É curioso como um fator tão básico e determinante em toda experiência estética – mesmo aquelas mais espontâneas, que temos, distraídos, na vida cotidiana – seja tão evitado como assunto, quanto o “gosto”. Até mesmo nas situações mais prosaicas e informais, ele paira soberano a cada escolha ou juízo emitido sobre as mais variadas questões. Na conversa de mesa de bar ou ao perambular em um supermercado atrás daqueles produtos sedutoramente enfileirados, estamos, a todo momento, sujeitos a exercê-lo, ainda que não nos apercebamos disso. E ainda assim relutamos em atribuir a ele a devida importância, preferindo nos esquivar assim que a conversa tangencia a noção do gosto.

Indo mais longe, pode-se até mesmo encarar o gosto como um autêntico parâmetro de sociabilidade, a medida das diferenças e das afinidades que rege a dita existência civilizada. Em uma cultura de consumo, como a em que vivemos, o gosto torna-se ferramenta indispensável para a efetivação dessa: afinal, somos incitados a desejar (e consumir) o que supostamente nos torna mais “diferenciados”, só para depois constatar, de forma um tanto melancólica, uma incômoda universalidade desses desejos pasteurizados e pré-formatados. O gosto de “ser diferente” acaba aderindo ao “igual”.

Já no âmbito da arte, o gosto naturalmente reveste-se de maior importância, dada sua inevitável vocação em assumir-se não apenas como um termômetro de afinidades – o que me agrada ou desagrada, com que ou quem me identifico mais e menos –, mas como instrumento definidor do que é “melhor” ou “pior” em sua, digamos, aplicação estética. Torna-se uma medida de aferição de “qualidade”, ainda que com todo o problema da subjetividade que traz a reboque.

O gosto é uma ferramenta indispensável para um crítico, claro: é a partir do seu gosto que ele irá traçar juízos de valor e formular impressões etc. Mas é igualmente fundamental para um artista, para um colecionador e mesmo para o público de arte. Ninguém produz, compra ou aprecia arte sem que o gosto esteja em jogo. Mesmo que o dinheiro fale sempre alto. Aliás, o gosto pode ser comprado? Clement Greenberg, nome referencial da crítica de arte do século 20, dizia que o gosto pode ser cultivado, ou “aperfeiçoado”. Mas comprado? Não sei. Só sei que, mesmo no meio artístico – ou principalmente nele –, o gosto segue sendo um tema de modo geral tido como inconveniente, a despeito da força que ele inegavelmente exerça. Talvez porque, ao subentender tanta subjetividade , ele reforce a pertinência do dito popular: no fundo, gosto “não se discute”.

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