele que era, porque agora se faz objeto de sua própria arte.

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