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VIDA E OBRA(S)
Por Leandro Fazolla

Divulgação / Adriana Rabelo em cena do espetáculo “Visitando Camille Claudel”

Rebelde. Gênio. Maldito. Por muito tempo, esses e outros adjetivos foram usados para definir pintores, escultores e outros artistas, despertando interesse e curiosidade que vão muito além de suas próprias produções, adentrando também em seus âmbitos pessoais. Apesar de muitos crerem que elementos biográficos não são relevantes para se discutir uma obra de arte, há quem defenda que aspectos socioculturais e biográficos são imprescindíveis para a análise mais aprofundada de uma produção artística.

Apesar das divergências no que diz respeito à relevância ou não de se conhecer a vida de um artista para analisar sua obra, parece incontestável, pelo menos, o interesse por tais vidas. Tal fato pode ser percebido tomando de exemplo o italiano Giorgio Vasari que, já em 1550, publicou o livro Vidas de Artistas (lançado recentemente no Brasil pela editora Martins Fontes), que traça relações entre vida e obra dos biografados, e o faz ser considerado o primeiro biógrafo de artistas, além de um dos precursores da História da Arte.

Na leitura do livro de Vasari, é interessante notar que, assim como os trabalhos dos artistas podem ser influenciadas por seu entorno, o escritor também se deixava envolver por suas próprias afetividades. Enquanto Michelangelo era considerado por ele um enviado de Deus, a tradutora da edição brasileira, Ivone Castilho Benedetti, ressalta que Andrea dal Castagno era descrito como um mau caráter. Tais fatos reforçam a ideia de que toda produção é, na verdade, uma construção de sentidos. Por mais que se queira ser fiel à vida de um artista, a forma como esse relato virá a público também será uma criação de acordo com as impressões de quem a escreve.

Vislumbrando novas possibilidades de criação, é comum que pesquisas relacionadas às histórias pessoais de alguns artistas visuais tenham migrado também para outros meios, como o cinema e o teatro. De tempos em tempos, surgem novos filmes e espetáculos teatrais que tratam, senão da vida de um artista, pelo menos de um fragmento de sua trajetória. Frida Kahlo, Vincent van Gogh, Rembrandt, Modigliani, Picasso, Pollock e muitos outros já foram (re)vividos em telas e palcos, tomando de empréstimo os corpos e as impressões de outros artistas (autores, diretores, atores).

Nos últimos anos, os palcos brasileiros receberam muitos e importantes espetáculos que bebem desta fonte das artes visuais. Apenas para citar alguns, foram produzidos recentemente Visitando Camille Claudel e Camille e Rodin, sobre os artistas franceses dos títulos; A Casa Amarela, sobre van Gogh; Vermelho, sobre Mark Rothko; e outros que ainda circulam pelo país. Tais espetáculos, mais do que revisitar as vidas desses homens e mulheres, dão novos contornos e cores para elas, recriando-as a partir do trabalho e da visão de outros profissionais. Em uma espécie de apropriação, essas obras permitem novos olhares sobre esses nomes e até mesmo uma nova forma de interpretar suas produções, ressignificando-as e levando-as ao interesse de um público muitas vezes distinto daquele que freqüenta museus e galerias.

Para este dossiê, a Dasartes selecionou quatro espetáculos teatrais que tratam de diferentes artistas, trazendo duas resenhas e duas entrevistas que ajudam a adentrar neste universo híbrido entre artes visuais e cênicas.

IN THE PLACE – UM LUGAR PARA ESTAR
Texto e Performance: Alex Mello – Direção: Gilberto Gawronski

ENTREVISTA COM ALEX MELLO
Por Vinicius Baião

In the place – um lugar para estar perpassa a vida e a obra de Jean Michel Basquiat. Quais motivações o levaram a pesquisar esse artista?

Minha motivação principal surgiu da necessidade de comunicar temas que Basquiat reverbera em sua obra: solidão, consumismo, inserção social, fama, arte, glamour. Em sua pintura, um “rap visual”, Basquiat denuncia inquietações, colore o cotidiano com reflexões importantes. Esse espetáculo surge do espelho que encontro nesse artista e do diálogo entre seu fazer artístico e o meu. Daí ressurge nosso “Basquiat”, amparado pela releitura, pela chance de produção de algo novo.

Como se deu o processo de pesquisa?

Fiz leituras, conversei com pessoas que conviveram com ele e tive acesso a materiais privados que me trouxeram outra dimensão do homem Basquiat. Depois, fui conhecer sua obra pessoalmente. Destaco uma temporada numa república de artistas em Amsterdã como fonte principal deste laboratório: percebi que seus abismos, sonhos e anseios eram meus também. Ali encontrei Basquiat vivo, não só neles, mas em mim. Ser um artista negro, migrante, fazendo pesquisa de temas sociais me aproxima de Basquiat. A partir desse entendimento, surgiu o texto do espetáculo.

