© Acauã Fonseca

Regina é a figura por trás do Instituto de Cultura Contemporânea, o ICCO, uma organização dedicada ao fomento à arte, em especial à promoção da arte brasileira no estrangeiro. Este é um projeto pessoal da colecionadora, fruto de uma longa paixão pela arte, que transbordou o ato de colecionar e a levou a pôr a mão na massa e buscar soluções para as lacunas do nosso sistema de produção cultural.

Como começou seu relacionamento com arte?

Vem de família. Meu pai já colecionava nos anos 1970, sempre me levava aos Panoramas do MAM e a ver arte. Eu achava que cuidaria dos negócios da família, mas aos 18 anos fui trabalhar na área de projetos culturais no SESC, inclusive ajudei a coordenar a abertura do SESC Pompeia. Alguns anos mais tarde, fui trabalhar com a galerista Regina Boni. A essa altura já tinha muitos amigos artistas e me envolvi ainda mais neste circuito. A Regina, já no final dos anos 1980, era muito contemporânea. Fez a exposição dos Metaesquemas, do Oiticica, da Leda Catunda, expôs os “paninhos” do Leonilson quando ninguém queria saber daquilo. Era um mundo pequeno, eram happenings, as coisas aconteciam, era muito alegre, muito animado. Infelizmente, não tinha dinheiro para comprar arte na época. Na verdade, eu quase não tinha dinheiro, porque meu pai queria que eu vivesse com meus próprios meios e, quando a coisa apertava, a Regina achava que dava para pular meu pagamento porque eu não precisava (risos). Mas eu amava aquilo e fazia com gosto. Depois ainda fui consultora de arte, apesar de não ter muito talento para vendas, e ainda fui assistente da Amélia Toledo, sempre envolvida de alguma forma com arte.

E quando começou a colecionar?

Mais ou menos quando passei a trabalhar como consultora, mas muito do que comprava acabava vendendo, não era muito séria ou dedicada a colecionar. Depois vai virando um vício. Hoje tenho medo de entrar em feiras, porque sei que me empolgo e acabo me comprometendo sem pensar em como pagar.

Como você compara essa época com os tempos de hoje?

As coisas mudaram muito. Hoje você precisa de mais dinheiro para colecionar. Imagine que comprei uma obra de Emanuel Nassar na primeira ArtRio por R$ 22 mil, enquanto cobram isso por um pintor que acabou de sair da faculdade. Algumas galerias, como a Vermelho e Leme, trabalham isso bem, querem que o colecionador tenha mais de uma obra do artista. Mas se uma obra custa R$ 50 mil, fica difícil comprar mais que uma. Para os artistas também mudou muito, em algumas coisas para melhor. Naquela época, quase ninguém era artista profissional, todos tinham outros trabalhos que pagavam as contas. Com as galerias também, era comum uma galeria pegar trabalhos de um artista para experimentar; hoje em dia a galeria se interessa pelo artista e já falam em contrato. Antes não existia o mundo, isto mudou muito com o começo das feiras internacionais. Existia mais rivalidade entre os galeristas, eram poucos os colecionadores e muito disputados.

Acha que isso ajudava os preços a ficarem mais baixos?

Claro. São muitos fatores que ajudavam. Um deles é que o Brasil era fechado e, para mim, o ponto de virada foi a criação da Bienal de São Paulo, em 1951, até hoje a segunda mais importante do mundo. Começamos a ver o que era produzido lá fora e a mostrar para o mundo nossos artistas, nós que antes tínhamos preconceito até com quem era de Recife (risos). Foi um choque para muitos artistas. Lembro o quanto o Weissman se impressionou com a Unidade Tripartida, do Max Bill. Antes havia a ditadura do modernismo, a Bienal foi o divisor.

Como surgiu a ideia do ICCO?

Na verdade, o ICCO começou sem que eu tivesse uma ideia clara do que seria. Eu estava saindo de uma parceria com a Galeria Virgílio, sem ideia de que rumo tomar, e as coisas foram acontecendo. Por sorte, encontrei pessoas competentes que gostaram do projeto e me ajudaram a buscar profissionalização, um conceito, a colocar em prática um modelo de gestão e ter mais foco. Meu trabalho é ser a entusiasta, como sempre fui. Focamos em apoiar artistas a fazerem residências e mostrarem seus trabalhos fora do Brasil, publicarem livros e outras ações que já formaram um bom portfólio. Sinto que é uma tendência entre os colecionadores, alguns já pensam em tornar suas coleções públicas, atuar de outras formas em arte sem ser apenas comprando. É um caminho que está se abrindo.

Compartilhar: