© Diálogos 1a

A menina da mala

Conheci Daniela Mattos no extinto Rés-do-chão, espaço capitaneado por Edson Barrus que, mergulhado no florescimento da proposta dos coletivos de arte (começo dos anos 2000), resolvia fazer do seu apartamento, na rua do Lavradio, Rio de Janeiro, um hangar. Entre happenings, performances, pequenas instalações, comidas, encontros e desencontros; artistas, não artistas, “un-artistas” se encontravam para algumas conversa, uma quantidade considerável de festas e um desejo ímpar de discutir e produzir arte dentro de um cenário que parecia fervilhante e, paradoxalmente, instável. Naquele momento, a ideia de uma arte engajada na discussão dos sistemas de legitimação e nas possibilidades de fratura e fissura dessas lógicas interessava aos artistas e construía uma preocupação legítima de mobilização e manifestação de outros modos de funcionamento que não apontavam com o dedo em riste para um problema específico, mas buscavam produzir de maneira panóptica outras possibilidades e válvulas de escape.

Conheci-a assim. Quando alguém me chama para ver uma performance que acontecia na sala. Ela saía de uma mala. Achei curioso. Achei antigo. Ela saía da clausura como se reinventasse mais algum vento (para além do ar). Como se marcasse muito claramente que ali surgia a experiência de redescoberta da respiração poética de outra pólis. Uma micropólis. Uma ínfima-cidade-estado-mar que nascia dentro de cada indivíduo em cada encontro e em cada desejo. O sair físico da mala me remeteu àqueles números de contorcionismo, a um universo perdido de uma memória recente do corpo meu, do duplo corpo, da mulher borracha, de um circo perdido em mim onde a artista, em sua presença, fazia-se surpresa e milagre.

O fora da linha

A partir de então, a amizade surge. Estreita-se. Prolonga-se. E, em um breve espaço de tempo, na exposição Posição 2004 (realizada no parque Lage com o desejo de reavaliar e revisitar a herança dos vinte anos da paradigmática Como vai você, geração 80?), vejo aquela mulher toda de branco e repleta de flores de crochê presas ao vestido (Diálogos 1A – Série Diálogos, 2003). A um eventual espectador, após o encontro com aquela presença, uma flor era entregue. A artista olhava nos olhos através daquele que a mirava e, em um golpe rápido, num gesto-corte, virava-se de costas e ia embora; como se soubesse que o devir do encontro é também o desfazimento e a despedida, enquanto a flor tal se desfazia (em virtude do ponto aberto de sua construção) e voltava a ser linha. Traço. Memória. E, ainda presa ao vestido, fazia de sua presença-gráfica, com outras tantas flores já desfeitas, um amontoado de convivência de linhas outras, de tantos desfazimentos, de tanta desconstrução que o ir-se para lá do encontro provocava. As linhas surgiam então como uma névoa de memória. Como uma metáfora precisa sobre o exercício de diálogo ao acaso, do desejo instantâneo do possuir e da partida inevitável do indizível. Ao espectador restava apenas a lembrança da imagem daquilo se desfazendo e do fetiche-propulsão de tentar agarrar o incapturável da poesia ampulheta da vida.

Talvez ali tenha entendido que o trabalho de Daniela Mattos alimenta um desejo de ação que tem o corpo como suporte que se deixa atravessar pela poética e pela efemeridade particular que nasce entre o desejar e o não-mais-querer, frutificando-se em figura furtiva de poesia “un-física” (eventualmente, escrita). De palavra que se compreende pegada (na terra) de um existir ali, no núcleo vivo da ação, revelando-se cadafalso. Apesar disso, dessa consciência do lastro do humano, da máscara construída pelo corpo-armadura, não há, nesse caso (e no desejo que erige a trajetória de fraturá-lo), drama algum. Seu trabalho não se deseja partidário de uma herança performo-traumática do corpo como arena e luta. Trata-se de outro caminho lírico-físico e sem desejo de posse. Corpo-literatura. Corpo-vídeo. Corpo-fotografia. “Transcorpo” como “transamba”.

Em alguns trabalhos da série Diálogos, essa dupla consciência instaurada do colocar-se diante da finitude da relação (inclusive, a maior e mais densa: entre o humano e a sua vida) é revelada ao espectador de maneira muito tênue, para que, sem sofrimento algum, a ação recomece com outro participante. Como se houvesse um gozo potente na anulação da angústia da partida e no reconhecimento do jogo bordado como prática infinita entre o eu e o tu. Observe atentamente. Nesse sentido, o trabalho de mais de dez anos da artista demarca um terreno importante dentro das Artes Visuais no Brasil, que prima pela delicadeza e tem consciência da inutilidade da ação que se pressupõe visceral na sua fé no puramente físico, assumindo o gesto como processo de acontecimento natural. Um gesto primeiro (nada primitivo) que se projeta na atmosfera para erigir a leveza abismal entre a arte e a vida. Puro reflexo. Memória.

O espelho

Os dois espelhos que surgem como objetos autônomos Arte/Vida, 2002/2012, ou em performance Make Over, 2006/2015; cada um com uma das seguintes palavras escritas em batom ou em esmalte de unhas: arte e vida, refletem no espaço, na parede e/ou no espectador seu duplo, seu avesso e traduzem, em certa medida, muito do devir do trabalho da artista. Levantando uma pergunta, instaurando uma dúvida (e dívida) acerca das fronteiras poéticas entre os dois eixos, revitalizando o legado de tal conjunção (já provocada nos anos 1960) e assumindo a certeza-cicatriz de serem sempre outro enquanto imagem esboçada; auxiliando a diminuição da angústia de saber que tal aderência histórica é apenas resultado de uma detecção temporal nada inóspita que constata a relação de aproximação e distanciamento que sempre os atravessou. E que aqui, juntos, descobrem o florescimento poético de sua utopia inerente: serem o resultado de um desejo jamais estabelecido de captura e de permanência de suas pulsões e de suas marés elétricas.

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