O espetáculo já foi encenado em muitos países. Quais diferenças você enxerga na recepção do trabalho por culturas tão próprias?

O espetáculo já foi apresentado em quatro idiomas. Em cada praça, ele é recebido de forma diferente, mas a mensagem chega de forma clara: o público se envolve com a história e se enxerga naquele conflito. Emoção não se traduz, o homem se reconhece na sua solidão em qualquer parte do mundo, o homem se entende na necessidade de ganhar seu pão e ser feliz em qualquer canto deste planeta.

Que relação você traça entre teatro e artes plásticas?

Acredito em teatro como forma de diálogo, ritual, celebração da vida. E a vida é atrelada a música, poesia, pintura, desastres, sonhos, decepções… A referência das artes plásticas com meu fazer artístico é latente, gosto de pensar a cena enquanto composição, tela, alegoria. Quando falta a palavra, fica a imagem, a emoção.

Você é negro e já representou dois artistas também negros, Basquiat e Bispo do Rosário. É uma preocupação sua usar o teatro para abordar questões raciais?

Acredito na arte como canal de pensamento e mudança. Levando à cena Bispo do Rosário, chamo o público a refletir sobre psiquiatria, exclusão, medicamentos que apagam a memória e a alma de alguns internos. Com Basquiat, falo de Amy Winehouse, Chorão, da cracolândia. É uma denúncia, um rap em forma de teatro, a partir de uma história que poderia ser radiante, mas é brutal. São espetáculos que trazem mensagens em legítima defesa. Se a defesa for também racial, que assim seja!

FARNESE DE SAUDADE
Texto, concepção e atuação: Vandré Silveira – Direção: Celina Sodré

ENTREVISTA COM VANDRÉ SILVEIRA
Por Higor Nery

Depois de cinco anos conhecendo a vida de Farnese de Andrade, como criou sua personagem?

Por cinco anos, fiquei imerso no universo de Farnese, tive acesso a um rico material, reportagens e matérias sobre o artista, recortes de jornais que o próprio Farnese “garimpou”, entrevistas com amigos e familiares. Tive uma importante contribuição da pesquisadora Jô Frazão, que organizou dois livros sobre ele. Pude ir conhecendo mais sobre o homem, para além de sua obra. O curta de Olívio Tavares de Araújo também serviu de base para minha construção.

Como as obras do artista influenciaram na construção do espetáculo?

A obra de Farnese porta uma força de uma esfera metafísica, é impossível ficar indiferente. A relação dele com o mundo se dava através dos objetos que criava. O início do espetáculo se passa numa “gaiola” de ferro, retrata a construção deste espaço, onde objetos mudam de lugar o tempo todo, na procura do melhor “encaixe”. A estrutura foi inspirada em Passage Dangereux, de Louise Bourgeois, que dialoga com Farnese em muitos aspectos. É como se ela tivesse criado uma caixa farnesiana em escala maior.

Qual foi a maior dificuldade no processo?

A dificuldade está na natureza do trabalho: queremos trazer a essência do universo de Farnese, e não uma mimese do artista. Busquei experimentar a proximidade de seu processo criativo e tive vivências que deslocaram meu olhar. Uma vez percebi na areia do cenário marcas das patas de um gato. No local não havia gatos. À noite, dormindo nessa estrutura como uma das proposições de vivência, acordei com um gato preto me observando. A partir do momento em que começamos a trabalhar questões do universo farnesiano, houve uma atração de forças afins: Farnese adorava gatos.

Como é a receptividade do público ao espetáculo?

Esta é uma homenagem ao Farnese de Andrade, à sua genialidade que nunca foi reconhecida da maneira devida. A plateia fica querendo saber mais sobre ele, as pessoas se projetam nas questões abordadas. Uma espectadora me disse que não conseguia relaxar, que o espetáculo provoca desconforto. Ora, a obra de Farnese também provoca desconforto. Se o espetáculo acessa este lugar, estou sendo fiel à sua essência. É uma grande realização reavivar sensorialmente no espectador o que Farnese provoca.

Desde as primeiras apresentações, o que mudou em você?

