© Christian Boltanski / Divulgação

Depois de realizar uma exposição na Casa França-Brasil em 2012, Christian Boltanski retorna ao Brasil para abrir sua nova exposição 19.294.458 +/-, no SESC Pompeia, entre 9 de abril e 29 de junho. O artista é conhecido por uma pesquisa visual que percorre o mundo desde os anos 1980, em especial devido às suas instalações em que articula, como diria Paul Ricoeur, “a história, a memória e o esquecimento”.

 

Em Os arquivos do coração, o público grava seus batimentos cardíacos e depois é convidado a escutar os batimentos gravados em diferentes países. Sobre esse trabalho e sua prática artística em geral, qual a relevância da ideia de “coleção”?

Primeiro, se você faz uma coleção, ela nunca é concluída. Colecionadores estão sempre insatisfeitos porque há algo faltando, e aí está a beleza de colecionar. Mas, para mim, não se trata de uma coleção, é mais um arquivo, e um arquivo também nunca se conclui. No entanto, é algo mais útil. Não é uma coleção de modo algum! Se o arquivo é sobre pessoas que usam jaquetas brancas no Brasil, é algo útil para a sociologia, para o design de moda. Algo como suíços mortos ou bebês poloneses, por exemplo, são matéria-prima para criar uma obra. Eu não coleciono fotos.

 

Colecionar é uma prática antiga, popularizada na Renascença com as Kunstkammers (gabinetes de curiosidades). Como a Internet, as redes sociais e a tecnologia avançada de registro digital podem afetar os conceitos de arquivamento e colecionismo?

Se você usa a Internet, não precisa colecionar nada, pois tem tudo nela, já está tudo colecionado. E o que há de terrível e belo nela: é a maior coleção do mundo, mas é tão grande que podemos nos perder e ter problema para encontrar o que queremos. Acho também que coleções são bobas. Colecionar por colecionar é algo totalmente bobo para mim. Nunca colecionei obras de arte, nunca colecionei coisa alguma.

 

Você vem viajando pelo mundo desde o começo de sua carreira. É difícil se relacionar com diferentes histórias locais e memórias ao redor do globo?

Eu sempre olho para uma obra da Ásia como uma obra da Ásia. Da primeira vez que expus no Japão, havia muitas obras com flores e os japoneses, muito educados, diziam “sua arte é tão japonesa, você é tão japonês; tenho certeza de que seu bisavô era japonês”. Eu gostaria que, quando fosse à África, alguém me dissesse: “sua arte é tão africana, você parece um africano”. Na verdade, acho que um artista não tem face. Seu rosto é como um espelho, quando alguém olha pra ele, diz “sou eu”, seja japonês ou brasileiro.

 

Sobre seu trabalho em São Paulo, 19.294.458 +/-, a descrição menciona o uso de listas telefônicas. Em 2002, as listas telefônicas foram base para a instalação Os assinantes do telefone. Por que retornar a esse material em uma cidade como São Paulo, 12 anos mais tarde? Acha que as listas telefônicas ganharam um novo status?

Hoje ninguém mais usa listas telefônicas, tornou-se algo antigo, vintage. Digo que minha obra deve ser feita usando e-mails, porque em poucos anos não haverá mais qualquer lista telefônica. Podemos acessar o nome de quase todo o planeta pelos computadores.

 

Nesse trabalho, o público poderá caminhar em uma plataforma pelo meio dos arranha-céus. Metaforicamente, acha que seu trabalho pode lidar com a memória de São Paulo de duas formas: a distância, de forma panorâmica, e também como um convite para observar as transformações históricas que a tornaram uma das maiores cidades do mundo?

Como eu disse antes, é, ao mesmo tempo, um trabalho sobre São Paulo e sobre o povo de São Paulo, com certeza, mas é também para dizer algo diferente. É uma obra minimalista, ou eu espero que seja, pois não tentei criar todos os pequenos detalhes, as pequenas janelas; quer dizer, tem o espírito, mas não é uma cópia da cidade. Espero que mais sentimental. Escolhi esse título por ele ser tão incrível, pois ele é sempre mais ou menos, está mudando o tempo todo.

 

Citando suas palavras: “Fazer arte não é dizer a verdade, mas fazer a verdade ser sentida”. Como você vem fazendo projetos no Rio de Janeiro desde 2013, quais são seus sentimentos sobre as “verdades” que experimentou no Brasil?

Quando eu estava trabalhando em A reserva dos suíços mortos, havia algo como 100 suíços mortos e um suíço vivo. Então eu disse a mim mesmo: “Se espero um pouco mais, o título será verdadeiro”. É só uma questão de tempo. O que é verdade e o que não é não são coisas simples. Sobre o Brasil, estive aqui apenas por duas semanas. Acho que é um dos países mais otimistas nos quais já estive. As pessoas podem pensar nele como um dos grandes países do futuro. Estive em São Paulo na Bienal, há uns 25 anos, e foi algo um tanto deprimente, devo dizer. E agora o Brasil está cheio de energia, cheio de jovens querendo mudar as coisas. Eu não sou uma pessoa muito envolvida em política, mas entendo que o Brasil tem bons políticos. Realmente, houve uma mudança no país, mas eu não cheguei a ver sua parte pobre.

Compartilhar: