© João Liberato

DASARTES 37 /

Cícero Alves: nada será como antes

Véio

A escultura de Cícero Alves dos Santos, mais conhecido como “Véio”, move-se em duas direções básicas: a) as peças maiores, em que troncos, galhos e raízes têm uma presença decisiva e nas quais Cícero intervém apenas pontualmente – seja esculpindo ou pintando –, com a intenção de tornar mais explícitas as figuras e formas que vislumbra naqueles elementos naturais que ele chama “madeiras abertas”; b) o segundo grupo, formado em geral por entalhes em pequenos pedaços de madeira (as “madeiras fechadas”) totalmente tomados pelas figuras em que se transformam. As consequências nefastas da dominação sobre a natureza se fazem notar na própria escala dos objetos: quanto maior a intervenção humana, menor a força e potência dos seres que resultam dela; ainda que esse aspecto acentue sua grandeza estética.

A obra O primata é uma das melhores esculturas do primeiro grupo. A figura tem um movimento encantador. Seu corpo revela, ao mesmo tempo, desenvoltura e relutância. Há um humor matreiro em seu gesto, já que a atitude de atenção e prudência destoa da cor forte de seu corpo e de seus olhos injetados. Quase tudo nela é cuidadoso: do caminhar na ponta dos pés ao movimento esquivo, de quem se mostra discretamente e aos poucos. Para que a graça da escultura mantivesse o contato com o mundo vegetal, Cícero precisou fazer com que sua capacidade de identificar figuras nos pedaços de árvores e arbustos fosse reforçada por poucas e discretas intervenções.

O procedimento de identificar formas e figuras em objetos e ocorrências naturais (erosões, manchas, rachaduras, etc.) tem uma longa trajetória na história, das pinturas rupestres às experiências de Miró. Também na tradição da arte popular, essa é uma prática corrente. A capacidade de conferir dimensão artística a tais operações deriva, em boa medida, do talento para transformar vivências estritamente individuais em experiências inovadoras de alcance social, já que os rostos, ou montanhas que “vemos” em nuvens ou veios de madeiras, dificilmente podem ser compartilhados com outros indivíduos.

O grupo das figuras menores, propriamente esculpidas ou entalhadas, envereda por outras trilhas. A figura que entra pela porta do que parece ser uma casa, em um certo sentido, é a própria metáfora do que o artista chama “madeira fechada”. Nela, em vez de identificar figuras em um tronco, galho ou raiz, Cícero precisa “abri-la”: tirá-la da opacidade sem sentido por meio de uma operação de entalhe que confira à madeira um significado que vai para além dela, como coisa.
Mesmo essas peças, no entanto, mantêm uma estranheza, uma recusa a qualquer realismo pedestre. Afinal, qual o sentido do que estamos vendo? Segundo Cícero, a pessoa que entra seria uma visita. Um objeto de arte, porém, precisa significar por si mesmo, ainda que saibamos que essa significação (felizmente) tem uma pluralidade de sentidos possíveis, que varia com as épocas, os contextos e o público. E aí a porta entreaberta permite vislumbrar várias significações, da busca de um esconderijo à tentativa meio patética de abrir espaço em uma superfície.

Diante dos trabalhos entalhados de Cícero, tornamo-nos gigantes desajeitados, que observam os esforços vãos daquelas pequenas criaturas. Metaforicamente, somos os senhores de seu destino. Nós as fizemos e podemos destruí-las. A força artística dessas pequenas esculturas advém, em parte, de sua fragilidade. Não é, portanto, de estranhar que muitas dessas peças tenham uma natureza híbrida, formas ambíguas que podem ser a fusão desnaturada de animais diversos ou uma má-formação que impediu seu desenvolvimento. A obra Rasga mortalha, por exemplo, tem traços de coruja e orelhas de outro animal qualquer. E a solução escultórica que o artista lhe deu a transformou em um totem místico, como se fora um ser com poderes mágicos… do tamanho de um dedo.

O que une trabalhos tão diferentes, que em princípio têm em comum apenas seu criador? Nas obras maiores, há uma participação decisiva da imaginação para a escolha de partes de árvores, que, posteriormente, cortes, algumas escavações e cores levarão à produção de figuras muito singulares. Nelas, formas vegetais e animais se aproximam e se afastam permanentemente, em um processo de ambiguidade intencional, em que a vitalidade dos elementos vegetais potencializa a força dos outros seres, intensificando sua presença. Nas peças menores, as formas são obtidas a partir de uma ação totalmente planejada. Seu tamanho introduz uma interrogação relativa à natureza de ações que conduzem à redução das dimensões desses animais e coisas esculpidos. Talvez nas madeiras abertas a imaginação funcione mais do lado do artista, enquanto nas madeiras fechadas parece haver um equilíbrio entre a fantasia do observador e a do artista, ambas férteis e múltiplas.

Cícero Alves dos Santos não é apenas um dos grandes artistas brasileiros vivos, com uma vasta e diversificada produção cuja divulgação e recepção mais ricas sem dúvida ampliarão a potência de seu significado. Talvez estejamos diante de um artista que, por sua amplitude de visão, por viver em uma região em que os limites rígidos entre campo e cidade se tornaram matizados e, por se colocar propósitos ambiciosos (no sentido positivo do termo), finalmente rompeu com a divisão mais ou menos estanque entre arte popular e arte.
No Brasil, por motivos complexos, as relações entre arte popular e arte culta sempre foram ricas e ambíguas. Muitas vezes, produtivamente ambíguas. A nossa música que o diga. Outras vezes, como na Semana de 22, o resultado dessa aproximação, acredito, teve altos e baixos; muito produtivo para Mario de Andrade, mais problemático para Tarsila Amaral. Tenho a firme convicção de que Cícero Alves dos Santos mudou a natureza desses vínculos. E essa não é a menor de suas conquistas.

BOX DE SERVIÇO:

Cícero Alves dos Santos [Véio] – Esculturas
De 30 de outubro a 20 de dezembro

Galeria Estação
Rua Ferreira Araújo, 625 – Pinheiros – São Paulo – SP
www.galeriaestacao.com.br

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