© Cortesia Galeria Baró

Pioneiro de quase todos os movimentos da arte pós-1960, como land art, arte cinética, arte participativa e arte-vida, David Medalla nasceu em 1942 em Manila, nas Filipinas. Aos 12 anos, foi admitido como aluno especial na Universidade Columbia em Nova Iorque por recomendação do poeta americano Mark van Doren. Ali ele estudou teatro grego, dramaturgia moderna, filosofia e poesia. Conheceu de James Dean a Gaston Bachelard, incentivou e promoveu a arte de muitos, inclusive dos brasileiros Sergio Camargo, Lygia Clark e Hélio Oiticica. Dirigiu uma galeria e uma publicação nos anos 1960 em Londres, intituladas Signals, onde estes três artistas expuseram. Marcel Duchamp criou para ele uma medalha, ou “objeto medállico”, em referência ao nome do artista. Participou de exposições históricas como Live in Your Head: When Attitudes Become Form (1969), com curadoria de Harald Szeemann, e L’Informe (1996/97), com curadoria de Yves-Alain Bois e Rosalind Krauss. Em 1994, fundou com Adam Nankervis, em Nova Iorque, o Mondrian Fan Club, que desembarcou em 2010 em São Paulo em uma mostra de porte na galeria Baró, onde ocorreu a conversa a seguir com a revista Dasartes.

Você pode falar do pavilhão que concebeu para sua exposição em São Paulo?

Eu chamo esta obra de “Pavilhão Flutuante Matisse e Mondrian”, porque minha ideia é transformá-lo para flutuar em um lago. Ao entrar no pavilhão, encontram-se seis bancos, um é sobre a vida, outro é sobre a arte, amor, memória, desejo e sonho. A pessoa escolhe onde quer se sentar e reflete sobre aquele tema, podendo passar de um banco ao outro. No centro do pavilhão, encontra roupas para vestir, feitas com padronagens e arabescos, porque Matisse amava o arabesco. Ele amava as coisas do terceiro mundo. Acho que nunca pôde vir para a América Latina, mas esteve na África do Sul, no Taiti. Uma pena que ele não tenha inspirado a arte brasileira: São Paulo foi realmente inspirada por Max Bill; e a arte carioca, por Mondrian. O que eu só fui descobrir vindo para cá, e que me fascinou, é que São Paulo é basicamente plana, e os artistas daqui preferiram um artista da Suíça; já no Rio, onde há muitas montanhas e colinas, eles preferiram o holandês Mondrian. Não é um tipo interessante de paradoxo de arte?

Você só conheceu o Brasil agora?

Vim pela primeira vez em 2000. Esta é uma curiosidade da minha vida: em 1960, eu estava em Londres e encontrei uma biblioteca não longe de onde morava que estava quase sempre vazia, onde trabalhava uma bibliotecária portuguesa que tinha precisado escapar de Portugal por causa da ditadura. Ela me emprestava livros portugueses e brasileiros traduzidos, e assim eu li Eça de Queiroz, Camões, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, e tudo sobre o Movimento Antropofágico, de modo que eu nunca tinha vindo ao Brasil, mas conhecia muito de sua literatura. Quatro anos depois, quando conheci Sergio Camargo, ele se surpreendeu que eu soubesse tanto sobre a literatura brasileira, e mais ainda quando eu disse a ele que ele era o primeiro brasileiro que eu conhecia. Gosto desta ideia…

… de ter primeiro criado um país imaginário antes de vir a conhecer os brasileiros ou o Brasil?

Sempre se tem uma imagem do Brasil porque Carmen Miranda – e ela era portuguesa, que é outra coisa interessante – construiu uma imagem daqui de que eu vou sempre gostar, com abacaxis, bananas e todas as frutas, além de ter criado canções bonitas como “Mamãe eu quero” [Medalla cantarola em espanhol].

E por que vocês quiseram homenagear Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape na exposição em São Paulo, incluindo uma obra de cada um deles na mostra?

Eles gostavam muito de Mondrian… Quando eu encontrei a Lygia [Clark] em Paris, ela comentou que amava Mondrian. Contou que cresceu em uma família católica de Belo Horizonte, e sua irmã e ela usavam crucifixos no pescoço. Eram moças muito bonitas e, com o clima quente, usavam vestidos sensuais, então os homens as viam e queriam se aproximar, mas quando chegavam perto viam o crucifixo e desistiam. “Isso era tão frustrante”, ela reclamava, e então, quando descobriu Mondrian, maravilhou-se por sua obra conter cruzes que não lhe dizem para não se aproximar.

É uma forma bastante pessoal de se aproximar de uma obra de arte…

Ela era muito pessoal. Durante dois anos nos encontrávamos diariamente em Paris e, com frequência, andávamos pelas ruas achando objetos que ela transformava em obras de arte.

