© Sylvia Carolinne

Ao princípio da conferência de imprensa que abriu a dOCUMENTA este ano, a artista Ceal Floyer se aproximou do microfone e começou a roer ostensivamente as unhas. Depois de alguns minutos de silêncio e surpresa, deixou o palco sem dizer palavra, em uma espécie de performance sinalizando a ansiedade e o nervosismo que rondava o Congress Palais na inauguração da exposição mais esperada de 2012. A grande polêmica, ao final, foi levantada pelo projeto de Guillermo Faivovich e Nicolás Goldberg de levar o meteorito El Chaco da Argentina para Kassel. El Chaco é considerado muito mais antigo que a Terra e o segundo maior meteoro do mundo e teria sido o objeto mais pesado que o ser humano transportou na história. Esse projeto foi interrompido por protestos de sociedades arqueológicas, porém, o da nova dOCUMENTA aterrissou na pequena cidade alemã e logrou disseminar-se pela cidade de maneira viral saindo das clássicas sedes pela primeira vez. Muitos na plateia se perderam através do espargido e consistente projeto que deve ser apreciado com tempo e paciência.

A importância da dOCUMENTA (13), dirigida por Carolyn Christov-Bakargiev e coordenada curatorialmente por Chus Martinez, está diretamente relacionada à sua ambição. Diferente das bienais, a investigação quinquenal dentro do campo da cultura e da arte tem como escopo observar onde radica a relevância da arte e da cultura hoje em dia, assim como revelar as possibilidades de conexão entre a arte e outras formas de conhecimento que têm relação com uma nova compreensão da vida, da política e da experiência. É de se esperar que esse evento seja uma forma de influência ou inspiração para todos os que pertencem ao âmbito da cultura e da arte. Ela posiciona a investigação artística como forma de transformar radicalmente a relação entre as diferentes disciplinas que estão em jogo nas ciências humanas e, por conseguinte, nas novas ciências sociais. Existe uma atmosfera constante – fecundada pelos distintos participantes, entre eles agroecologistas, físicos, antropologistas da globalização, zoólogos, escritores, poetas, engenheiros, compositores, etc. – de conceber novas lógicas, em entender o que não entendemos, como a possibilidade de pensar dentro de sistemas que não são antropocêntricos. Christov-Bakargiev recentemente defendeu a emancipação de animais e plantas. Esse posicionamento pode ser visto na mostra por meio de obras de Pierre Huyghe (uma delas um cachorro vivo de nome “Humano”) ou à luz do jardim de borboletas de Kristina Buch. Essa última ressalta duas características desse evento. A primeira é entender que a arte funciona como um novo contrato social, que o que faz é apresentar-se a si mesma ante a sociedade como um tratado de formas de dar e receber. Essa primeira caraterística, vinculada ao fato de que muitas das obras não são obras de arte, converte essa interseção em uma das notas mais altas dessa edição, como é o caso dos projetos do coletivo AND AND AND e da obra previamente mencionada de Buch.

“Pode-se dizer que existe certo ponto surrealista no momento de organizar alguns aspectos da mostra”, afirma Chus Martinez. “Estamos treinados para entender a realidade de uma forma enciclopédica ou indexical, as pessoas buscam um índice, uma ordem na apresentação dessas questões. Quando essa ordem se subverte, utilizando conceitos de uma forma mais paranoica de conexão livre sobre as coisas, muitas vezes se interpreta mal e as pessoas pensam que estão em frente ao caos. dOCUMENTA (13) não é mais caótica que a maneira que têm os artistas de conectar formas de existência, formas de conhecimento, formas materiais e imateriais. Isso quer dizer que não existe caos na arte e contudo tampouco existe ordem. A dOCUMENTA deste ano está situada nesse paradoxo”.

Um dos espaços mais interessantes dessa edição é a Rotunda do Fridericianum, intitulado Cérebro. Os elementos ali presentes (artefatos provenientes do Museu Nacional de Beirute que se fundiu após um incêndio durante a guerra civil, vasos originais que foram pintados em quadros por Giorgio Morandi, fotografias de Lee Miller, pedras de Giuseppe Penone, um guia para o “cérebro” de Judith Barry, entre outros) foram provisoriamente agregados para indicar, segundo Christov-Bakargiev, “não uma história, não um arquivo, mas, sim, um conjunto de elementos que marcam condições contraditórias e posicionamentos comprometidos de estar em e com o mundo – desejo, medo, amor, esperança, raiva, indignação e tristeza contra as condições de ‘esperança’, ‘retiro’, ‘estado de sítio’ e ‘atuação’”. Essas quatro condições se relacionam com quatro localidades que esta edição tem como base física e conceitual — Kassel, Cabul, Alexandria/Cairo e Banff. Uma das palavras mais presentes nesse espaço (e atualmente na Europa em geral) é o colapso. Por trás dele sempre está a esperança e a possibilidade de recuperação. Porém, damo-nos conta de que a arte não está nunca em colapso, pois se trata de uma força propositiva. Relaciona-se ao mesmo tempo à fundação da dOCUMENTA em 1955, por Arnold Bode. Em um momento pós-guerra de colapso absoluto, Bode confiou na arte como matéria que podia recuperar, curar a nação alemã e, por extensão, todas as outras.

A presença brasileira nessa edição se restringiu às artistas Renata Lucas – que inseriu elementos arquitetônicos piramidais no Fridericianum, Friedrichsplatz e Galeria Kaufhof –, Maria Martins – com suas obras escultóricas na Neue Galerie –, Maria Thereza Alves – com um projeto na Neue Galerie –, Maria Thereza Alves – com um projeto comunitário social no Ottoneum –, e, por último, Anna Maria Maiolino – que ocupou com uma instalação todos
os cômodos de uma casa no parque Karlsaue, espalhando formas cerâmicas e orgânicas pelas camas e móveis e impedindo com galhos a circulação dos visitantes. Nesse parque, deparamo-nos com muitos projetos interessantes e entre eles se destaca a curiosa piscina de Massimo Bartolini, que mantém uma onda oscilando de um lado a outro; a residência para escritores em um restaurante chinês ao final do parque; a selvagem obra de Pierre Huyghe que assustou
a muitos por ter uma colmeia acoplada ao rosto de uma escultura; a cativante instalação sonora de Janet Cardiff & George Bures Miller, que faz com que o público se esqueça do árduo percurso pelo parque.

Esses últimos possuem também o mais emocionante dos trabalhos da estação Hauptbahnhof. Com a ajuda de um iPod emprestado pela organização, o espectador entra em um novo mundo. Ficção e realidade se fundem de uma maneira perturbadora e inesquecível. Os eventos que se desdobram à voz da artista nesse pequeno aparato foram filmados no mesmo local onde o espectador está situado. A polifonia dessa dOCUMENTA soa atemporal.

Compartilhar: