© Sylvia Carolinne

Como é o dia-a-dia no ateliê?
Tempos atrás, eu sofria para manter meu processo criativo; era extremamente aflitivo, dificuldades econômicas e tudo o mais. Tudo que eu desejava era viver em permanente estado de arte e hoje praticamente eu tenho isso, é um privilégio. Não tenho metodologia ou um horário para o trabalho porque estou todo o tempo disponível para esse ofício, eu vivo para ele.

Fale um pouco sobre suas novas obras.
Eu venho perseguindo há muito tempo a relação cor-luz, a cor desmaterializada, já em luz. Há mais ou menos um ano e meio, vi uma família com sombrinhas de poliéster em estilo chinês, e fiquei espantado. Eu vi aquilo ferindo a paisagem e não esqueci. Comprei centenas delas e saí para fazer experiências. Eu queria me apropriar de uma paisagem enquanto pintura, então minhas imagens novas são pinturas apresentadas num suporte fotográfico. Os diferentes suportes que uso fazem com que eu vá diluindo e encontrando os limites para tratar de pintura no tempo contemporâneo.

E como a pesquisa seguiu?
A partir dessas interferências, veio o bicho seda, que deu nome ao projeto. É um alargamento do processo inicial, uma pintura que conversa com a performance, o teatro e as intervenções. É meu próprio ateliê que pedia para caminhar e sair, então eu ia com dois carros cheios de material. Era um ateliê puxado e a ideia no mundo. Fui visitando todo o sertão alagoano em busca do sol. Eu quis dar um testemunho luminoso do Nordeste do Brasil. Eu visitava pequenos vilarejos, pagava as diárias de trabalhadores locais, tudo muito simples. Às vezes, adolescentes ajudavam e ficavam encantados. O mínimo é o máximo.

E como foi voltar ao espaço do ateliê em si?
Depois de meses andando, volto com o bicho para dentro do ateliê. E então acontece o processamento dele, o desmontar da pele do bicho. A partir daí toda pintura de ateliê vem na pele do bicho, meu trabalho recente vem sendo pintado em cima dessa falsa seda chinesa. Percebi que a decoração desses objetos, mesmo vindo da China, tem motivos do Brasil, flores tropicais, impressões do Pão de Açúcar. Eu atirei no que vi e acertei o que não vi. Eu conservo as imagens originais, pinto por cima, e aí começa o processo de globalização. E surgem reflexões sobre o trabalho escravo na China, sobre o excesso dessa produção. São questionamentos que vêm da pintura, ela fala aos olhos de quem sabe ver. A arte contemporânea fala sobre si mesma, mas, subliminarmente, traz denúncias, questiona.

Como foi sua trajetória artística?
Eu fui pintor nos anos 1980, participei da exposição “Como vai você, Geração 80?” na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, fiz individuais em importantes galerias e instituições da época. Após esse período, por conta da fotografia, da videoarte, das instalações, a pintura diminuiu e eu dei uma sumida.

Mas, em 2009, você participou da Bienal de Veneza.
Sim, e na bienal antropofágica, do Paulo Herkenhoff, eu também estive. Na verdade, deixei de fazer o circuito comercial e fazia exposições anuais, eram convites irrecusáveis, como o Faxinal das Artes, uma experiência residencial no Paraná em que um grupo de artistas ficava durante quatro semanas confinado numa vila.

Estar fora do circuito comercial foi importante para sua liberdade artística?
Muito importante, foi mais verdadeiro. Foi um período de interiorização, conhecimento, liberdade total, um tempo de me fechar no ateliê experimentando, lendo, sabendo que não tinha espaço para pintura. Nas poucas vezes que via pintura eu detestava, era muito ruim, chato, não tinha nada de novo. E havia ainda essa coisa de anunciar a morte da pintura, que todos anunciam. Hoje sei que a pintura não morre, o que mata a pintura são os maus pintores. Depois da virada do século, a pintura começa a respirar novamente.

Quais as próximas exposições?
Além da individual com meus trabalhos recentes na SIM Galeria e na Simões de Assis, vou ter obras num pavilhão de pintura que vai inaugurar em Inhotim e tenho um projeto para o Rio de Janeiro, que não posso comentar ainda.

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