© Diego de Santos, Sem Título, da série Céu de Vidro, 2013

DASARTES 39 /

Diego de Santos

Como costuma iniciar suas obras? Trabalho bastante com questões do meu entorno, o ambiente em que vivo, coisas que vivi na infância, que nem me lembro direito, mas que retornam por alguma razão e me levam para essa memória. É uma mistura de questões, não tenho algo direcionado. Passei muito tempo fazendo apenas desenhos. Depois […]

Como costuma iniciar suas obras?
Trabalho bastante com questões do meu entorno, o ambiente em que vivo, coisas que vivi na infância, que nem me lembro direito, mas que retornam por alguma razão e me levam para essa memória. É uma mistura de questões, não tenho algo direcionado. Passei muito tempo fazendo apenas desenhos. Depois fiz fotografias, uns experimentos que eu não gostei muito. Estava no começo da produção, ainda buscando algo que fosse realmente meu. Não sei se isso já aconteceu e nem se é necessário. Enfim, não gostei muito e fiz as pazes com o desenho.

Como se deu esse reencontro?
Eu trabalhava numa escola e, no tempo ocioso, tinha em mãos caneta e papel. Fui rabiscando, experimentando e vi que ali nasceu uma estética, que poderia acontecer alguma coisa em termos de pesquisa artística ali. Passei anos fazendo só desenhos, mas pensando em outras coisas também, porque as questões não se esgotavam no desenho, era como se elas quisessem passear por outras linguagens. Em alguns dos meus trabalhos fotográficos, percebe-se imediatamente que há uma relação forte com o desenho. Todos os meus trabalhos ou passam pelo desenho ou nascem dele, não como projeto, mas como outro acontecimento.

Sua série de fotografias apresentadas no prêmio PIPA surgiu de desenhos?
Sim, desenhei uma garrafa com água e um pássaro voando dentro dela. Então pensei que esse desenho poderia funcionar em um local específico da cidade, levei a garrafa para vários locais, fiz as fotos, fotografei os pássaros separadamente e depois fui construindo a composição virtualmente.

Até hoje você lida com esses materiais mais simples nos desenhos?
O que acho mais interessante em grafite e caneta esferográfica é que, por mais simples e objetivos que pareçam, suas possibilidades são quase infinitas. Até hoje estou descobrindo coisas possíveis. Eles sempre me abrem mais possibilidades.

Onde você costuma fazer seus trabalhos? Você tem um espaço específico de criação?
Sempre adaptei os espaços na minha casa, mesa de jantar, uma bancada no quarto… Só agora estou adaptando um espaço na casa da minha avó, que foi o lugar onde morei até os cinco anos. Está sendo bem legal voltar lá porque ativa memórias de quando eu era muito pequeno. Sinto-me muito à vontade de produzir nesse cômodo, que também estou usando como depósito para trabalhos maiores, que não tenho como guardar no meu apartamento.

É sua primeira experiência em ateliê?
Meu, sim. Mas também frequentei ateliês de amigos. Minhas pesquisas sobre o universo dos caminhoneiros foram contempladas em um edital do Porto Iracema e lá tinha um ateliê. Meu trabalho tinha pesquisa de campo, não dependia apenas de ateliê, mas usei bastante o espaço, não só para produzir, como para conversas, reuniões e encontros.

O que muda com um espaço de criação só seu?
Este novo espaço me permite experimentar melhor, sem preocupações. Tenho trabalhado com fuligem e processos de combustão a partir de lamparinas. Comecei a fazer alguns experimentos com umas conchas e pavio para um vídeo e umas fotos. Percebi a fumaça que saía e a mancha que ficava nas paredes onde ela pegava. Achei incrível e resolvi utilizá-las como parte da obra, agregando algo que não controlo, inserindo o acaso nos meus desenhos. Os trabalhos sempre ficam únicos, jamais poderei reproduzir um deles.

Quais são os próximos projetos?
Continuo minha pesquisa pelo universo dos caminhoneiros. Agora estou pesquisando questões relacionadas à subjetividade, ao afetivo, que vai resultar em uma publicação que tem como base uma revista de caminhoneiros. Quero usar um discurso da arte, mas com uma referência grande desse universo. Planejo lançá-la no início de maio.

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