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DASARTES 39 /

Coleção Bettiol

COLEÇÃO BETTIOL Em um bairro isolado de Brasília, esconde-se um tesouro da arquitetura brasileira: uma casa de Zanine Caldas, construída com toras de madeiras raras e vidro, que se debruça sobre a vista do lago Paranoá. Entra-se nela por uma passagem rodeada por um peculiar jardim de madeira – criado por Betty e executado por […]

COLEÇÃO BETTIOL

Em um bairro isolado de Brasília, esconde-se um tesouro da arquitetura brasileira: uma casa de Zanine Caldas, construída com toras de madeiras raras e vidro, que se debruça sobre a vista do lago Paranoá. Entra-se nela por uma passagem rodeada por um peculiar jardim de madeira – criado por Betty e executado por seu marido, cujo hobby é a marcenaria. Logo, outros tesouros começam a surgir – uma tela de Glauco Rodrigues retratando a primeira missa, que o próprio artista copiou para presentear o papa João Paulo II a pedido da então primeira dama Dulce Figueiredo; uma cabeça em pedra de Alfredo Cesciatti que serviu de estudo para um dos anjos da Catedral. Essas são só algumas amostras de uma coleção rica e ampla, que o casal Luiz Carlos e Betty Bettiol começou a adquirir nos anos 1960, e que os levou aos mais distantes rincões do país. Essa charmosa história de paixão pela arte é contada em entrevista exclusiva por Betty.

POR LIEGE JUNG

FOTOS TETÊ LIMA

COMO COMEÇOU SEU RELACIONAMENTO COM A ARTE?
Nossa coleção aconteceu sem um projeto ou uma proposta definida. Quase por acaso. Mais tarde, contamos com a cumplicidade de Oscar Seraphico, nosso amigo e marchand pioneiro em Brasília. Seu entusiasmo só não era maior que o nosso. Vibrávamos a cada nova aquisição e pouco a pouco nossa casa se converteu em uma espécie de polo de convergência e irradiação do movimento artístico em Brasília. Hospedávamos os artistas que visitavam ou expunham em Brasília, apresentávamos aos poucos colecionadores e interessados que conhecíamos, muitos deles formados pelo Oscar. Lembro-me de Ianelli, Tomie Ohtake, Rebolo, Bonadei como nossos amigos desde a década de 1970.

E COM A ARTE POPULAR?
Eu e Bettiol sempre tivemos paixão pela aviação. Em determinado tempo da vida, quando os meninos já estavam grandes, decidimos tirar o brevê e comprar um aviãozinho. Começamos a voar pelo Brasil afora sem qualquer critério, escolhendo lugares a esmo, descendo às vezes em regiões onde sequer havia uma pista homologada. Vimos outro Brasil que desconhecíamos e desconhecido de muitos brasileiros. A arte popular brasileira que temos fomos buscar em Brumadinho, Xique Xique de Iguatu, no Jequitinhonha, em Lençóis, em Prados e muitas outras cidades de que você nunca ouviu falar.
Tive o privilégio de conhecer muita gente boa e talentosa. Talento é talento, não tem como tirá-lo de quem o tem, de um simples homem do campo que pega na enxada durante o dia para plantar milho e à noite transforma um simples pedaço de pau em uma obra de arte. Artistas sem instrução, sem educação formal, sem recursos, distantes de tudo e de todos, perdidos no fim de mundo, mas artistas autênticos e verdadeiros. Arte é isso mesmo: uma engrenagem dentro de cada artista capaz de gerar as emoções mais diversas.

TEM TAMBÉM UM POUCO DE ARTE INDÍGENA
Infelizmente, a motosserra e a ocupação desordenada estão cada vez mais presentes desequilibrando tudo, mas, graças a Deus, eu já vivi o suficiente para conhecer criações indígenas maravilhosas. Mais recentemente, em 2010, subimos o rio Negro em um barquinho para ver arte indígena e confesso que foi um pouco decepcionante, pois já tinha muito Tupperware (risos), já não era tão autêntico. Agora os índios estão nas faculdades, aprendendo. O que de útil eles vão aprender e levar para suas comunidades eu não sei, pois creio que eles têm muito mais a ensinar que a aprender.

E COMO VÊ O FUTURO DA COLEÇÃO?
Agora está mais complicado para continuar a coleção de arte popular, pois as obras estão mais caras. Claro que foi ótimo para esses artistas serem descobertos pelo homem da cidade grande. Ganharam fama, reconhecimento público e até mesmo a consagração internacional, mas tudo ao preço de algumas concessões comerciais sem que se libertassem das modestas condições em que viviam. Tínhamos com esses artistas populares uma relação de amizade. Bom exemplo foi D. Izabel de Sant’Ana do Araçuaí, nossa amiga até morrer no ano passado; ou Adão, a quem socorremos depois de uma enchente comprando uma peça pelo valor que ele precisava para refazer o telhado.
E fico feliz por ter comprado, porque vejo que a arte popular brasileira tem um futuro incerto. Os jovens não querem mais morar na cidadezinha do interior, não têm interesse em seguir as tradições dos pais, e essa arte está se perdendo. Claro, tudo mudou, e muda mesmo. Não podemos manter tudo como era ou como está, mas é preciso manter as raízes, as tradições, ainda que em uma releitura.

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