Eder Santos, A Multiplicidade De Eder Santos Chega Ao Porto E À Cidade

© Vicente de Mello

Considerado o mais importante videoartista brasileiro, com obras integradas às coleções permanentes de grandes museus e instituições pelo mundo, como o MoMA de Nova Iorque ou o Centre Georges Pompidou, em Paris, Eder Santos acaba de montar a maior videoinstalação/exposição/temática-em-movimento de sua trajetória: Atrás do Porto tem uma Cidade, inaugurada em outubro no Museu Vale, em Vila Velha/ES.

Um galpão de 800 metros quadrados abriga uma gigantesca videoinstalação que tem um pouco de céu, outro tanto de mar e muito de montanha. Um vagão de trem propõe a imagem enquanto paisagem. E uma sala que mais parece uma joalheria exibe joias humanas em movimento sobre o precioso minério. Esse conjunto único refaz, aos olhos do visitante, os 905 quilômetros que separam do porto de mar o minério de ferro que vem das entranhas de Minas. São histórias, agora transformadas em imagens e efeitos, que estão dentro do artista desde pequeno – e que se descortinam diante do espectador.

Da carreira iniciada em 1983, ainda no videocassete, à projeção internacional como criador nas mais variadas linguagens de suporte, Eder Santos é um obsessivo pesquisador/transmutador das imagens, que para ele possuem som em qualquer instância. Há o som do filme sendo manipulado nas ilhas analógicas, suas preferidas, ou o som produzido sob medida para cada obra, fruto de uma longa e profícua parceria com o músico Paulo Santos, do grupo Uakti. Há ainda a sonoridade visual provocada pelas exaustivas repetições e transformações que se objetivam, na tela, em alta velocidade ou em movimentos-limite. Há, enfim, histórias sendo contadas de modo cada vez mais particular, em línguas novas que ele cria e que ultrapassam o conceito epistemológico de linguagem. São essas histórias que se projetam sobre superfícies como as águas em movimento de um mar recriado, uma esteira rolante ou uma pilha de minério de 42 toneladas, ou ainda sobre a hipótese visual de um céu flutuante, ao fundo.

Livre para voar ao ser convidado pela Fundação Vale, Eder escolheu a mineração como caminho. Em dois anos, captou imagens de todo o processo produtivo do minério, viajou em vagão, fez tomadas aéreas, acompanhou cada passo da esteira rolante, documentou as detonações. E foi atrás da gente das minas, garimpada a partir de um acervo de muitos metros de filmes realizados desde a década de 1970. Projetadas sobre a face do minério, as pessoas tornam-se joias em movimento, nas imagens telecinadas e reprocessadas pelo artista em construções de grande carga poética.

A narrativa poética, aliás, é uma constante na obra de Eder Santos – expressa à exaustão, e de distintas maneiras e ritmos, nas imagens que cria. O “pintor da luz” (como o definiu Barbara London no catálogo da exposição Roteiro Amarrado, realizada no CCBB em 2010) cria beleza em seu sentido mais visceral ao construir, célula a célula, um mundo de imagens próprio. Bem exemplificado, por exemplo, na obra The Desert in My Mind (2002), em camadas que sobrepõem pássaros, anjos, camas, jardins, água e objetos do cotidiano, como pias, bacias, camas e peças comuns de decoração das casas mineiras.

No catálogo da mostra, Paulo Reis e David Barro destacam a memória das montanhas encantadas de Antonioni, em filmes como Al di là delle Nuvole (“Além das nuvens”), na obra do artista. Para David, isso se traduz um pouco em sua obsessão por “apreender as vibrações secretas dos objetos, as respirações ou atmosferas invisíveis que animam o mundo”. Paulo lembra também Janaúba (1993), em que Eder provoca uma “gênese das imagens”, de modo a restabelecer seu sentido e força – e, assim, recuperar a energia primordial das artes visuais.

André Hallak, colaborador desde 2004, observa que, talvez porque os mineiros vivam rodeados pelas montanhas, as minas e suas histórias, “os complexos industriais, as máquinas e as paisagens marcadas pela intervenção do homem chamam a atenção do artista”. Para David Barro, poucos artistas têm sido tão insistentes como Eder Santos, quando se trata de perseguir a imagem. Quando satura, fragmenta ou força as imagens, está sempre em busca, acima de tudo, de seu lado poético.

É com essa poesia que Eder Santos une minério e nuvem, mar e máquinas, esteira rolante, ferro e gente em um universo de linguagens que sensibilizam e atraem para o espetáculo de uma transformação que se mistura, todos os dias, com a história das pessoas que a fazem e dos lugares por onde passa.

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