© Os Anos Possíveis, 2014

DASARTES 39 /

Daniel Jablonski e Luisa Crossman

Os Anos Possíveis (2014) foi a obra apresentada por Daniel Jablonski na mostra final do Programa de Artistas da Universidade Torcuato di Tella, de Buenos Aires. A célebre residência é um importante chamariz da arte contemporânea, na medida em que funciona como uma chancela legitimadora de novas gerações de artistas e curadores sul-americanos. Partindo de […]

Os Anos Possíveis (2014) foi a obra apresentada por Daniel Jablonski na mostra final do Programa de Artistas da Universidade Torcuato di Tella, de Buenos Aires. A célebre residência é um importante chamariz da arte contemporânea, na medida em que funciona como uma chancela legitimadora de novas gerações de artistas e curadores sul-americanos. Partindo de um evento-chave – a seleção dos aprovados naquele ano –, o trabalho problematiza a noção de “geração”, ao mesmo tempo em que propõe alternativas aos mecanismos de mediação que a fabricam.

Dispondo apenas do número total de inscritos, Daniel, em colaboração com um curador e um programador convidados, desenvolveu um método capaz de gerar outras listas de selecionados, diferentes da apresentada pelo processo seletivo oficial. A ideia era pensar “a instituição contra si mesma”, isto é, como “uma potência na criação de outras histórias possíveis, inventando ou revelando outras gerações de artistas paralelas à atual”, afirma o artista. Mas, desta vez, o processo deveria eliminar completamente qualquer julgamento, substituindo “o arbitrário das relações humanas pelo aleatório da natureza”. Nesse sentido, a seleção, que antes resultava de escolhas políticas, torna-se agora resultado do puro acaso.

Para isso, foi preciso sair da cidade em busca do “ruído branco”, uma combinação de frequências aleatórias que não obedecem a qualquer padrão. Com a ajuda de uma antena e de um receptor caseiros para captar o fenômeno, e de um programa de computador criado para interpretar visualmente o chiado, foi possível gerar milhares de seleções diferentes. “Com uma antena, sair da linguagem e do sentido. Com um botão, gerar uma geração. Com uma lista aleatória de números, criar uma mostra no interior da mostra”, explica Daniel. O projeto incluía ainda a criação do catálogo de uma exposição imaginária, feito em colaboração com os artistas e curadores sorteados na primeira lista. No entanto, a Reitoria da Universidade se negou a fornecer os dados dos inscritos.

Os vestígios da experiência – a antena, as imagens da captação, o programa de computador, a primeira lista gerada, e-mails enviados à Reitoria – deram origem a uma instalação. São rastros que compõem uma espécie de reescritura ou narrativa extraoficial da história do Programa de 2014. Assim, fazendo uso do próprio aparato institucional para propor alternativas à instituição, Os Anos Possíveis apresenta a potência de gerações inexistentes e a latência do que não foi visto e do que não foi dito.

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