Das Viagens, dos Desejos, dos Caminhos

Museu Vale

© Aiê Cinema

A rua vicia (ou não entre sem convite)

No livro Identidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman cita Wittgenstein pela curiosa declaração de que os melhores lugares para se resolver problemas filosóficos são as estações de trem. Justamente por se posicionar no que Derrida chamava de “encruzilhada cultural”, as estações são lugares de chegadas e despedidas, intimidades e distanciamentos, essenciais para a transgressão das fronteiras, para enxergar a humanidade que existe por trás das fachadas morais e culturais.

Coincidência ou não, estou dentro de um vagão no museu Vale em franco embate com a questão da identidade, que me é arremessada depois de visitar a exposição Das viagens, dos desejos, dos caminhos. Aberta de 29 de agosto a 2 de novembro, a coletiva desenha as trilhas de nove artistas das regiões Norte e Nordeste. São eles: Armando Queiróz (Pará), Jonathas de Andrade (Alagoas), Karim Aïnouz (Ceará), Leonilson (Ceará), Marcelo Gomes (Pernambuco), Marcone Moreira (Pará), Rodrigo Braga (Amazônia), Virginia de Medeiros (Bahia) e Yuri Firmeza (Ceará).

Entre deslocamentos, memórias, distanciamentos e desejos, o espectador é convidado a se movimentar – e se reorganizar – em torno de sua própria identidade, ainda que seja sob a forma de uma interrogação: qual identidade? Pois um prato de farinha me representa, assim como o dia em que reconheci firma no cartório, em uma Recife que nunca morei, no ano de 1977, quando eu ainda nem existia. O diário dos dias do outro poderia ter sido o meu, assim como o banho de piscina, o passeio na praia, a foto da casa, os amigos, as ondas e o beijo. A bandeira ostenta o signo maior que reúne a identidade de todos nós. Pátria-mãe que nos carrega no colo, e por muitas vezes não nos faz dormir em paz.

Estar deslocado – carente de uma identidade – ou mesmo permitir que essa flutue e suma por alguns minutos pode ser altamente desconfortável. Segundo Bauman, nesse estado “sempre há alguma coisa a explicar, desculpar, esconder ou, pelo contrário, corajosamente ostentar, negociar, oferecer, barganhar”. Os territórios são vastos, as pessoas mais vastas ainda. Ainda precisamos de uma parcela de chão onde desenhamos limites, algo que nos dê contorno e conforto, uma busca por redenção ou um descanso na sensação de pertencimento.

O depoimento do morador de rua é a porta aberta para seu olhar pintado à mão de uma maneira nostálgica. No percurso, é preciso estar atento ao ponto do doce de banana. Ouvir o grito desabafado de um homem e os sapatos escondidos sob uma montanha de sal. Pontes, navios e uma Kombi que conta histórias do boi tatá. Nessa hora eu já nem me reconheço, e aquela avó, que ri como uma criança e repete uma prosa bonita – a única que poderia lembrar – é também a minha. Encontrar a vida que eu desconhecia em um museu do homem do Nordeste resume a perturbação que os lugares de passagem proporcionam.

O que aparentemente poderia ser tratado como arquivo pessoal dos artistas transcende o lugar de memória para expor os vazios, a liga que faz o visitante se desconhecer para se identificar, e depois se reconhecer para ser perder. Como no depoimento de Maria da Penha, de 44 anos: “a rua não é um lugar bom, não, mas vicia.” Se for assim, somos todos da rua, mas, como sempre há uma condição, não entre sem convite.

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