© Gustavo Sosa Pinilla

Um colecionador apaixonado sonha em ter um espaço público onde possa dividir com todos o acesso a suas obras de arte e fazer algo pela cultura de seu país. A descrição parece servir a mais de uma figura do mundo da arte, mas, na América do Sul, o pioneiro em tornar esse sonho realidade é o empresário argentino Eduardo Constantini. Já em 2001, abriam-se as portas do Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba), criado e mantido por uma fundação que leva seu nome. Constantini ganhou fama no Brasil depois de ter adquirido, em 1995, a tela O Abaporu, de Tarsila do Amaral, a um valor que na época foi o mais caro já pago por uma obra de arte brasileira. Com essa visão de selecionar obras-primas da arte latino-americana, Constantini se consolidou um grande filantropo da arte do nosso continente.

Por ocasião da feira de arte de Buenos Aires (ArteBA), onde a Dasartes tem presença há três anos, Constantini cedeu esta entrevista e abriu pela primeira vez as portas de sua coleção particular, tema da seção Coleção desta edição.

O Malba é tido como um modelo de sucesso de fundação privada. Qual o segredo?

É preciso buscar as maiores forças que pode ter um museu: a localização do edifício, o projeto arquitetônico, a qualidade da coleção permanente e a equipe profissional. A partir daí, o programa de curadoria e atividades culturais, que se constrói ao longo do tempo. Esses são os cinco pilares de uma instituição. Em longo prazo, é necessário também a presença e o apoio de empresas e famílias pensantes e envolvidas e nesse momento Malba está trabalhando para obter isso. Sem meios econômicos, uma instituição não pode proporcionar atividades atraentes. Uma instituição tem que ser vista como uma empresa, com olhar estratégico para seu papel dentro do cenário em que atua.

Quando surgiu a ideia de transformar sua coleção em um museu?

Foi na verdade um projeto de longo prazo que começou de forma acidental. Como colecionador, alimentava a ideia de doar minhas obras a outra instituição. Então apareceu a oportunidade de comprar o terreno onde hoje está o museu e foi quando comecei a pensar em construir esse espaço, que nasceu como um centro cultural mais que de um museu, sempre pensando em expandir o público com a articulação de diversos programas que tem sinergias entre si. Hoje tenho meu filho, que é cineasta, cuidando do nosso programa de cinema e minha filha coordenando o departamento de literatura, função que era antes realizada junto ao Museo Nacional de Bellas Artes.

Existiu ou existe algum objetivo político por trás disso?

Não, a ideia sempre foi a valorização da arte latino-americana, especialmente no conceito de instituições dos Estados Unidos e Europa. O Malba ocupou uma posição de vanguarda nessa tarefa. No mesmo ano em que inauguramos, coincidentemente, o Tate iniciou seu programa de aquisições de arte latino-americana e o Museu de Houston nomeou Mari Carmen Ramirez como curadora do programa latino-americano e este conheceu uma grande expansão. Pouco depois, o MoMA, por meio do apoio de seus patrocinadores, nomeou um curador específico para a arte latino-americana, Perez-Oramas, e, claro, a Daros intensifica seu foco.

E porque essa escolha por arte latino-americana como colecionador?

Comecei colecionando arte argentina, depois arte da região do rio da Prata, incluindo a uruguaia, pela identificação com sua cultura. Como trabalhava com mercado financeiro em toda a América Latina pude conhecer melhor a arte de países vizinhos e identificar oportunidade de aquisição. Como estratégia, pareceu-me que, concentrando na América Latina, onde ainda era possível adquirir obras de artistas importantes, o conjunto das obras teria um valor artístico muito maior. Poder ter Diego Rivera, Verni, Matta, Lam, Portinari, Frida, Tarsila; foi isso que decidiu o foco da coleção.

Na ocasião da passagem do Abaporu pelo Brasil, o valor declarado da obra para fins de seguro foi muito alardeado na mídia. Você estaria disposto a vendê-la por esse valor?

Não, o Malba não venderia O Abaporu. Não pode. Institucionalmente, seria como se MoMA vendesse o Demoiselles d’Avignon ou o MASP vendesse O Café de Portinari. São obras que estão além do bem e do mal e que tem valor incalculável.

Mas você propôs uma forma de trazê-lo ao Brasil.

O que propus à Presidenta, e foi uma ideia louca e bastante atrevida de meu filho, foi convidar os empresários brasileiros a fundar um Malba no Brasil e assim aumentar o impacto de nosso trabalho também neste país. Se O Abaporu é tão importante para o Brasil, por que os empresários brasileiros não criam um Malba em São Paulo? Se isso acontecer, levaremos para lá O Abaporu e outras obras da coleção permanente e ficaríamos responsáveis pelo conteúdo cultural e a programação, em sinergia com Malba Buenos Aires.

A ArteBA pode ser vista como um indicador do alto nível cultural do povo argentino: apesar de reunir um número relativamente pequeno de galerias, é uma das feiras mais visitadas do mundo. O que o Brasil poderia fazer para popularizar a cultura? 

O Brasil tem coisas ótimas, como a Bienal de São Paulo, e um grupo de colecionadores importantes. Há mais colecionismo lá que na Argentina. Pode ser que haja uma diferença social e cultural na população, mas isso está ligado fortemente com a educação, onde geralmente se faz o primeiro contato das crianças com o museu.

O Brasil tem muitos empresários e colecionadores que sonham em um dia ter suas coleções em uma instituição. Que dica você daria a eles? 

Tem que ter consciência da dimensão do projeto que está buscando. O primeiro conselho que daria é não fazer de forma individual como nós fizemos, pois uma instituição requer um investimento financeiro contínuo, todos os anos, e se ela quer crescer esse investimento também tem que aumentar. No caso do Malba, temos um investimento familiar de US$ 3 milhões por ano, mas gostaríamos de expandir o programa de aquisições e outras atividades. No MoMA, por exemplo, há um grupo de famílias, com 150 nomes, acredito, que apoia financeiramente o programa de aquisições de arte latino-americana. Não se pode pensar nos próximos 20 anos, temos que pensar nos próximo 50 anos. Como vai se sustentar esse museu ao longo desse tempo? O suporte tem que se despersonalizado. Em algum momento, a família deixa o museu, como aconteceu com Guggenheim ou Whitney, porque os homens morrem. Os artistas e as famílias gostam de fazer suas fundações, mas não pensam na hipoteca que estão deixando a seus filhos, que não sabem o que fazer com elas, não sabem administrá-las e não tem acesso aos recursos para isso.

 

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