© Na Obra de Adalto

DASARTES 04 /

Cesar Cunha Campos

Impulsivo, Paixao, Criterioso

Já na entrada da casa, deparamo-nos com uma estante de figuras de barro. São cenas do cotidiano, como o casamento, a procissão religiosa, a polícia prendendo um ladrão de galinhas, os bois. O que chama atenção nestas figuras é a textura lisa do barro, quase gasta, as cores terrosas, as linhas arredondadas das figuras humanas, típicas da arte nordestina. São obras de Vitalino, um dos grandes mestres da arte popular brasileira, raras por seu excelente estado de conservação e pelas cores, já que a maior parte de suas esculturas não era pintada. Mais adiante, outra estante expõe a coleção de muranos: vasos, jarros e esculturas em vidro soprados na cidade italiana, estranhamente atuais apesar de serem das décadas de 1950 e 1960. Ainda que o resto da casa seja pontuada por obras de Ivan Serpa, Artur Barrio, Anna Bella Geiger e outros, as obras populares brasileiras e os muranos são o xodó de Cesar Cunha Campos.

A primeira obra de arte que tive… foi um vidro do Deguet .
E comprei esta obra porque… era de uma beleza que me emocionou.
Esta não foi uma paixão herdada... mas agora estou passando o gosto para minha filha, meu irmão, meu sobrinho…
Minhas mídias preferidas são… vidro e barro.

Por que sua paixão pela arte popular brasileira?
Como moramos muito tempo fora do Brasil, e como me concentrei muito tempo na coleção de muranos, minha coleção sempre foi internacional; então, ao voltar ao Brasil, fui atraído pela raiz tão brasileira desta arte.

E pelos vidros, de onde veio o interesse?
Sempre gostei de vidros, desde pequeno colecionava garrafas coloridas. Mais tarde, conheci os vidros artísticos e comecei colecionando Lalique, Gallé… Aí, há alguns anos, comprei meu primeiro vaso de Murano e foi o início de uma paixão. As peças são tão únicas que um dia estava em um ateliê e mostrei ao mestre vidreiro fotos de alguns vidros que eu tinha. Ao ver a foto de uma luminária, ele arregalou os olhos e quase chorou: seu pai foi quem a havia criado. Ficou emocionadíssimo, pediu mais imagens, me deu um certificado. Depois que comecei a comprar muranos, perdi totalmente o interesse por aquelas primeiras peças francesas, é algo que não tenho mais e nem olho.

Então sua coleção muda com o tempo?
Com certeza, minha coleção vai mudando junto comigo. Se não gosto mais de alguma coisa, se ela não me agrada mais, me desfaço, vendo, dou. Às vezes, nem preciso deixar de gostar completamente, mas preciso do espaço para outra obra pela qual me encantei, então aquela que eu tinha tem que sair. Neste sentido, não sou um colecionador, não estou juntando obras de arte que me interessam como alguém que coleciona caixinhas de fósforo ou dedais. Estou escolhendo obras com as quais eu quero conviver, para ficar com elas enquanto esta vontade durar. Tenho este desprendimento: já cheguei a vender uma coleção inteira de murano para o Victoria and Albert Museum. Tinha ido à Inglaterra estudar, precisava do dinheiro e vendi. De vez em quando, ainda vou lá visitar, tiro foto… (Risos)

E na arte popular brasileira, o Sr. sente que seu gosto também foi mudando?
Sim, tenho muita coisa que comprei no começo que não me fascina mais. A gente começa errando, vai aprendendo e afinando o gosto à medida que conhece melhor. Aliás, toda coleção abriga erros. Hoje, conheço melhor e sei do que gosto. Na minha coleção, estão Vitalino, Isabel, Noemisa, Ulisses, Nuca, Mestre Didi e seus amuletos, Nino com suas obras de madeira.

Dentre as obras que você tem, há alguma que se arrependeu de ter comprado?
Várias, muitas. Às vezes, compro pela empolgação, às vezes compro coisa falsa. Quem nunca ficou tentado por aquela peça excepcional, com o preço lá em baixo, mas que deixa uma dúvida sobre se é ou não é? Por vezes, o colecionador tem que se policiar para não ser levado pela empolgação. Mas não quer dizer que tem sempre que desconfiar, eu já comprei muita coisa boa a preço ridículo, especialmente os muranos e as obras populares: muitas pessoas ou antiquários que têm estas peças não sabem do seu valor.

Vemos que algumas tradições culturais como a construção manual de barcos de pesca, a rabeca e o acordeão estão desaparecendo. Você acha que a arte popular brasileira corre este risco?
Está diminuindo, mas não acho que vá desaparecer, só vai mudar. É uma tradição passada de pai para filho, como no caso dos filhos do Vitalino, que seguem fazendo esculturas, mas as esculturas continuam retratando o cotidiano, e o cotidiano mudou. Eu tenho uma obra que mostra os bombeiros no resgate do World Trade Center e o carro de corrida do Fittipaldi. Antigamente, as pessoas que faziam estas figuras não tinham TV, internet, livros, luz elétrica, não tinham nada. Hoje, elas estão por dentro de tudo, têm uma visão mais ampla.

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