© Foto: Felipe Lessa

DASARTES 05 /

Celecanto provoca Maremoto

A paixão da jovem pela obra de sua amiga

QUAL SUA OBRA DE ARTE DOS SONHOS?

“Gosto de muitos artistas, é difícil escolher uma só obra. Adriana Varejão é uma grande artista, sua série de charques é muito especial. Uma das obras dela que me encanta é o mural de azulejos do Instituto Inhotim, com imagens cortadas de anjos.”

Os traços clássicos do belo rosto de Mariana Ximenes levam a imaginar uma personalidade romântica, afim às cores suaves e temas doces de Botticelli e Michelangelo. Nada disso. Mariana é uma grande apreciadora de arte contemporânea, antenada com o mundo das galerias e museus.

Ernesto Neto, Janaina Tschäpe, Rosângela Rennó, Vik Muniz… Em seus sonhos, estão obras de muitos artistas. Entre elas, várias instalações, como a gigantesca Anthropodino, de Ernesto Neto, que a atriz não almeja ter “por motivos práticos”, mas cuja força a atrai. Sua atenção também se volta para os objetos de Helio Oiticica e Lygia Clark, para as obras de Raimundo Colares, Nelson Lerner e Jarbas Lopes. Então relembra as visitas a Inhotim, o passeio que ela mais ama, onde várias de suas obras dos sonhos se espalham pelos jardins e pavilhões. Daí para passar para a obra de Adriana Varejão, de quem Mariana é grande fã, é fácil.

Os charques, junto com as línguas, são as obras mais reconhecidas de Varejão. Por baixo dos azulejos, elementos comumente assépticos e frios pulsam carnes e órgãos que transbordam pelas laterais quebradas da parede ou por cortes. Em algumas das obras, o barroco na estampa azul dos azulejos portugueses é um elemento de contraste, interpretado como símbolo da violência da colonização. Simbologia à parte, o choque entre o sangue vivo e a morta arte da azulejaria barroca é latente.

Em Celacanto Provoca Maremoto (2004-2008), sai a violência e fica apenas o frescor revivido na releitura desta arte. Conhecendo as outras obras da artista, o observador acredita sentir correr quente o sangue por baixo deste mural enorme. A obra foi criada especialmente para o segundo piso do pavimento de Inhotim dedicado à Adriana Varejão, inaugurado em 2008. Formada por 184 azulejões pintados em tons de azul e terracota sobre base de gesso, parece reconstruir um painel de azulejaria portuguesa, mas impondo o caos pelo embaralhamento aparentemente aleatório das peças. Esta desordem calculada evoca a maneira com que são repostos azulejos quebrados de antigos painéis barrocos, e as rachaduras intencionais em sua superfície reforçam esta imagem.

O caos também está no título da obra. A enigmática frase “Celacanto provoca maremoto” era uma pichação comum nos muros do Rio de Janeiro nos anos 1970, influenciada pelo cientista maluco da série de TV National Kid, que a repetia em eco com sua voz cavernosa. O que os pichadores talvez desconheçam é que a dúvida sobre se o farfalhar das nadadeiras de um peixe como o celacanto é capaz de provocar um maremoto é precursora da Teoria do Caos, que aceita a possibilidade de que um evento banal tenha grandes consequências ao longo do tempo. O título leva a imaginar se uma troca na ordem de azulejos não poderia, com a passagem dos séculos, mudar a obra, o pavilhão, o museu… Indagações filosóficas à parte, Celacanto e toda a obra de Varejão pontuaram a história e merecem estar nos sonhos de Mariana Ximenes.

Compartilhar:

Confira outras matérias

Matéria de capa

Alphonse Mucha

Alphonse Mucha é hoje um dos artistas tchecos mais famosos do mundo. Nascido em 1860 na região da Morávia, ganhou …

Destaque

Rosana Paulino: a costura da memória

Voz singular em sua geração, Rosana Paulino surgiu no cenário artístico paulista em meados dos anos 1990, propondo, de modo …

Do mundo

Anni Albers

Anni Albers começou seus estudos na Escola Bauhaus em Weimar em 1922. Apesar de seu desejo inicial de ser pintora, …

Reflexo

Vinicius SA por ele mesmo

O pensamento científico me influencia pela racionalidade, pelo cálculo e pela possibilidade de antever meus projetos. A prática artesanal é …

Garimpo

Marcel Diogo

A escolha dos leitores da Dasartes para o concurso Garimpo Online 2018/2019 é Marcel Diogo, somando a votação no site …

Resenhas

Resenhas

Intempéries permanentes e Ultramar
Referência Galeria de Arte
Intempéries permanentes – visitação até 23 de fevereiro
Ultramar – visitação até 26 de janeiro
POR …

Destaque

Jean-Michel Basquiat na Fundação Louis Vuitton

Inquebrável

Parece que palavras “tour de force” foram criadas para a exposição épica de Jean-Michel Basquiat na Louis Vuitton Foundation. A …

Matéria de capa

Andy Warhol: de A para B e vice-versa

“Eles não queriam meu produto. Ficavam dizendo ‘queremos sua aura’. Nunca entendi o que queriam.” – Andy Warhol
Esse trecho tirado …

Flashback

Constantin Brancusi

Constantin Brancusi (1876-1957) exibiu pela primeira vez sua escultura em Nova York, no Armory Show de 1913, ao lado de …

Do mundo

Jaume Plensa

“A escultura é a melhor maneira de fazer uma pergunta.” Jaume Plensa

“Firenze II”, de 1992, é um enorme ponto de interrogação …

Destaque

A vizinhança de Lucia Laguna

As pinturas de Lucia Laguna são inseparáveis do local onde foram feitas: o ateliê-casa da artista e os arredores do …

Garimpo

Gunga Guerra

Nascido em Moçambique e radicado no Rio de Janeiro, Gunga Guerra é a escolha do conselho editorial da Dasartes para …

Resenhas

Resenhas

Amsterdam Art Week
Museus e Galerias • Amsterdã • Países Baixos • 22 a 25/11/2018
POR SYLVIA CAROLINNE

Diversas foram as aberturas ao …

Matéria de capa

Os contos cruéis de Paula Rego

 

“Os contos cruéis”, de Paula Rego, exposição inaugurada em outubro no Museu  L’Orangerie, em Paris, marca um momento importante na …

Flashback

Pieter Bruegel, o velho

Bruegel é um moralista ou fatalista? Otimista ou cínico? Humorista ou um filósofo? Camponês ou habitante da cidade? Folclorista ou …