A tradição islâmica ganha expressões distintas pelo mundo todo, mas não deixa de gerar controvérsias, especialmente no que diz respeito à sua arte contemporânea. É o que se pode observar na exposição Miragens, em cartaz no CCBB Rio de Janeiro até 26 de dezembro e com itinerância para os CCBBs de Brasília e São Paulo em 2011, que traz obras de artistas contemporâneos islâmicos de países e formações distintos.

Pouco compreendido no Ocidente, o islamismo faz de sua arte espaço para debate e manifestações políticas, como na tela Terrorista Fashionista, de Laila Shawa, que mostra quatro versões coloridas e enfeitadas de um homem coberto com um xale islâmico. A mulher, subjugada na cultura islâmica, protagoniza várias obras da exposição, como as irônicas fotografias de Shadi Ghadirian, em que as modelos parecem atuar em um comercial para eletrodomésticos ultrapassados, em uma demonstração orgulhosa de atualidade. Também estão na série de intervenções sobre fotografia da badalada artista iraniana Sherin Neshat, que cobre de inscrições religiosas imagens de mulheres como o Islã espera que sejam: escondendo seus pensamentos e crenças sob o véu e entregues à violência de sua guerra santa.

Por buscar o diálogo e criticar a sociedade islâmica, várias obras desta exposição não seriam bem aceitas nos países de origem de seus autores, motivo pelo qual muitos deles buscam defender sua liberdade de expressão vivendo em outros lugares. No entanto, mesmo a crítica não é necessariamente uma forma de desrespeito. De acordo com o idealizador da mostra, Rodolfo Athayde, o objetivo principal é gerar um contraponto à visão ocidental do islamismo, como história morta. Para ele, “é preciso saber o que acontece nesse mundo hoje, e como essa arte tem se expressado”. Um exemplo é a série de fotografias de Sener Ozmen Supermuçulmano, que mostram um Super-homem abaixando-se sobre um tapete em saudações a Alá, um ícone do Ocidente dobrando-se à crença oriental.

Rodolfo Athayde aponta que os extremismos islâmicos são hoje um tema da mídia, e a exposição traz a possibilidade de entender melhor essa cultura. “Não tenho nenhum problema em dizer que defendemos os assuntos da causa palestina. Mas a exposição não tem objetivo de apoiar a causa palestina, e sim de gerar um contraponto, como na música: harmonizar melodias diferentes”, completa.

Para Ania Rodríguez, parceria de Rodolfo na produção da exposição, “a tradição muçulmana é muitas vezes questionada e mesmo reinventada nos trabalhos reunidos na exposição, por meio de técnicas e imagens típicas, aproveitadas para estruturar discursos que dialogam com o presente”. Tal contemporaneidade contrasta com a exposição sobre a arte e a cultura islâmicas produzida pela dupla, em cartaz também no CCBB e tema da seção Flashback. Juntas, estas mostras formam uma visão completa do Islã histórico e atual em toda sua riqueza, complexidade e controvérsia, em uma oportunidade única e inédita no Brasil.

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