DASARTES 30 /

Do mundo – La belleza encerrada

Uma proposta inovadora de curadoria fez emergir tesouros ocultos do acervo de Prado,e convida as pessoas a olharem de perto pequenas obras.

Percorremos as salas e corredores de um museu de forma semelhante à que caminhamos por uma cidade, suas ruas, praças e jardins. As paredes repletas de obras de distintas épocas, bem como a volumetria das esculturas e dos mais variados objetos ali postos, funcionam como uma metáfora do espaço urbano. As fachadas dos edifícios, suas portas e janelas abertas ou fechadas ora refletem paisagens, ora nos convidam a um olhar intruso que penetra em interiores, convertendo este ato em instante de contemplação sublime.

Uma das qualidades do museu é provocar o espectador e estabelecer relações entre os vários extratos do tempo – o ontem, o hoje, colisões entre estilos, escolas e épocas. As obras expostas, vestígios do passado ou do nosso rumoroso presente, conduzem-nos a um novo lugar, onde imperam a subjetividade, a certeza, ou a dúvida e, sempre, a poesia.

Por vocação, o museu vem a ser um espaço habitado pelo tempo imóvel. Mas é também o lugar sem tempo ou história lógica, pois pode ser “lido” de forma aleatória e lúdica, conferindo significados mutantes às obras expostas. Assim, artistas outrora esquecidos ou condenados à escuridão em suas valiosas reservas podem, de súbito, ser ressuscitados ou importunados em seu repouso por comissários e historiadores ávidos a redesenhar a história passando, subitamentea animar o mundo presente e descontínuo da grande arte.

É esse o misterioso e vital processo que nos apresenta La Belleza Encerrada. A passagem do tempo eternizada no presente permite-nos valorar, qualificar, duvidar e reinterpretar o que convencionamos chamar “história da arte”. E essas possibilidades nos fazem mais próximos e críticos de nós mesmos e de nosso tempo.

La Belleza Encerrada é uma exposição composta por 281 peças – pinturas, desenhos, objetos e esculturas – em formato reduzido. A peregrinação por suas salas nos reporta ao espaço de pequenas capelas contíguas repletas de obras destinadas ao culto público e, principalmente, à contemplação privada e silenciosa.

Somos constantemente, em nossa visita, convidados a estabelecer um campo visual de proximidade. Quanto mais nos acercamos dessas obras, mais íntimos e intrigados ficamos com os detalhes que as constituem. Nosso olhar passa a compreender e compartilhar a ideia de que a obra de arte é, no fundo, um somatório de pequenas decisões e interferências, conscientes, racionais ou meramente intuitivas, deixadas pelas mãos e pelos desejos dos artistas.

À pequena distância nos são oferecidas a trama e a dança da pincelada, as espessuras e transparências da matéria, os vetores secretos criadores da forma e da cor, e a construção de seu sentido. O pequeno formato nos clama um olhar investigador. Somos convocados a um contato espiritual que é induzido por esse achegar-se.

“Por vocação, o museu vem a ser um espaço habitado pelo tempo imóve. Mas é também o lugar sem tempo ou história lógica, pois pode ser “lido” de forma aleatória e lúdica, conferindo significados mutantes às obras expostas.”

É difícil determinar o limite entre o que chamamos de pequeno ou detalhe e o ponto ou momento de passagem em que o diminuto transforma-se em campo expandido. E essa é justamente uma das várias reflexões suscitadas por Belleza Encerrada. Olhamos através de fechaduras. O que estava atrás, escondido, é revelado e, repentinamente, vivemos outro estado de consciência e passamos a habitar uma nova dimensão de espaço. Mergulhamos então nas diminutas telas de Mariano Fortuny, Raimundo de Madrazo, Ignacio Pinazo, Carlos de Haes ou, retrocedendo no tempo, às pinturas de devoção de Van der Weiden, Petrus Cristus, Robert Campin, Juan Sanches de San Román, para vivenciarmos uma inesperada dilatação e metamorfose de seus espaços planares em vapores etéreos, delicadezas sublimes, como quem submerge num mar de infinitos reflexos e transparências.

Toda essa beleza agora liberta e submetida à luz do tempo nos oferta verdades sucessivas e caminhos que nos levam à invenção de um museu pessoal, interior e afetivo, um “metamuseu” outrora encerrado dentro dos muros do próprio Prado. BOX DE SERVIÇO: La Belleza Encerrada – de Fra Angelico a Fortuny Museo Nacional do Prado – Calle Ruiz de Alarcón 23, Madri – Espanha Até 10 de novembro

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