© Claudio Edinger

“Este é o século da fotografia no Brasil – aguarde e verá”. Cláudio Edinger se prepara para ocupar os salões do Museu da Imagem e do Som em São Paulo, entre os 4 de maio a 24 de junho. A mostra, com curadoria de Leonel Kaz, é parte integrante do 15º livro do fotógrafo carioca radicado em São Paulo e vai apresentar 40 fotografias verticais de 146 cm x 176 cm, feitas com uma câmera de grande formato. Os trabalhos – que trazem a marca registrada de Edinger, o foco seletivo – são parte de um mapeamento nacional que o fotógrafo desenvolve desde 2000, com o intuito de responder, com imagens, à questão da identidade nacional.

De Bom Jesus a Milagres foi uma viagem de imersão pelo sertão da Bahia em companhia, em sua última etapa, do fotógrafo Alberto Melo Viana. Os dois conheceram as cidades de Vitória da Conquista, Rio do Antonio, Bom Jesus da Lapa, Rio de Contas, Jussiape, Mucujê, Ibicoara, Itaetê e Andaraí, registrando o seu dia a dia e conhecendo os costumes locais. O resultado poderá ser visto no MIS-SP – a finalização de um processo levado a cabo por Edinger usando uma câmera analógica de grande formato e, posteriormente, pela revelação das imagens, um processo delicado, demorado e autoral.

“Ainda há lugar no mundo para a fotografia analógica. Há lugar pra tudo: fotografia de Iphone, de Hasselblad, de câmeras micros, tridimencionais, câmeras obscuras, pinholes, e o que mais forem inventar. Está tudo começando, o tsunami fotográfico vem aí – os fortes ventos já começaram”, diz ele.

Fotografar o dia a dia dos moradores de pequenas cidades é apenas um reflexo do que, nas grandes cidades, todo mundo faz, a qualquer hora. “Segundo Edinger, a fotografia hoje faz parte do ser humano como nunca antes. Walter Benjamin disse, na primeira metade do século XX, que no futuro o analfabeto não é quem não sabe ler mas quem não entende o que é uma foto. O futuro é agora e existe uma revolução de linguagem onde nada mais pode ser dito sem uma foto – é só ver as redes sociais que não param de crescer, se alimentando do que vemos. À medida que sofisticamos nosso olhar a produção imagética se acelera. Todo dia vejo trabalhos fotográficos novos extraordinários – e estamos só começando.”

Com seu 15º livro em mãos, Claudio Edinger lembra o início da carreira: “Nos anos 1970 eu era um jovem em busca de identidade e a fotografia me ajudou a encontrá-la. Descobri que meu lugar era procurar meu lugar, através de imagens, primeiro do edificio Martinelli (em 1975) o primeiro arranha-céu da America Latina (onde o dono morava no último andar pra provar que o prédio não ia cair) e que mais tarde, depois da segunda guerra, foi se transformando numa favela vertical. Todos os elementos essenciais da urbanidade reunidos sob o mesmo teto. Depois morei dois anos com os judeus ortodoxos em Nova York e no Hotel Chelsea, no fim de década de 70. Foi uma época formativa onde a base do que faço hoje foi criada.”

Para Edinger, mais do que registrar o que vê, seu trabalho o ajuda a guardar o que não se pode enxergar

Segundo ele, ainda há muito a registrar – o que pode ser comprovado nessa exposição. “Cada olhar novo enxerga o que nunca foi visto antes. À medida que esses novos olhares vão amadurecendo, sofisticando-se, as imagens vão aparecendo, maravilhosas. Já está acontecendo. Eu morava em Nova York na década de 1980 e 1990 e ouvia muito. ‘Tudo já foi feito, tudo já foi fotografado…’ É hilário ouvir isso. A cada dia cruzamos com novas pessoas nas ruas, cada uma carregando experiências próprias, ideias próprias. O que cada um faz com o conhecimento, com o estudo, com a cultura que tem, é impossível prever. Mas uma coisa é muito clara: cada dia as imagens vão ficar melhores e mais interessantes.

Para Edinger, mais do que registrar o que vê, seu trabalho o ajuda a guardar o que não se pode enxergar: serve como reflexão, memória, encantamento, através da luz e da preocupação do fotógrafo-autor. “Adoro imagens nas quais reconheço o traço único e inequívoco do autor e é isso que procuro quando faço minhas pesquisas, meus projetos. É meio que uma maneira do fotógrafo se descobrir, de descobrir suas limitações, de descobrir o mundo, e de trocar ideias e vivenciar e comparar suas próprias memórias através dos outros. Uma imagem recebe um aumento de significado, como uma nova descarga de energia, quando outro a vê. É um processo fenomenal, terapêutico, mágico. Fotografia é vudu puro. É o gênio que sai da garrafa. Não tem como colocá-lo de volta e só ele sabe o que pode fazer.”

O Brasil está recebendo grandes exposições de fotógrafos renomados (Edward Steichen, Robert Doisneau, André Kertesz, Antanas Sutkus, Brassai, Hans Gunter Flieg) e o lugar do brasileiro está garantido nas mostras de fotografias mais aguardadas de 2012. Este é o ano da fotografia do Brasil?

“Este é o século da fotografia no Brasil. Não é à toa que um dos inventores da fotografia (Hercules Florence) morava aqui. É muito simbólico isso. O Brasil é o país ideal para a fotografia. Adoramos novas tecnologias. Adoramos engolir arte de fora e cuspir a nossa. Somos um povo absolutamente criativo. Como cada um agora tem seu laboratório fotográfico próprio, na palma da mão, vamos nos educar rapidamente. Antigamente fazíamos uma foto, ela tinha que ser revelada, ampliada, demorava dias até escolher a imagem final, que sairia publicada, sabe-se lá quando. Hoje ela sai publicada – no Facebook, no Instagram por exemplo – na hora, em frações de segundos. O processo acelerou-se demais, os talentos vão se desenvolver muito. Teremos enfim uma arte de primeiro mundo no país. Aguarde e verá.”

 

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