Em que ano foi isso?

Foi em 1966, porque sua estadia na Cité des Arts, em Paris, foi depois da ida à Bienal de Veneza, e ficamos mais amigos depois que voltei de uma viagem pela Ásia e pela África. Nessa altura, ambos falávamos francês fluente e pudemos até inventar piadinhas. Um dia, quando assistíamos a um jogo de futebol na TV, ela comentou: “gosto de futebol, mas prefiro rúgbi, porque os homens se enfrentam, chocam-se uns com os outros”. Eu respondi que gostava de um jogador brasileiro chamado Rivelino, e então saímos pelas ruas de Paris gritando “Rivelino, Rivelino!!”, fazendo provavelmente as pessoas se perguntarem “quem são esses malucos?”.

Do que você gostava na arte de Lygia Clark?

O que eu mais gosto, na arte e na vida, é dos paradoxos, que por vezes se expressam de forma muito material. É o caso da obra de Lygia Clark: quando ela pega um saco plástico, sopra ar dentro dele e coloca uma pedra sobre o plástico fechado [Pedra e Ar (1966)], é simplesmente fantástico, porque a respiração dela está na verdade sustentando uma pedra pesada. Esta é uma obra realmente paradoxal, que eu considero uma obra-prima. Em 2000, no Rio de Janeiro, eu fiz uma homenagem ao Hélio Oiticica que tem relação com essa obra da Lygia: pedi a pessoas na praia de Copacabana que pusessem sua respiração em uma estrela dourada inflável e nós a fizemos voar por toda a cidade.

Mondrian in Excelsius [fotografia de um close-up de um homem vestindo um calção mondrianesco] foi feita no Rio? Quem está vestindo esse Mondrian?

O Adam [Nankervis]. Mondrian gostava apenas de linhas verticais e horizontais. Claro que a vertical representava o masculino para ele, mas Theo van Doesburg dizia “não, não, o masculino é a diagonal”, então ele e Mondrian deixaram de ser amigos por causa disso. Enfim, eu desenhei este calção e nós fomos para Fire Island, que é um lugar onde os gays se reúnem no verão, e lá nós criamos um tipo de jogo. Não se vê na fotografia, mas algumas pessoas estavam do lado direito do Adam e outras do lado esquerdo, e elas podiam apostar de um a dez dólares se sua ereção apontaria na diagonal ou na vertical.

E quem ganhou?

Isso foi engraçado, porque às vezes as nuvens encobriam o sol e ficava um pouco mais frio e a turma da vertical ganhava, mas logo esquentava um pouco e os que haviam apostado na diagonal reclamavam o dinheiro, então eu ficava levando o dinheiro das apostas de lá pra cá. Uma das ampliações desta imagem foi comprada por uma estilista muito famosa, Agnès B., que também é patrona de cineastas como Kenneth Anger e Quentin Tarantino. Ela pendurou a fotografia acima de sua cama e, como eu tenho dois amigos escultores que foram seus amantes, perguntava a eles: “foi vertical ou diagonal?”.

E como foi a experiência em Foz do Iguaçu?

Pensamos que tirar o “A” de São Paulo seria uma bonita homenagem a ele e também à cidade, uma vez que Mondrian tirou um “A” de seu nome holandês, Mondriaan [a exposição na galeria Baró chamou-se The Secret History of Mondrian Fanclub – Part 3: So Pulo]. Foi este “A” que levamos à Foz do Iguaçu para uma oferenda simbólica, porque não poderíamos lançar de fato a coroa de tulipas em forma de “A” nas cataratas. A ideia por trás desta ação partiu da noção de que os europeus levaram tudo da América Latina, então já é tempo de eles darem algo de volta.

E por que você decidiu criar um fã-clube justamente para Mondrian, quando tantos outros artistas foram também importantes para você?

Primeiro, porque vi sua obra aos 12 anos, quando fui viver em Nova Iorque. Foi no MoMA, onde Broadway Boogie-Woogie estava exposta na mesma sala onde havia um Matisse, e gostei dos dois artistas simultaneamente. Depois, porque quando morei na Europa, conheci várias pessoas que conviveram com ele, como Winifred Nicholson, que foi sua melhor amiga e quem o levou à Inglaterra, e também Naum Gabo e Marcel Duchamp, então meu conhecimento dele foi bastante pessoal. Outra referência importante é a dança; acho interessante que tanto Mondrian quanto Matisse tenham se voltado, nas séries finais que produziram, ao universo da música e da dança. No caso de Broadway Boggie-Woggie, de Mondrian e Jazz, de Matisse, são dois europeus brancos que nunca se conheceram e que, no final da vida, são influenciados pela cultura negra, que, naquele tempo, era considerada de segunda classe. Não é interessante? Mais um fascinante paradoxo da arte e da vida.

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