Sou veículo para contar essa história, mas o próprio Farnese é veículo para que eu possa trabalhar questões pessoais. O trabalho é muito pessoal, há uma autoexposição visceral que vejo como parte fundamental na arte do ator. Esse encontro com Farnese foi um divisor de águas: o crescimento artístico é indissociável do crescimento humano. Personagens como esses nos possibilitam alargar e aprofundar nossa própria

VERMELHO, UM EMBATE ÉTICO
Por Gabriel Barros

Uma peça de conflitos. Confusões de gerações, subversão de conceitos, desordens de valores. As oposições de interesses permeiam o espetáculo e pincelam todo o ambiente estético. Red (Vermelho, na tradução brasileira) é uma dramaturgia do estadunidense John Logan, vencedora de seis Tony Awards, incluindo o de Melhor Peça.

O espetáculo é sensorial, incita-nos a imergir mais e mais no universo das artes plásticas e da filosofia. Esse mergulho sobrevém principalmente em virtude da atmosfera que é criada. Ao se deparar com a cenografia do diretor Jorge Takla,vemo-nos em um grande ateliê de pintura, como se fizéssemos parte desse universo. Tudo nos leva para esse recinto. Cores, texturas e formas são o começo dessa viagem ao mundo de Mark Rothko, caótico e sublime.

Porém, essa excursão não cessa por aí. Nosso olhar se perde com as telas do pintor, que estão em cena e complementam a composição da cenografia do espetáculo. Dimensão, essa é palavra. Essa envergadura de fazer pinturas grandes que podiam ser experiências íntimas nos lança para superfícies de cor (o sombrio e brilhante, o vermelho, o preto e o castanho, ofegando e flutuando), transporta a plateia. Muito mais do que uma mera reprodução, tudo isso está intensamente composto no palco. É como se estivéssemos em uma exposição, com a diferença que estamos acompanhando uma trama, muito bem amarrada.

Por falar em trama, Antônio Fagundes (Rothko) é assertivo na comicidade bipolar do pintor, humanizando-o em sua retidão criativa e antagônica à avidez dos negócios da arte. Bruno Fagundes (Ken) aufere mais presença nos embates com o mestre. Mentor e discípulo discutem filosoficamente enquanto combinam tintas e aprontam telas. A todo o momento surgem questões como: “valor da arte”, “sentido da arte”, “utilidade” e, principalmente, “ética”. Pollock, Caravaggio e Warhol são citados como argumentos para ambos os discursos. Não há vitoriosos nesse duelo. A composição de ambos os personagens é equilibrada e muito bem interpretada.

Na minha mente de amante da arte e profissional do teatro, fica o pensamento de que a arte necessita urgentemente propiciar o embate do ser humano consigo próprio, com o enigma da vida e com as mazelas do seu tempo, e não ser um simplório elemento de entretenimento e decoração.

COSMOCARTAS
Por Felipe Barros

Há algum, tempo venho pensando sobre as possibilidades de um teatro que una linguagens como a performance, artes visuais e plásticas. No âmbito teatral, tenho visto algumas peças nas quais verifico questões que circulam por esse tipo de pesquisa, tentam de certa forma “quebrar as barreiras” do teatro tradicional. Foi assim com Cosmocartas, que esteve em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro.

A peça trata de dois ícones da arte brasileira, Hélio Oiticica e Lygia Clark, baseando-se em correspondências que trocavam enquanto viviam em países diferentes. O espaço respirava intervenções artísticas de autoria do coletivo de arte Opavivará!, que dialogavam com a estética brasileira e experimental de Hélio e Lygia. O coletivo assina a direção de arte do espetáculo, que tem direção de Renato Linhares e tratamento dramatúrgico de Álamo Facó e Pedro Kosovsk.

Repensando o espaço do cubo branco, somos levados à experiência de sair dos padrões e mergulhar em uma viagem pelo universo desses artistas, numa peça de teatro/performance que é como uma espécie de mergulho. É-nos transmitida uma obra de videoarte, iniciando ali uma conversa, uma imersão em ideias. Convidados a penetrar outra sala, seguimos os atores Álamo Facó e Cristina Flores, que nos conectam em uma atuação na qual, por momentos, dão vida aos artistas e, por outros, desconstroem-se entre as cartas e os e-mails que eles próprios trocaram no processo de estudo e pesquisa para a peça. Exalto aqui a disposição e entrega dos atores em um contato direto com o público, que dá singularidade a essa espetacular viagem e à forma como somos direcionados nesse encontro.

Está ali toda a pesquisa, todos os conceitos que Oiticica e Clark pregaram nos seus anos de prática artística, vida e visão de mundo. Fomos levados, em uma tarde de verão, a ter o contato direto não só com essas cartas, mas com ideologias e discussões sobre direito de liberdade e liberdade do corpo, em um paralelo com o nosso tempo. Assim como Hélio e Clark quebraram padrões, Cosmocartas também quebra os patamares dos padrões teatrais.

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